10 de julho de 2026
Articulistas

O que Naqsha encontrou nos escombros?


| Tempo de leitura: 2 min

Uma das neuras do homem moderno é excesso de controle. Controlamos nossos horários, nossos negócios, nossa dieta... Fazemos o mesmo com os nossos nossos interesses, nossos instintos, nossas vidas... e por aí vai. Às vezes extrapolamos e queremos controlar os outros. Acreditamos que planejamento, organização e disciplina são suficientes para sermos eficientes e assim nos sentirmos seguros. Aí vem o acaso e... o mundo cai em nossas cabeças.

Ninguém nos ouve, não há o telefone, nem câmeras filmando, nem a expressão possível de um grito. Estamos sós! Literalmente foi o que aconteceu com Naqsha, uma paquistanesa de 40 anos que certamente não planejava que no dia 8 de outubro um terremoto despejasse sobre ela um destino que parecia terminar naquele exato instante. Embora sejam previsíveis terremotos no Paquistão, não havia previsão possível para o que viria depois.

A imobilidade, a dor, a angústia, o frio, fome, sede, solidão, medo... o tempo. Talvez tenha sobrevivido a esperança de que alguém a percebesse, ali, suplicando por socorro. Mas estava invisível. Até quem a encontrou, depois de tanta espera, a deixou diante da improbabilidade explicita da continuidade da vida. O que passou pelos pensamentos dessa mulher virando 60 dias e noites na mais pura impotência? Todos desistiram: a família, o estado, a razão...

Que forças restariam à Naqsha diante do mais extremo abandono que a natureza humana pode oferecer? As águas sujas da chuva talvez lhe deram a seiva mínima para empurrar para a próxima hora, o próximo minuto ou o próximo segundo, o fim. Mas é preciso mais do que líquidos para tamanha superação. A vida é teimosa!

O que essa paquistanesa encontrou nos escombros e que, provavelmente, nem ela saiba responder? Os crentes diriam que foi obra de Buda, Krishna ou Cristo. Os céticos, que foi sorte. A verdade é Naqsha quebrou todas as regras da nossa lógica. Que bom que existem as imprecisões da vida e que, para a nossa felicidade, ainda não inventamos regras para controlá-las.

O autor, Luís Victorelli, é jornalista, coordenador do Projeto ScienceNet de Ciência e Cidadania. lvict@terra.com.br