Ignorados pelas rádios e TVs comerciais, bons talentos brasileiros, sejam veteranos, novos ou novíssimos, brilharam por si em um cenário cada vez mais independente. A MPB, o samba e as experimentações musicais seguem pelo caminho dos pequenos selos e gravadoras, enquanto as majors apostam apenas em sucessos certos do pop, rock, sertanejo e axé, massificando o dial das FMs e os programas de auditório. O JC Cultura relembra hoje alguns dos melhores discos nacionais e internacionais do ano passado - boa trilha sonora para os próximos meses, pelo menos.
Começando pelos medalhões: enquanto Maria Bethânia pisou em terreno seguro com uma coletânea em homenagem a Vinicius de Moraes, “Que Falta Você Me Faz”, Gal Costa lançou seu primeiro CD pela Trama, “Hoje”, com uma proposta recuperada da década de 70 - lançar novos e bons compositores - e produziu seu melhor disco em muitos anos. Tom Zé também marcou pontos com “Estudando o Pagode”, assim como “Real Grandeza”, de Jards Macalé, e o novo homônimo de Chico Pinheiro. Ná Ozzetti e André Mehmari fizeram um trabalho lírico e popular com “Piano & Voz”, assim como “Paralelas”, de Alzira Espíndola e Alice Ruiz. Outro destaque é o recém-lançado “Para Inglês Ver... e Ouvir”, show no qual Zizi Possi interpreta clássicos americanos com todo o belíssimo potencial de sua voz.
Lenine teve seu “Incité”, gravado ao vivo na França, elogiado pela imprensa nacional e estrangeira, como também foram “Aystelum”, de Ed Motta, e “Baladas do Asfalto e Outros Blues”, de Zeca Baleiro. O novo “Ana e Jorge”, gravado ao vivo, revela a intimidade entre Ana Carolina e Seu Jorge, em registro sem grandes inovações mas que agradou aos fãs. Já Zélia Duncan jogou nas onze, como cantora, compositora, produtora, lançou o CD e o DVD de “Eu Me Transformo em Outras” e seu “álbum de carreira” “Pré-Pós-Tudo-Bossa-Band”, dignos de todos os elogios que receberam e que a colocam certamente como a artista do ano.
Rock fértil
O ano passado foi de reinvenção para alguns, retorno de outros e muita mesmice para a maioria. Os paulistanos do Forgotten Boys fizeram um dos álbuns do ano, com “Stand By the D.A.N.C.E”, ao lado de “Futura”, da Nação Zumbi, “Você Não Me Conhece”, de Jay Vaquer, e o novo da banda carioca Ramirez, que leva apenas seu nome. Por outro lado, na tentativa de minimizar o que ganhava proporções messiânicas, o Los Hermanos produziu “4”, álbum intimista e controverso, justamente por ter deixado de lado as melodias interessantes dos discos anteriores. Ainda assim, o disco mantém-se acima da média, nivelada por baixo, de outras bandas nacionais - Jota Quest, Charlie Brown Jr., CPM 22, todos lançaram seus disquinhos.
Os Paralamas do Sucesso também voltaram às lojas com “Hoje”, com canções inéditas, força nos instrumentos mas fragilidade extrema nas letras e nos vocais de Herbert Vianna. O Capital Inicial recuperou sua história brasiliense e lançou o “MTV Especial Aborto Elétrico”, com as músicas compostas por Renato Russo e os irmãos Fê e Flávio Lemos. Apostando no certo, Ultraje a Rigor fez seu “Acústico”, um dos mais divertidos dos últimos tempos, e também O Rappa, com bons momentos de uma das bandas mais criativas do rock nacional.
Dois veteranos, Barão Vermelho e Titãs, colocaram as fichas em projetos do selo “MTV ao Vivo”, com diferenças qualitativas nos resultados. Enquanto o Barão faz seu primeiro DVD com um bom retrato de sua trajetória, com direito a participação de Cazuza (pelo telão), o Titãs não deixa o mais do mesmo, com uma música inédita, “Vossa Excelência”, que ficaria melhor nas vozes de uma banda de garotos.
No mais, Roberto Carlos fez o seu, Pitty consolidou sua carreira com “Anacrônico”, Maria Rita decepcionou no insosso “Segundo”, o Cansei de Ser Sexy finalmente virou disco e se mostrou mais hype do que música, Daniela Mercury ficou mais focada em “Balé Mulato”, e o Massacration, banda dos integrantes do programa “Hermes & Renato”, definiram como o rock deve ser divertido em “Gates of Metal Fried Chicken of Death”.