Se a carne é fraca, mais ainda o é o bolso, e por este e outros motivos o mundo jamais se livrará da corrupção, até porque qualquer idéia absolutista soa ridiculamente inexeqüível, risível como os pronunciamentos de Lula da Silva, como ‘nunca nenhum outro presidente neste país fez isso ou aquilo’ e outras declarações indicativas de uma personalidade doentia, pendendo fortemente para, mais que o egocentrismo exacerbado, mais ainda que o narcisismo, para a onipotência. Ou, quiçá, o mero caradurismo.
Talvez o presidente da República seja apenas um ator – apenas, porque ator, com certeza ele é – a ponto de negar a existência do Mensalão, cujo relatório ele sequer leu, tendo seu companheiro de partido, o senador Delcídio Amaral (PT-MS), lhe recomendado que o fizesse, conselho repetido pelo deputado Osmar Serraglio (PMDB- PR). Pois eis que no meio deste festival de desfaçatez desempenhado por Lula da Silva, Aldo Rebelo, Jaques Wagner e outros áulicos menos ínclitos, surge uma alvissareira notícia, vinda lá de longe, da China: um ex-ministro chinês foi condenado à prisão perpétua por crime de corrupção.
Ora essa, que exagero, ficar preso uma vida inteira por um crimezinho tão comum aqui por essas plagas! Aqui no Brasil a Constituição não permite que se condene ninguém a mais de trinta anos, o que já estaria de bom tamanho se virasse lei. O então poderoso ministro da Terra e Recursos daquele país asiático, Tian Fengshan, ex-membro do PCC-Partido Comunista da China, foi sentenciado por aceitar subornos de valores que, pelos padrões brasileiros, estão mais para esmola ou migalhas: meros US$538 mil no período de sete anos, o que dá menos de cem mil dólares por ano; não chega a dez mil mensais!
Pobre Tian, um ex-altíssimo funcionário público (dirigente soa mais fidalgo, pois não?) vai amargar o resto da vida na cadeia, sem as benesses da lei brasileira, como a progressão (redução) da pena por ‘bom comportamento’ e outras bondades do enorme pacote da nossa benevolente legislação penal. O leitor já imaginou o quanto de didatismo teria uma pena deste tamanho – a de 30 anos integrais mesmo – se um famoso qualquer a ela fosse condenado? Os crimes do senhor Tian eram tão singelos; talvez meros pecadilhos comparados às práticas ilícitas que neste Brasil são moda antiga: o quase ingênuo Tian recebia um mensalinho para permitir a venda de terras sem as devidas licença e licitação – pode rir, caro leitor: condenado à perpétua por falta de licitação, aquele ‘quase-crime’ tão praticado por aqui. Bem, este foi um dos penalizados num escândalo de dimensões valerianas que atingiu mais de 250 altos membros da cúpula do poder da China, e pode-se dizer que teve sorte, pois sua ex-colega Heilongjiang Han Guizhi recebeu a pena capital, foi condenada à morte, com um tiro na nuca e a bala, como é costume por lá, será debitada à conta da família.
A roubalheira perpetrada pela turma chinesa guarda mais algumas semelhanças com o presente escândalo político brasileiro: ocorreu entre 1996 e 2004. Por aqui, a coisa começou, até onde se sabe, pelos idos de 1997, patrocinado pelo tucanato (PSDB, o então partido governista de Fernando Henrique Cardoso). Além disso, o número de envolvidos, que todos sabemos, passa da centena, pode ultrapassar aqueles 250 que foram flagrados na velha China.
Claro que não se advoga a pena de morte por aqui, em hipótese alguma, mas uma legislação com penas longas, de 30 anos, cumpridas integralmente em regime fechado seria sem dúvida uma boa medida, até porque os corruptos, generalizando, costumam ser covardes.
O mal que fazem à sociedade não é menor do que aquele perpetrado pelo bandidão que assalta nas ruas com um revólver na mão. Na verdade, em termos sociais, este último causa muito menos mal - sim, porque a falta de recursos resultante da corrupção mata gente, por falta de recursos para os mais variados fins sociais- e tem a virtude de ser corajoso, no sentido de se expor.
O autor, Luiz Leitão, é articulista, luizleitao@allsites.com.br