Como toda criança, brincar é prioridade no cotidiano de Bruno Fernandes dos Santos, 6 anos. Para isso, ele não poupa esforços e costuma reunir todos os jogos, carrinhos, bichos de pelúcia, peças de plástico e doces na sala. E também no quarto, na cozinha ou onde tiver companhia, de preferência dos amigos.
Não raramente a diversão termina em bagunça, para desespero da mãe, a bancária Sandra Maria Fernandes. “O Bruno é muito ativo. Escolhe um brinquedo e não é preciso esperar cinco minutos para que ele escolha outro, deixando o primeiro jogado. Em seguida, pega outra coisa e também a deixa esparramada. Quando chego do trabalho, tenho que organizar tudo”, conta.
A cena típica do dia-a-dia de Fernandes se repete em centenas de outros lares. Afinal, depois que uma criança entra em casa, o cenário dificilmente será o mesmo. “Meu apartamento era impecável. Minhas amigas vinham aqui e ficavam até com medo de entrar. Mas depois que o Bruno nasceu, nada mais fica no lugar”, brinca a bancária.
A exemplo de Fernandes, muitos pais enfrentam uma batalha para organizar o “caos doméstico” e manter a situação sob controle - nada, porém, que não possa ser resolvido com algumas estratégias simples e aplicadas desde cedo, explica Cláudia Regina da Costa Chaves, psicóloga clínica e escolar.
Segundo ela, criar filhos menos desordeiros é resultado de um processo gradativo, que envolve todos os membros da casa. “Manter as coisas organizadas é um exercício constante”, afirma.
“Como a organização está implícita em tudo que fazemos, a criança costuma se dar conta disso. Quando não, as regras precisam ser acordadas e mantidas. Os pais devem mostrar aos filhos que as tarefas são responsabilidade de todos e deles também”, complementa Chaves.
O aprendizado deve começar cedo, ressalta a psicóloga, mas é fundamental respeitar os estágios de desenvolvimento de cada criança, de acordo com sua faixa etária. “A mãe pode pedir para que a criança leve sua mamadeira até ela, por exemplo, pedir para que ela guarde sua chupeta”, sugere.
Brincando de arrumar
A autonomia e o senso de organização infantil se desenvolve gradativamente e, durante esse processo, os pais podem utilizar recursos lúdicos para estimular os pequenos a arrumar a bagunça, aponta a psicóloga. “A capacidade de fazer alguma coisa sozinho aumenta aos poucos, mas é possível mostrar à criança, desde pequena, como se faz e acompanhá-la nessa atividade”, diz.
Uma dica, sugere Chaves, é promover brincadeiras na hora de guardar os objetos. “O pai pode dizer ao filho: ‘você guarda um brinquedo e eu o outro, dessa forma faz companhia à criança enquanto ela organiza seus objetos até que ela passe a fazer isso naturalmente”, detalha.
Essa estratégia é adotada pela da dona de casa Fabiana Sawada. Mãe de Alessandro Sawada, 4 anos, e Erik Sawada, 1 ano e 7 meses, ela aposta na ludicidade para incentivar os filhos a arrumar seus brinquedos.
“Eles gostam de bonecos como os do Power Rangers, bola, massinha de modelar e jogos. Misturam tudo e deixam esparramado pela casa toda”, conta ela. O cenário fica ainda mais bagunçado quando Gabriel Kimura, 2 anos, se junta aos primos. “É difícil fazer com que eles arrumem tudo. Nessa hora eu desafio e faço uma espécie de competição: ‘Quem vai arrumar primeiro? ‘Eu ou vocês? Aí eles guardam”, conta.
O avô, o funileiro industrial Mário Masso Kimura, que mora na mesma residência de Sawada, já se acostumou com o caos doméstico. “Eu arrumo, mas quando olho para trás está tudo bagunçado outra vez, na sala, nos quartos e no quintal. Eu não ligo porque em casa sempre houveram crianças”, afirma.
Há pouco tempo, Kimura recebeu outro “time” de bagunceiros: os netos Aline Aryssa Kimura Marques, 8 anos, Amanda Yukari Kimura Marques, 9 anos e Bryan Jun Kobayashi Marques, 12 anos, que vieram passar as festas do final de ano e aproveitaram para brincar com os primos menores.
Apostando ainda na ludicidade, brincadeiras podem estimular o senso de ordem. Algumas, podem ser aplicadas em episódios do dia-a-dia, explica Chaves. A psicóloga aposta em frases de efeito que garantem a satisfação da criança em tornar-se mais organizada e cita alguns exemplos:
“Que bagunça está essa cama, vamos arrumar?’; ‘Olha, veja a bagunça que a mamãe fez, vou por ordem já nisso’; ‘Xi, o papai esqueceu o chinelo ali, vamos guardar para ele?’; ‘Foi você quem arrumou tudo isso? Muito bem!’; ‘Puxa você está aprendendo a cuidar das suas coisas!’”, aponta Chaves, enfatizando que os pais devem ficar atentos quando a desorganização é exagerada, o que pode ser sintoma de hiperatividade, Transtorno do Deficit de Atenção ou dislexia.
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Incentivo na hora de organizar
Outra estratégia para educar filhos desordeiros é reconhecer o valor da organização e dos passos que a criança dá nesse sentido, destaca Chaves. De acordo com ela, elogiar atitudes positivas e estabelecer limites são algumas soluções eficazes.
Segundo ela, os pais não devem facilitar esse processo, arrumando a bagunça dos filhos, por exemplo. “Os pais quase sempre acabam arrumando por não conseguirem ficar em um ambiente bagunçado. E eles têm razão nesse aspecto, mas a criança precisa fazer isso”, diz.
“Se os pais criam resistência emocional para as birras dos filhos na hora de colocar ordem na bagunça, já vencem meio caminho”, observa a psicóloga. Saber tolerar cara feia e resmungo também é fundamental.
“Se os pais criam resistência emocional para as birras dos filhos na hora de colocar ordem na bagunça, vencem meio caminho. Eles podem expressar que sabem o quanto a criança não gosta de arrumar, mas que a organização é necessária”, explica ela, ressaltando que o bom senso não deve ser deixado de lado. “Os pais devem lembrar que ordem é um aspecto muito importante para a vida, mas ela não deve ser mais do que a própria vida. Tudo isso pode ser conquistado recheado de carinho e firmeza.”.