08 de julho de 2026
Esportes

Paixão à distância

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 12 min

O bauruense Reynaldo Grillo saiu de Bauru em 1974. Depois de passar alguns anos em São Paulo, vive há 19 anos em New Jersey, nos Estados Unidos. Os milhares de quilômetros que o separam de sua cidade não esfriaram sua paixão pelo Esporte Clube Noroeste. Longe disso, a distância e a saudade aguçaram o amor pelo clube vermelho e branco e Reynaldo se tornou um seguidor ainda mais fervoroso da equipe.

O computador é a ferramenta indispensável para o torcedor, que vasculha a rede atrás de todas as informações sobre sua paixão. Velho conhecido da Coluna do Leitor do Jornal da Cidade, onde faz questão de deixar sua opinião, sempre sobre o Noroeste, Reynaldo Grillo fala nesta entrevista sobre a solidão de torcer longe do País, lembranças dos antigos esquadrões alvirrubros, memórias de Bauru e também sobre sua vida nos EUA. A seguir os principais trechos.

Jornal da Cidade - Qual sua atividade nos EUA? Por que mudou-se para este país?

Reynaldo Grillo - Eu atualmente trabalho em uma companhia que instala portas e janelas. Trabalhamos aqui em New Jersey e em outros estados. A minha irmã Cinthia vive com a família dela aqui há muitos anos e eu, como sempre tive uma vontade muito grande de conhecer os Estados Unidos, aproveitei a oportunidade, vim com a minha família para passear e acabamos ficando.

JC - Como foi essa mudança em sua vida?

Reynaldo - A minha vinda para cá foi uma mudança bem radical em relação à vida que eu levava no Brasil. Aqui, os meus primeiros empregos foram na construção, onde se pagava melhor. Para isso, tive que enfrentar muito frio e neve e muitos verões com um calor intenso, onde a umidade do ar, muitas vezes, alcançava 100%. Eu tinha o objetivo de me legalizar no país e para conseguir o famoso green card tive que superar muitos desafios. Enfim, quando eu me legalizei, pude escolher um tipo de trabalho melhor. A vida de um imigrante não é nada fácil. Quando você tem um objetivo e quer vê-lo realizado, tem que ir em busca dele e acreditar naquilo que sonha. Mas por outro lado, foi uma boa experiência, pois pude aprender a me virar num país estranho, conviver com costumes diferentes, tive que aprender o inglês, pois sem ele você fica muito dependente dos outros. Hoje, posso dizer que estou bem adaptado aqui na América. Mas, sinceramente, eu morro de saudades do Brasil. Eu vivo aqui com a minha esposa Virginia, meu filho Glauco, nascido no Brasil - tem 20 anos e estuda business na Universidade de Connecticut - e o mais novo, Alex, que nasceu aqui, tem 13 anos e estuda o último ano do primeiro grau.

JC - Qual a lembrança da época em que ia ao estádio em Bauru?

Reynaldo - Tive muitas alegrias com o Norusca e também muitas decepções. Aliás, o Noroeste em si não tem culpa do que ele passou, mas tudo aconteceu devido à falta de um planejamento adequado e também à falta de união daqueles que poderiam fazer algo em torno do clube e se omitem até hoje. A situação em que se encontrava o clube até o início desta nova administração era terrível. Quase foi fechado e desfiliado da Federação Paulista. Um absurdo! Graças à intervenção do senhor Damião (um noroestino e bauruense de deixar qualquer um orgulhoso de ter nascido em Bauru) e através do trabalho que vem sendo realizado pelo grande Celso Zinsly, hoje o Norusca navega em águas mais tranqüilas. Lembro-me quando ia assistir jogos do Noroeste em certas épocas e a situação era feia. No término dos jogos aqueles poucos que ficavam para assistir até o fina saíam revoltados com o time. Quantas bandeiras foram deixadas para trás como sinal de protesto. Decepcionados, saíam xingando os jogadores e dirigentes. Na verdade, muitos jogadores iam somente passar férias em Bauru. Percebia que muitos deles não tinham raça e nem estavam preocupados com o Norusca. Aliás, muitos eram mesmo ruins de bola. Hoje em dia, a situação é bem diferente. Mas o Noroeste também teve muitas boas fases e montou muitos bons times que, com certeza, deixaram a sua torcida bastante orgulhosa. Eu sou noroestino por influência do meu saudoso pai, que era noroestino e corintiano. Só não fui influenciado pelo seu lado corintiano. O Pelé e o destino me fizeram santista. Mas entre Noroeste e Santos, eu sou Norusca sem dúvida. Eu recordo quando o meu pai me levou pela primeira vez ao Alfredo de Castilho, quando ele foi inaugurado, em 1960. Eu tinha na época, mais ou menos, oito anos. Foi muito emocionante. Era um jogo do Noroeste contra o Palmeiras, que tinha um timaço na época, e o grande Norusca, para o delírio de toda sua torcida, ganhou de 3 a 2. Ali, já iniciava a minha paixão pelo Norusca. O estádio estava lotado. Eu nunca esqueço quando o Noroeste, antes do início do jogo, entrou perfilado em campo com aquelas camisas vermelhinhas, calções brancos e meias vermelhas, destacando com aquele gramado verdinho e foi saudar a torcida noroestina. Aquilo para mim foi um convite que aceitei sem vacilar para fazer parte da sensacional nação noroestina. Juntando tudo isso e mais a vitória do Norusca, a minha adrenalina foi a mil. Esse acontecimento ficou gravado na minha retina e jamais esquecerei aquele grande momento.

JC - Qual time e jogo do Noroeste são inesquecíveis para você?

Reynaldo - O Noroeste teve muitas boas formações e algumas delas são especiais para mim, mas infelizmente no momento não lembro de todos os jogadores: a primeira, quando fui assistir pela primeira vez a um jogo do Noroeste, tinha na sua formação o Julião, Romualdo, Leal, Pedro, Zé Carlos, Navarro, Maneca e outros que não recordo, pois já faz muito tempo. Nos anos seguintes, o Noroeste teve outras formações que incluíam o meu ídolo e goleador Toninho Guerreiro, Navarro, Valdo e outros. Outro bom time que o Noroeste teve e eu presenciei e que jamais esqueço, foi aquele que disputou em 1970 a final para a volta à (Divisão) Especial do Campeonato Paulista e ganhou com uma vitória sobre o Nacional, tendo uma formação onde, entre outros, jogavam Fedato, Romualdo, Odair Cologna, Chiquinho, Marco Antônio. Quando o time voltou para Bauru, foi um grande carnaval. Outro bom momento que eu tive foi em Araraquara e eu estava lá também com torcida do Norusca. Aliás, naquele ano acompanhamos o Noroeste em quase todos jogos fora de Bauru. Vencemos a Ferroviária, em Araraquara (que jogo emocionante), com gols do Rodrigues e Julinho (negrinho bom de bola, que infelizmente já foi embora). Depois, outro jogo contra o XV de Piracicaba lá no campo deles. Tivemos que sair de fininho, pois a torcida deles estava bem revoltada e no final veio para cima de nós e queria a todo custo rasgar o nosso bandeirão. Levamos eles na conversa e conseguimos sair do estádio em direção aos ônibus com o nosso pavilhão intacto e voltamos para Bauru inteirinhos e com uma grande vitória. Na época do Brasileiro, também tivemos um bom time e só não permanecemos nele por motivos até hoje inexplicáveis. O Norusca teve outras ótimas formações, em que jogaram outros craques como Lourival, Tecão, Lela, Zé Mario Fedato, Ticão, Lorico, Vitor Hugo, Rodrigues, Batista, Baroninho, Washington, Araújo, Lourival, Luiz Carlos, Julinho, Zé Rubens, Tobias, China, Chico Spina, Jacenir, Marco Aurélio, Zé Mario e mesmo outros craques que não os vi jogar como o Zeola, Marini, Ranulfo, Colombo e muitos outros que passaram por lá e deixaram muitas saudades no coração da torcida.

JC - Há quanto tempo não vê o Noroeste ao vivo?

Reynaldo - Quando eu mudei para São Paulo e o Noroeste ainda participava da Primeira Divisão, eu cheguei a assisti-lo na Capital contra os times de lá e até mesmo em Santos. Praticamente desde que eu vim para cá (New Jersey), nunca mais assisti jogos do Norusca, pois quando eu ia para o Brasil era época de férias dos jogadores ou não tinha jogos em Bauru. Eu lembro que, quando ia a Bauru e perguntava sobre o Noroeste, a gozacão era total. Era uma situação de total descrédito. De lá pra cá, eu venho acompanhando o Noroeste através de jornais, internet, ou informações de amigos e parentes de Bauru.

JC - Como acompanha os jogos do Norusca?

Reynaldo - Eu acompanho os jogos do Norusca ouvindo o Timão de esportes da Rádio Auriverde. Aliás, gostaria de dar um alô para o grande comentarista e noroestino Cacau para que ele volte logo para fazer os seus comentários sobre o Norusca. Quero deixar o meu muito obrigado a Auriverde por fazer possível a mim, como também todos os noroestinos que vivem fora de Bauru, poderem acompanhar via online os jogos do grande Norusca. Fora isso, eu devoro tudo quanto é informação sobre o Noroeste que tenha na internet. Pois você estando fora de Bauru, fica complicado acompanhar o dia a dia no Norusca.

JC - Com quem ouve os jogos, sozinho?

Reynaldo - Sim, eu sou um torcedor solitário. Às vezes, a minha esposa passa pela sala, onde tenho o meu computador, e pergunta quanto está o jogo. Cheguei a me emocionar muito quando o Noroeste voltou para a Série A2, Série A1 e quando da conquista da Copa Federação. Quando o Noroeste voltou para a Série A2, foi interessante, pois o pessoal da Auriverde estava emocionado e eu aqui também. Que festa, que felicidade! Durante os jogos, eu visto a camisa do Norusca e vibro pra caramba. E quando sai gol do Norusca, eu grito. Meus vizinhos devem pensar que estou louco, pois aqui é tudo quieto. Tudo bem, quando eles assistem beisebol ou futebol americano (que, sinceramente, eu não vejo graça) é aquela bagunça. Então, estamos empatados. Aliás, quando eu estou ouvindo um jogo do Norusca, eu me transporto para o meio da torcida, seja no Alfredão ou em qualquer parte que eles estejam, e ajudo a empurrar o time para frente. É claro que eu gostaria de estar aí, presente, mas infelizmente não é possível. Então, eu tenho que dar o meu jeito. Eu gostaria de ter mais gente para trocar idéias. Atualmente, estou ligado nas entradas no segundo tempo do Buiú, pois quando ele entra é certeza de gol para o Norusca. Aliás, eu tenho uma atenção especial para as categorias de base do Norusca, pois delas têm saído muitas boas revelações e aí está o futuro do Noroeste.

JC - Torcer pelo Norusca à distância, além de estravazar um sentimento, tem algum outro significado?

Reynaldo - Sim. A realização de ver o Noroeste como um grande time e respeitado por todo esse Brasil. Um time do nível do São Caetano dos bons tempos, Goiás, Atlético Paranaense para começar. Eu acredito muito nessa possiblidade. Um time que dê sempre prioridade na formação de novos valores. Pois aqueles que são formados na base do time criam uma ligação especial com o clube e, além do mais, se identificam com a torcida. Torço para que essa nova mentalidade que administra o Norusca continue imperando lá pelos lados da Vila Pacífico. Tenho também a esperanca de voltar a ver os empresários de Bauru a apoiar o Norusca e dar uma força ao senhor Damião, fazendo com que o time se fortaleça cada vez mais e possa levar o nome de Bauru para todo o universo do futebol. Tenho esperança de que com o tempo eles se sentirão sensibilizados com esta grande causa. Noroestinos não vamos jamais permitir que os nossos sonhos tenham limites. Vamos acreditar que o Noroeste realizará cada um dos nossos sonhos alvirubros.

JC - Já tem algum norte-americano noroestino?

Reynaldo - Sinceramente, é meio complicado alguém torcer para um time desconhecido sem ao menos assisti-lo na TV. Quando eu percebo que alguém é ligado em futebol, procuro conversar com eles sobre o time que sou fã. Aqui passa muito futebol da Alemanha, Inglaterra, Itália na TV. Quem quiser assistir futebol do Brasil, vai ter que pagar um satelite dish. E como muitos deles não entendem a língua, tampouco vão pagar para ver um futebol, se eles não entendem o que estão falando. Muita gente aqui realmente menospreza o futebol. Realmente, é a minoria que curte mais. Bem, eu procuro passar os sites do Santos e do Noroeste (que precisa de uma atenção especial quanto a atualização). Eu já passei o site para muita gente e o pessoal reclama muito. Embora o pessoal não entenda português, eles acham interessante por serem times do Brasil. É claro que eu procuro passar uma informação legal sobre o meu time e acabo fazendo um trabalho de internacionalização do grande Norusca e com isso, quem sabe, vão começando a se interessar por ele. Veremos no futuro.

JC - Qual sua expectativa para o Paulistão?

Reynaldo - O time do Noroeste ainda e uma incógnita para o Paulistão. Temos pouco tempo para treinamentos e entrosamento do time e o plantel ainda não está formado (a estréia é dia 11, contra o Corinthians). Espero que que até lá o time esteja “tinindo”. Será um campeonato de tiro curto. Teremos que aproveitar todas as chances possíveis e tentar ganhar os jogos em Bauru. Por isso, noroestino, vamos lotar e avermelhar a nossa casa! Vamos fazer do Alfredão uma lugar bem complicado para os nossos adversários! Vamos juntar força com a Sangue Rubro e ajudar a empurrar o time do Noroeste pra frente. Seria muito bom estrearmos no Paulistão com uma vitória sobre o Corinthians. E só acreditar.

JC - Você já jogou futebol?

Reynaldo - Eu sou um eterno peladeiro. Ainda participo até hoje aqui, nos parques. Tem um parque aqui perto de casa e lá sempre tem alguns latinos fazendo racha. De vez em quando, participo, jogando com a camisa do Noroeste. Com certeza, todos eles sabem quem é o Norusca. Adoro futebol. Ele é para mim uma grande paixão.

JC - Quais são seus outros hobbies?

Reynaldo - Gosto de viajar, ouvir música na internet, gosto de literatura espírita, ouvir e ler sobre esportes, principalmente sobre futebol e que fale especialmente sobre o Norusca e o Santos, além de gostar de escrever sobre a minha paixão noroestina, que é uma forma de divulgar e incentivar os esportistas a prestigiar mais o Norusca e, em seguida, mandá-las para a Tribuna do Leitor do Jornal da Cidade para serem publicadas.