Bagdá - Cento e vinte iraquianos mortos em dois ataques de homens-bomba e mais sete baixas americanas fizeram de ontem o dia mais violento no Iraque em quatro meses. Em 48 horas, o saldo de mortes superou 180, sinal claro de que as aguardadas eleições parlamentares de dezembro não amenizaram as tensões sectárias no país por mais de duas semanas.
Os ataques de ontem, que deixaram mais de 200 feridos, ocorreram nas cidades de Karbala e Ramadi. A primeira, no centro-sul, abriga um importante santuário xiita. Já a segunda é um bastião árabe-sunita, na conturbada Governadoria de Anbar (oeste).
O alvo do homem-bomba em Ramadi foi uma fila de aspirantes a policiais, cerca de 1.000 homens que esperavam passar por uma inspeção de segurança em um centro de recrutamento. Ao menos 70 morreram, segundo hospitais locais, e 65 foram feridos. O ataque em Karbala aconteceu cerca de uma hora antes.
As TVs iraquianas mostraram poças de sangue em meio a entulho provocado pela explosão em um mercado com vista para a mesquita do imã Hussein, uma das mais importantes para os xiitas. Pelo menos 50 pessoas morreram ali - alguns relatos dão conta de 63 mortos. Transeuntes ajudaram a socorrer os quase 140 feridos, e a imagem de uma mulher chorando com um bebê morto ou ferido nos braços foi repetida à exaustão.
A cidade não sofria um ataque fatal desde dezembro de 2004 - em março daquele ano, ataques durante um festival religioso haviam deixado mais de 90 mortos. “É uma guerra contra os xiitas. Estamos preocupados, parece que eles querem uma guerra civil”, disse Rida Jawad al Takia, do Conselho Supremo para a Revolução Islâmica no Iraque.
O partido encabeça a coalizão religiosa xiita, a mais bem colocada nas eleições de dezembro, segundo resultados preliminares. A minoria árabe-sunita - na qual se ampara a insurgência - e os árabes xiitas de linha secular acusaram os religiosos xiitas de fraude na votação. A comissão eleitoral está investigando as queixas, mas já afirmou não crer que seja o caso de anular a eleição.
A escolha da primeira Assembléia Nacional desde a queda de Saddam Hussein a ser eleita para um mandato completo, de quatro anos, foi o passo mais importante até agora para a desocupação do Iraque. A expectativa era que a alta participação integrasse os sunitas ao processo político e esvaziasse a insurgência, amenizando a violência e possibilitando o início da retirada das tropas dos EUA.
Embora líderes políticos de diferentes facções debatam a formação de um governo de coalizão, isso não parece ter sido suficiente para conter a violência.