Brasília - Em entrevista gravada ontem para o programa “Fantástico”, da Rede Globo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que recebeu como uma “facada nas costas” as denúncias sobre o esquema montado pelo PT em parceria com o publicitário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza.
A afirmação do presidente ocorreu no momento em que mais uma vez ele se recusou a citar nominalmente seus alegados traidores. Logo após a atual crise política ter vindo à tona, em meados deste ano, Lula fez um pronunciamento a ministros no qual se disse “traído” por práticas que afirma não ter tido conhecimento prévio. “Não interessa se (o presidente) foi (traído) por A, B ou C. Todo o episódio foi como uma facada nas minhas costas”, declarou ontem o presidente, em um trecho da entrevista de 37 minutos gravada no Palácio do Planalto e que irá ao ar no domingo.
A expressão “facada nas costas” já havia sido atribuída a Lula pelo deputado cassado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que trouxe a público as primeiras denúncias do esquema do “mensalão”. Em depoimento ao Conselho de Ética da Câmara, o petebista disse que, ao ser informado por ele sobre o esquema, no início de 2005, Lula reagiu como se tivesse levado uma facada nas costas.
Ontem, de um caminhão de transmissão da TV Globo estacionado ao lado de uma das entradas do palácio, a reportagem conseguiu acompanhar ao vivo cerca de 3 dos 37 minutos da entrevista, até que um produtor da emissora percebeu a presença dos jornalistas e, com um anúncio de “acabou a festa”, trancou rapidamente as portas do veículo.
No trecho da entrevista que a reportagem conseguiu acompanhar, Lula adotou um tom menos enfático ao defender o deputado federal cassado José Dirceu (PT-SP), que desde que deixou a Casa Civil tem feito críticas sutis porém diretas ao presidente.
Ontem, o presidente demonstrou irritação quando o jornalista Pedro Bial pediu a ele que comentasse recente declaração de que levaria ao seu palanque o ex-ministro da Casa Civil. “Eu não disse. Eu fui perguntado se o levaria para o palanque”, afirmou o presidente à TV Globo. Em entrevista a rádios no início deste mês, Lula foi questionado se levaria Dirceu ao seu palanque.
A resposta, à época, foi a seguinte: “Eu levaria o José Dirceu para o palanque, até porque ele foi cassado e não foi provado nada contra ele”. Ontem, o presidente repetiu ser necessária a conclusão das investigações no Congresso para apontar culpados e inocentes no esquema de pagamento a parlamentares em troca de apoio a projetos do governo federal. “A CPI vai mostrar se ele (Dirceu) errou”, disse.
Aparentemente recuperado de uma irritação no olho direito, Lula bebeu um copo cheio d’água logo após ter falado do ex-ministro-chefe da Casa Civil. Ao final da entrevista, Bial disse que o presidente adotou um tom “afirmativo” em todas as respostas, mas sua aparência não é a mesma se comparada com o início do governo. “Ele está com cabelos mais brancos”, declarou.
Na entrevista ao “Fantástico”, o presidente também voltou a criticar a imprensa, dizendo que a mídia privilegia as notícias ruins do governo. “As coisas boas realizadas pelo governo não aparecem. Eu não digo nem nos anos anteriores, digo só em 2005.” Lula então citou a geração de empregos, o crescimento econômico, o controle dos preços e os acordos salariais fechados acima da média da inflação.