Nesse vinte e oito de dezembro de 2005 presenciei um quadro quase consumado de desolação e estupidez. Árvores grandes, belas e verdejantes estavam sendo arrancadas por máquinas possantes, no Jardim do Contorno, outrora Banespa, agora sede da Caixa Econômica Federal, entre o novo Confiança Flex e o prédio da Justiça Federal.
Foi autorizada pela Semma a derrubada de vinte e sete (27) árvores, porque dois laudos de engenheiros civis lhe foram apresentados (o primeiro foi indeferido), sob a alegação de que as mesmas “comprometiam” o muro e a calçada. Temos aí uma inversão de valores, aqueles é que estavam atrapalhando as árvores, não o contrário. Com criatividade, competência e boa vontade o problema poderia ser resolvido, mesmo porque vi árvores sendo arrancadas num espaço totalmente livre, em frente ao prédio.
A credibilidade da Semma saiu arranhada neste episódio ao curvar-se à solicitação feita. Alega-se que, a partir do momento em que há dois laudos, não dá mais para contestar. Quem é o responsável por essa legislação absurda? Foi exigido, em troca, que 39 mudas fossem replantadas para “compensar” o dano ambiental. Quantos anos elas levarão para crescer? dois, dez, mais?
Leitores, vejam como não podemos mais ou tão-somente culpar o omisso e despolitizado indivíduo comum por falta de cidadania e consciência ambiental, se nossos órgãos públicos municipais e federais são os primeiros a não darem exemplos positivos e a ignorarem possibilidades de preservação das áreas verdes. O ciclo do poder econômico enoja, e há, no país, uma cadeia de proteção aos grandes crimes ambientais. Quando o assunto envolve a flora, a visão utilitarista e restrita de engenheiros civis não poderia sobrepor-se a uma entidade de proteção ao meio ambiente, mantida para esse fim. Concluo então que estamos pagando, com nossos impostos, a inoperância do quadro municipal de profissionais especializados nessa área, entre eles, os engenheiros florestais. E assim, a cada dia, nosso patrimônio natural está sendo mais destruído, sem a interferência efetiva, inclusive, da promotoria pública.
Houve protestos? Nada escutei ou li a respeito, a não ser uma foto publicada pelo Jornal da Cidade (14 dez. 2005), da imensa raiz de uma das 27 árvores destruídas, sob o oportuno título “Natureza Morta”. Caixa Econômica Federal e todos os envolvidos nesse episódio: nota zero! A sociedade industrial tem um esquema suicida, agravado pelo oportunismo e indiferença da classe dominadora do país, seus políticos, entidades estaduais e federais, ou seja, o próprio governo, que são os primeiros a depredar e desprezar valores básicos de coexistência pacífica com o nosso precioso e vulnerável ecossistema.
Pedro de Souza Meira - RG 27.849.708-1