08 de julho de 2026
Ser

Sinais de evolução

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 9 min

Desde 2002, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão de comunidades surdas. No final de dezembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva regulamentou a Lei de Libras, de autoria do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que prevê a formação de professores e intérpretes bilíngües.

Boa notícia para o Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (USP), o Centrinho, e a Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Craniofaciais (Funcraf), que há décadas lutam pela inserção social dos portadores de deficiência.

Há 14 anos, o Centrinho e a Funcraf mantém o Núcleo Integrado de Reabilitação e Habilitação (NIRH), que oferece curso de Libras e de língua portuguesa na modalidade escrita para surdos, além de dança, coral e artes plásticas. As atividades buscam, entre outras metas, melhorar a comunicação, escolaridade e formação profissional dos portadores de deficiência auditiva.

E o programa está produzindo cada vez mais resultados. Prova disso é a inserção de 28 usuários do NIRH no mercado de trabalho (leia mais na página 3) somente no ano passado – vitória creditada ao trabalho da pedagoga e educadora artística bauruense Maria José Monteiro Benjamin Buffa, com o apoio de uma equipe multidisciplinar envolvendo profissionais, entre psicólogos, fonoaudiólogos, assistentes sociais, instrutores de libras e educadores artísticos.

Há cinco anos na coordenadoria do NIRH, Buffa tem como principais objetivos incluir deficientes auditivos no ensino regular e capacitar professores, intensificar a colocação de surdos no mercado de trabalho e integrá-los à sociedade.

Para isso, não mede esforços e nem tempo – o qual é dividido com o marido e os dois filhos, de 24 e 18 anos. Mestre em distúrbios da comunicação humana, Buffa faz doutorado na mesma área e afirma que seu trabalho é fruto de aprimoramento e paixão, sentimento que, em diversos momentos da entrevista, foi expresso em falas embargadas e carregadas de emoção.

Jornal da Cidade - Quais são os objetivos e as atividades desenvolvidas pelo NIRH?

Maria José Monteiro Benjamin Buffa - O principal objetivo é a inclusão social do surdo. Para isso, ele precisa se comunicar. Oferecemos atividades de língua portuguesa na modalidade escrita - uma forma de comunicação a mais com o mundo dos ouvintes - e o aprendizado da Língua Brasileira de Sinais. Temos um instrutor porque muitos pacientes chegam ao núcleo com gestos espontâneos, uma comunicação caseira, e tudo é padronizado, como qualquer outra língua. Hoje, o Brasil tem duas línguas: a língua de sinais e a língua portuguesa. Além disso, oferecemos aulas de informática para facilitar a colocação no mercado de trabalho e atividades de expressão plástica e artesanato, que facilitam a integração, comunicação e desenvolvimento da auto-estima dos deficientes auditivos. Dessa forma, eles descobrem e desenvolvem seus potenciais, porque muitas vezes nunca tentaram ou tiveram oportunidade para isso. Além disso, as atividades artísticas servem como forma de geração de renda; as meninas aprendem ponto cruz, os meninos fazem quadrinhos e acabam vendendo seus trabalhos. Há também atividades de coral e dança.

JC - A dança, aliás, é um dos destaques dentro das atividades artísticas desenvolvidas pelo núcleo. Como a arte pode ajudar no processo de reabilitação e habilitação dos deficientes?

Buffa - A dança deu muito certo. Eles estão se sentindo bem e acham o máximo se apresentar, coisa que eles nunca imaginaram um dia. A Língua Brasileira de Sinais necessita muito da expressão corporal e a dança ajuda a desenvolver o ritmo e a comunicação. Eles estão se apresentando e integrando-se à sociedade. Participaram da 5.ª Mostra de Artes sem Barreiras e se apresentaram na Associação Luso-Brasileira de Bauru (ALBB) e as crianças que estavam convivendo com eles nos ensaio quiseram aprender alguns sinais. Cerca de 800 pessoas os aplaudiram e isso é fundamental para que eles se sintam parte da sociedade. Por meio da dança, nós percebemos uma mudança muito grande: a participação das famílias aumentou e elas passaram a acreditar mais nas potencialidades de seus filhos. A expressão facial e corporal, a criatividade e espontaneidade melhoraram. A dança é uma forma de comunicação e só trouxe benefícios.

JC - O NIRH enfrenta dificuldades?

Buffa - Não, o núcleo está bem estruturado. Às vezes temos problemas de espaço físico e equipamentos de informática, por exemplo, mas fizemos uma parceria com a igreja Santa Rita e lá eles têm aulas de informática. Temos necessidade de mais fonoaudiólogos e pedagogos para dar atenção de melhor qualidade, mas graças a Deus as equipes são ótimas. Isso porque o trabalho é apaixonante e envolvente. Quando o profissional percebe, já está estudando, se especializando e se aperfeiçoando cada vez mais. A chance de sucesso é maior daqui para frente, se consideramos que em 2004 colocamos 18 surdos no mercado de trabalho e no ano passado, 28 - sendo que todos estão no ensino regular e todos os professores estão sendo capacitados. A sociedade está abrindo as portas para os surdos. Nós vibramos com os resultados. Sou meio suspeita para falar porque sou apaixonada pelo que faço. É gratificante demais ver o resultado de um trabalho em que é preciso acreditar porque ele é lento. É preciso ir com calma e estudar muito porque cada caso é um caso e é fundamental respeitar o tempo de cada paciente. Não se pode desanimar e a equipe tem que ser coesa. Acho que nem precisaria ter a lei de inclusão dos deficientes. A diversidade deve ser aceita de forma natural. As pessoas devem se respeitar e respeitar as diferenças.

JC - Quais são os principais problemas enfrentados pelos portadores de deficiência auditiva?

Buffa - A comunicação é a barreira principal, porque as pessoas não conhecem a língua deles. É a mesma situação de uma pessoa que vai para os Estados Unidos e não sabe falar o idioma do país. A segunda é a escola porque aprender matemática, por exemplo, é mais fácil, mas como falar de história para um surdo? A escola é uma dificuldade grande. Nós exigimos que o deficiente auditivo vá para a escola e procuramos dar todo o apoio necessário para isso porque ele precisa melhorar sua escolaridade e condição cultural para que possa arrumar melhores empregos e ter uma profissão. Hoje as empresas nos solicitam para colocá-los no mercado de trabalho e geralmente são poucos os que atingem o perfil que a empresa atende: nível médio completo, atender o telefone, informática e que escreva bem - o surdo tem muita dificuldade para escrever porque ele pensa em Libras e não em língua portuguesa escrita. A barreira começa na comunicação e depois na escola, porque se ele não tiver escolaridade, não tem emprego.

JC - De que forma é feita a inserção dos deficientes auditivos no mercado de trabalho?

Buffa - O Centrinho, através da Fundação para o Estudo e Tratamento das Deformidades Craniofaciais (Funcraf), mantém uma parceria com as empresas. O paciente vai para a empresa e enquanto ele está em treinamento, recebe ajuda de custo da Funcraf, que é 80% do salário mínimo. A empresa não tem gasto nenhum, ela abre o espaço, o deficiente fica em treinamento na empresa e se houver interesse, ela o contrata. E a empresa tem toda a assessoria de nossa equipe da educação profissional, com acompanhamento de psicóloga e assistente social, além de um instrutor de libras, se necessário. É importante que as empresas de Bauru saibam que existe essa possibilidade.

JC - Em geral, quais são as funções que os deficientes desempenham?

Buffa - Ainda não conseguimos colocá-los numa situação melhor, mas os deficientes auditivos estão atuando no trabalho de produção em indústrias, no setor de limpeza e como empacotador em supermercados, entre outras funções.

JC - Como os deficientes auditivos têm acesso à escolaridade?

Buffa - Eles estão em escola regular, em classes com crianças ouvintes. Os deficientes têm dificuldades, mas damos capacitação para os professores para que eles lidem bem com os surdos e de forma eficaz. Além disso, oferecemos assessoria técnica em sala de aula: se os professores estão com dificuldade, podem nos procurar e vamos até a escola. Estamos tentando melhorar o nível de escolaridade dos surdos, ensinando Libras para os professores e também para a comunidade.

JC - O que mudou com a regulamentação da Língua Brasileira de Sinais?

Buffa - É uma forma de ajudar a eliminar as barreiras da comunicação. Libras será um disciplina para os cursos de fonoaudiologia e educação e acredito que os cursos oferecidos pelo Centrinho serão mais procurados. As pessoas estão muito preocupadas e interessadas em aprender Libras e nós estamos com muita vontade de ensinar. Precisamos que a sociedade saiba se comunicar com os deficientes auditivos. Tudo isso vem contribuir e mostrar respeito à pessoa surda.

JC - Apesar disso, ainda há despreparo e desinformação da sociedade?

Buffa - Sim. No mestrado desenvolvi uma dissertação sobre a inclusão do deficiente auditivo em sala de aula. E nas respostas, muitos professores disseram que não tinham condições de atender os deficientes e que eles deveriam estar numa classe especial; apesar deles serem a favor da inclusão, não se sentiam capazes. Alguns não foram a favor, disseram que não era função deles, não estavam formados para isso, que haviam estudado para trabalhar com crianças normais, como se os deficientes fossem anormais. Eles são diferentes, como qualquer pessoa. Têm possibilidade de se comunicar e devem ser respeitados. Ainda existe rejeição, mas percebemos que a sociedade está acolhendo mais os deficientes. O importante é que as pessoas acreditem no potencial do surdo. Nosso objetivo maior é incluí-los na sociedade.

JC - Em 14 anos de trabalho, houve alguma experiência marcante envolvendo os usuários do NIRH?

Buffa - Fiquei muito emocionada ao vê-los dançando street dance. As crianças e os adolescentes entram aqui de uma forma: não se comunicam, não querem conversa e às vezes são agressivos. De repente ocorre essa evolução, integração com os amigos e com a sociedade. Para mim, isso é marcante.

JC - Quais são os próximos projetos do NIRH?

Buffa - Queremos um dia nos tornar um centro de referência bilíngüe. Há também uma parceria com o Instituto Nacional para Educação de Surdos (Ines), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC). No final de maio, pretendemos fazer o primeiro seminário e surdez em parceria com o Ines.