Para quem já entrou em 2006 com a “corda no pescoço”, a melhor maneira de sair da forca e retomar o controle orçamentário são dois caminhos “manjados”, mas ignorados por milhares de brasileiros: gastar saliva para renegociar as dívidas e cortar gastos supérfluos. É o que recomenda o economista e consultor financeiro bauruense Fernando José Martha de Pinho.
“Para recompor sua capacidade financeira, o enforcado deve procurar todos os credores e, com humildade e bom senso, dizer que quer pagar, que está impossibilitado momentaneamente e que ganha ‘xis’. Nunca deixe a dívida vencer e tente firmar acordos, que devem ser cumpridos integralmente e não empurrados com a barriga somente como estratégia para ganhar tempo. Com a renegociação você ganha o respeito do credor e aumenta sua credibilidade”, orienta Pinho.
Outra providência imprescindível para sair do “vermelho”, conforme o consultor financeiro, é cortar tudo que for desnecessário ou está sendo utilizado em excesso. “Há casas com cinco celulares. Para que essa quantia se, antigamente, ninguém morria quando não havia esse equipamento? A Internet é importante como ferramenta de trabalho, mas vou deixar um filho dez horas por dia nela por quais motivos? O que isso está gerando de benefícios à criança ou à família?”, questiona Pinho. E complementa:
“Os aluguéis também podem ser negociados, pois hoje há uma farta oferta de imóveis residenciais. Uma boa conversa entre inquilinos e proprietários pode ajudar a diminuir essa despesa.”
O economista também pede atenção redobrada para outros “vilões” responsáveis por grande parte dos apertos familiares: os gastos pessoais. “Pense se você está realmente precisando de uma roupa nova e o que ocorrerá se você não comprá-la. Se a resposta for nada, então isso pode esperar mais alguns meses. Também estamos no verão e agora não é hora de comprar roupas para essa estação. O ideal é esperar fevereiro e março, que é quando os lojistas estarão trocando o estoque para o inverno e são obrigados a vender essas mercadorias por preços mais baixos. Percebe-se também em famílias com gastos estourados em cartões de crédito que, em muitas ocasiões, eram compras feitas somente por impulso”, pondera Pinho.
O consultor lembra, ainda, de famílias com mais de um carro na garagem. “Quem tem dois ou três carros deve pensar se realmente é o momento para mantê-los nessa quantidade. Desfazer-se deles pode até gerar desconfortos, mas é melhor enfrentar isso do que passar o ano inteiro depois com o nome na Serasa porque não conseguiu pagar as contas”, compara. E enfatiza:
“Tudo isso são pequenos cuidados que fazem grande diferença no final do ano e geram muitos benefícios. É um verdadeiro tratamento de choque que não dá para contemporizar e, acima de tudo, um exame de consciência, pois é uma decisão, além de econômica, também psicológica.”
Exemplo
O vendedor bauruense Oneir Aparecido Caçador é um exemplo a ser seguido quando o assunto é o controle de gastos e o equilíbrio do orçamento doméstico. Assim como recomendam os economistas, ele, com o apoio da família, marca rigorosamente todas as entradas e saídas de dinheiro da residência, põe tudo no papel e estabelece as percentagens do quanto cada despesa representa do volume total da renda familiar.
“Aprendi a fazer isso após casar seguindo o exemplo da minha mulher, que sempre foi muito regrada em relação aos gastos. Sem dúvida, ela foi uma grande economista para mim”, brinca Caçador. E acrescenta: “Pouca gente se atenta para isso, mas 80% da boa administração financeira vem da cabeça das mulheres, que normalmente conhecem mais os gastos domésticos que os homens.”
O sistema adotado pelo vendedor é detalhista. Em todo início de ano, ele lista todos os gastos que teve no ano anterior, firma as porcentagens e separa os valores correspondentes para quitá-los. Faz isso mensalmente e na relação de despesas Caçador contabiliza também os recursos obrigatórios para gastar com IPVA, seguro obrigatório e IPTU, que vai pagando ao longo dos meses de forma parcelada. “Há várias vantagens de fazer isso. Além de perseguir os compromissos durante todo o tempo e sem pesar no bolso, também nos preparamos para eventuais surpresas e imprevistos, pois obrigatoriamente poupamos 30% do que ganhamos”, enfatiza. E completa:
“Assim, chego no início de todos os anos com dinheiro para quitar todos os gastos obrigatórios à vista e ainda faço uma reserva financeira.” Além disso, Caçador também toma providências para evitar o consumismo desenfreado. Não possui cheque, não deixa dinheiro parado na conta corrente, não paga qualquer tipo de juros e nunca renegocia dívidas. “Até porque evito fazê-las”, observa o vendedor.