10 de julho de 2026
Auto Mercado

Contran proíbe de novo pneu usado em motos

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Começou a valer desde o dia 1 deste mês a proibição das motocicletas utilizarem pneus recauchutados e remoldados. Trata-se de uma imposição do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que alega falta de segurança do produto para justificar a polêmica medida, causa de uma verdadeira “guerra” entre fabricantes de equipamentos novos e reformados. A resolução número 158 do órgão já havia sido adiada várias vezes - a última, em 29 de junho do ano passado, esticou o prazo de suspensão até 31 de dezembro de 2005 para a conclusão de estudos técnicos, que acabaram não sendo executados, sobre a segurança dos produtos.

O AutoMercado & Cia tentou ouvir a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip) sobre o assunto, mas até o fechamento desta edição a assessoria de imprensa do órgão não havia retornado nenhum dos contatos tentados pela reportagem. Entretanto, o JC apurou que a Anip, entidade que reúne grandes multinacionais fabricantes de pneus, é favorável à resolução e considera inseguros os produtos reformados para motos alegando que os mesmos não são projetados para essa finalidade.

Além disso, a Anip teria solicitado um teste de dirigibilidade acompanhado pelo Instituto Falcão Bauer para avaliar as supostas diferenças de performance dos pneus reformados. Os resultados teriam apontado que os pneus novos oferecem maior precisão durante as manobras, enquanto os reformados perdem 30% da estabilidade quando submetidos a esforços e apresentam estabilidade 65% menor em linha reta e 70% em curvas, aderência 40% menor em solos molhados e precisam de mais tempo e espaço para parar.

Já a Associação Brasileira do Segmento de Reforma de Pneus (ABR) rebate as alegações do Contran e da Anip sobre a falta de segurança dos equipamentos. Ao comentar o assunto no site da associação - www.abr.org.br -, o presidente em exercício da ABR, Hersílio Coelho de Moura, destaca uma reportagem da revista Pnews mantida no mesmo site.

Nela, o Conselho Nacional de Trânsito é criticado por ter tomado uma decisão baseada em um teste feito sem critérios técnicos ao ter editado, pela primeira vez, em 22 de abril de 2004, a resolução 158. A prova disso, conforme a matéria, foi o fato do próprio Contran ter baixado, 14 meses depois, a resolução 173 que suspendeu a proibição do uso de pneus reformados em motocicletas até 31 de dezembro do ano passado para conclusão dos estudos técnicos comparativos entre pneus novos e usados que seriam realizados pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) de São Paulo. No entanto, a reportagem critica que a proposta não foi posta em prática por falta de dados e critérios por escrito para o IPT efetuar o teste.

Apesar disso, a ABR elaborou, de forma independente, uma bateria de testes nos laboratórios do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) de São Leopoldo (RS), especializado em polímeros, e São Bernardo do Campo (SP), além do Parabor, de São Paulo. Também enviou amostras de pneus reformados e novos para o Instandards Testing Labo-ratories (Inc-USA) para serem submetidos a testes dinâmicos de velocidade sobre carga. Todos os resultados foram positivos ao comprovar a qualidade dos pneus reformados para motocicletas. É o que garante Carlos Thomas, assessor técnico da ABR e técnico químico especializado em pneus entrevistado pelo Auto-Mercado & Cia. “Todos os testes científicos foram executados em laboratórios certificados pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro) e de competência reconhecidas no mercado”, enfatiza. “O próprio Contran pediu ao IPT que realizasse os testes, que não foram feitos e estranha-mente segurados até agora. Tenho uma carta com timbre da União e do Ministério das Cidades solicitando a efe-tivação dos estudos, o que nunca foi feito. E agora entrou um outro presidente no Contran que não quis nem saber e determinou o cumprimento da resolução 158, o que nos deixa com fortíssimas suspeitas sobre um eventual acordo com as multinacionais”, critica.

Além de confirmar o teste feito pela Anip nos produtos, Thomas o questiona severamente em virtude, conforme o técnico, do mesmo ter sido realizado com caráter subjetivo e unilateral. “Pegaram um motociclista, colocaram na pista de prova deles e o piloto falava que determinado pneu reformado não era bom. Isso foi feito secretamente por uma multinacional e o Contran, baseado nisso, baixou uma resolução sem emba-samento científico nenhum. Foi uma sacanagem, pois eles não deram o direito dos refor-madores mostrarem cientificamente que o produto é bom, o que eu provei que é”, frisa.

No entanto, Thomas admite que nem todos os pneus reformados são de boa qualidade em razão da existência dos maus profissionais do segmento. “Realmente o mercado precisa ser depurado, pois tem gente que não faz um serviço de qualidade. Se há péssimos profissionais e produtos, eles que saiam do mercado, mas quem tem de tirá-los de circulação é o Inmetro”, conclui.