09 de julho de 2026
Perspectivas 2006

Cultura: Carnaval e opções de qualidade são desafios

Diego Molina
| Tempo de leitura: 5 min

A cidade ainda é dona de contradições tamanhas na área cultural. Enquanto o show da cantora Ivete Sangalo reuniu cerca de 40 mil pessoas e o Praia Skol, que trouxe apenas Babado Novo e CPM 22 (em edições de outros municípios, a lista de atrações incluiu Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Capital Inicial e Gabriel o Pensador) levou mais de 15 mil ao Recinto Mello Moraes, Bauru teve uma micareta - Carnaval fora de época - cancelada, outra com público ínfimo e segue a Grand Expo em situação que nada lembra o cenário da feira lotada, quase intransitável, da década passada.

Considera-se que a Grand Expo 2005 teve um ano atípico e difícil. Entretanto, a programação de shows não sofreu alteração – a não ser pelo cancelamento da apresentação de Sérgio Reis. Então, por qual motivo o público que foi até o Recinto Mello Moraes nos dias em que as maiores atrações subiram ao palco não alcança nem mesmo a média do que recebe o ginásio do Serviço Social do Comércio (Sesc) em dia de show? Os preços são populares – pelo menos nessas duas opções –, mas o resultado, completamente desigual.

Pode-se afirmar que os eventos que obtiveram maior público foram as novidades – Ivete veio a Bauru no auge de seu sucesso e o Praia Skol foi uma balada com estrutura digna dos maiores festivais de música. Porém, transformar qualquer outro show em um evento regional, com direito a caravanas das cidades vizinhas, não é possível? Com locais adequados, seria tão viável quanto levar os freqüentadores do Sesc – para atingir um público completamente misto – a um bom espetáculo apresentado em qualquer bairro da cidade.

Em entrevista ao JC Cultura no começo do ano, um produtor cultural de Catanduva apontou uma fórmula certa para o desenvolvimento da área em qualquer cidade. “Você precisa ter espaços adequados para receber um show mediano, para 5 a 10 mil pessoas – isso é o que a maioria dos artistas consegue reunir – o que, automaticamente, faz o preço dos ingressos cair, juntamente com uma programação ativa. Um casal que sai de casa ou de uma cidade vizinha para ver o espetáculo não quer só isso, então movimenta-se o setor de restaurantes, bares, posto de gasolina, shopping center, hotéis e motéis. É uma engrenagem que funciona bem em diversas cidades, mas falta peças e até incentivo de empresários em Bauru”, apontou, na época.

Ele ainda confirmou outro resultado: com uma estrutura cultural em funcionamento, amplia-se também a oportunidade de oferecer mais opções a preços populares ou até mesmo shows gratuitos.

Festa do povo

O Carnaval no Sambódromo, guardadas as proporções, se enquadra também nessa visão. No passado, quando as escolas de samba eram bancadas pela administração municipal, a festa foi das maiores do Interior paulista. A prefeitura fechou o cofre, as escolas guardaram os tamborins. Em anos anteriores, algumas ainda conseguiram levar os integrantes para as ruas de sua comunidade, porem sem qualquer alegoria ou enredo montado.

O retorno dos desfiles de Carnaval foi promessa da Secretaria Municipal de Cultura (SMC) para 2006, assim como a Liga das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas de Bauru (Lesec) comprometeu-se a organizar seus integrantes em busca de recursos. Houve a tentativa de incluir os desfiles na Lei Rouanet de incentivo cultural – até o momento, não aprovada pelo Ministério da Cultura – e certa movimentação em algumas escolas, tentando reunir seus integrantes e promover eventos em busca de dinheiro. Mas foi pouco, visto que já é certo que Bauru passará mais um ano sem os desfiles.

A questão, vista com distanciamento, é mais ampla do que a simples restauração do Sambódromo e a passagem dos sambistas pela passarela. O público comparecerá aos desfiles com a certeza de que o espetáculo será tão bonito como nas décadas de 80 e 90? Ou ainda: há um projeto que torne viável a empresários um investimento real nas escolas e na festa, antevendo que sua participação no processo depende do retorno que eles obteriam? São questões obrigatórias a uma tradição que, se não for repensada com urgência, seriedade e objetividade, vai se renegada a fotografias do passado.

Promessas e urgências

Entre as concretizações deste ano, um dos maiores avanços foi o estabelecimento do Conselho Municipal de Cultura, que tomou posse no início de dezembro. Com 28 membros, o órgão tem representação do poder público, Oficina Cultural Glauco Pinto de Moraes (Secretaria de Estado da Cultura), Sesc, Lesec, universidades e das associações das categorias (letras, teatro, dança, cineclube). Estabelecido como consultivo, o conselho tem a função de discutir propostas e políticas culturais para o município a médio e longo prazo, especialmente, e quer, segundo seus membros, tornar-se deliberativo para buscar poder de decisão nos projetos e investimentos da SMC e de temas que toquem a coletividade cultural em Bauru.

Em razão da heterogeneidade de seus membros, vindos de áreas distintas da cultura ou de setores que têm pouco contato com os artistas e o público, o conselho terá como verdadeira meta não se deixar tornar um ponto de encontro de interesses e reclamações, mas sim elevar suas propostas aos realizadores e cobrar qualidade, quantidade e acessibilidade a toda sorte de eventos culturais.

Outra boa notícia já ventilada na cidade é a proposta - dessa vez fundamentada - de que o Bauru Shopping poderia ganhar um novo complexo de cinemas, com pelo menos novas cinco salas. Como uma das únicas opções freqüentes de diversão na cidade, é mais do que merecido. Contudo, o uso dos cinemas não pode restringir-se como vem ocorrendo em Marília, por exemplo, que já possui nove salas nas quais as duas distribuidoras mantêm sempre os mesmos filmes, numa espécie de concorrência estúpida, reduzindo pela metade a função cultural dos espaços.

Vale ressaltar o trabalho iniciado pelo Cineclube Aldire Pereira Guedes e também da Sala de Vídeo do Centro Cultural Carlos Fernandes de Paiva, que tentam abrir espaço entre as produções comerciais e apresentar à comunidade bauruense opções clássicas e alternativas de cinema. Sua atuação, especialmente do cineclube, será mais qualificada quando firmar parcerias com projetos como Cine BR em Movimento e oferecer não só filmes já disponíveis ao público, mas também lançamentos e estréias nacionais, inclusive com a presença dos realizadores para sessões de bate-papo com os cinéfilos.