Depois da morte de Stalin, o líder comunista Chruschtschow denunciou, em um famoso discurso no Congresso Comunista, as atrocidades do ditador falecido e o fim de sua Era. Quando Chruschtschow terminou seu discurso, ouviu-se uma voz que vinha do meio da imensa platéia: “Onde você estava, camarada, quando tudo isso aconteceu?” O líder comunista olhou com tranqüilidade para todos e falou ao microfone: “O camarada que lançou a pertinente pergunta, quer por gentileza se levantar e se identificar?” Todos da platéia permaneciam em um tenso silêncio. Ninguém teve a coragem de se identificar. Depois de alguns minutos, o líder comunista, com um pequeno sorriso, completou: “Seja quem for o autor da pergunta, esta é justamente a resposta. Eu estava na mesma situação em que vocês se encontram agora!”
O ser humano deixa de ser simplesmente substância quando se torna verdadeiramente sujeito. As pessoas quando dormem são substâncias em ato, mas não deixam, neste estado de dormência, de ser sujeitos em potência. Quando despertam de seu sono revelam-se como seres pensantes e agentes de determinadas ações. O ser humano, então, torna-se ativo em suas atividades corporais e em sua compreensão do mundo. A partir deste estado de interação consciente com nosso universo nos aprofundamos em nossa vocação de sermos sujeitos, ou seja, somos capazes de analisar nossos próprios pensamentos e ações e tomar decisões que podem transformar o rumo de nosso cotidiano.
Aqui está o ponto essencial do tornar-se sujeito: a própria autonomia de ser sujeito. O ser do sujeito é uma verdadeira construção de si mesmo. Este ponto essencial é alcançado quando nos tornamos conscientes da decisão de querer ser, do poder de nos tornarmos nós mesmos. Muitas pessoas vivem relativamente bem sem se esforçarem para atingir esta autonomia do ser. Muitas pessoas se contentam em fazer o que os outros fazem, tomar as decisões que outros tomam. Porém, nunca possuem o prazer de fazer a diferença e enriquecer com ela nosso universo.
Mas, o ser humano que se esforça em ser sujeito de si mesmo e de sua história interagindo ativamente em seu meio natural e social nunca deve perder de vista que o ponto essencial de ser sujeito nunca é superado, ou seja, nunca é plenamente completado. Nós não conhecemos totalmente nosso universo, não conhecemos totalmente nossa natureza humana e suas reações, não possuímos uma interpretação acabada de nosso passado e muito menos sabemos o que acontecerá em nosso futuro. Portanto, as decisões de hoje não determinam necessariamente a livre decisão de amanhã, da próxima semana ou do próximo ano.
Nossas opiniões e nossos planos podem se transformar dependendo de nossas novas experiências, situações já vivenciadas e o atual contexto individual e social. Fundamental em relação à autonomia e liberdade é procurar ser definido no momento, mas nunca pretender ser definitivo para toda a vida. De qualquer maneira, nos tornamos sujeitos da história à medida que, conscientes, pensamos, analisamos, julgamos e agimos conforme aquilo que achamos correto. Neste sentido, afirma Aristóteles que o bem é aquilo que todos desejam. Desejar aqui é definido como uma força que nos movimenta para o bem e no seu alcançar encontra sua satisfação.
Para o pensamento da Antiguidade, desejar alguma coisa de mal é algo inimaginável, pois até mesmo o mal é algo que pode ser desejado por alguém e, portanto, algo de bom para aquele que deseja. Porém, a satisfação é maior quando o que é desejado realmente é aceito como um bem por todas as pessoas, aquilo que chamamos de bem comum. Como afirma Kant, escolher o que se quer significa decidir, em primeiro lugar, por sua liberdade e, em segundo, desenvolver um compromisso diante de si próprio e diante dos outros para o bem.
Sem dúvida alguma, o bem individual e comum devem surgir como resultado de nossa busca de sermos sujeitos. Mas antes do bem e do mal, não se pode eliminar a força que nos leva a pensar, julgar e agir. Como afirma Nietzsche, onde se encontra algo vivo, encontra-se o desejo pelo poder. No ser humano, esta força em potencial do desejo pelo poder não pode ser reprimida nas pessoas, mas deve-se fazê-la frutificar para o aumento de sua qualidade de vida. Nietzsche compara a situação das pessoas que buscam ser sujeitos da história com a imagem de uma árvore. Quanto mais a árvore cresce e expande seus galhos para o alto, mais se aprofundam suas raízes. Quanto mais os galhos se aproximam da luz, mais as raízes entram na escuridão. Assim, o bem e o mal não são para Nietzsche simples valores opostos que vivem em uma dualidade, mas fazem parte integrante do conhecimento do ser humano que se aprofunda cada vez mais na arte de viver.
Que neste ano de 2006 possamos ser sujeitos de nossa história, conhecedores da luz e da escuridão, pessoas bem informadas que analisam seus pensamentos e atos e que decidem e agem para a construção de um universo, no qual todos sejam respeitados em suas opções. Um feliz e fraterno ano de 2006.
*Especial para o JC