08 de julho de 2026
Saúde

Memória de peixe ou de elefante?

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 4 min

Antonio Henrique Cassaro, 56 anos, é executivo de vendas e, apesar da vida agitada e cheia de compromissos, não tem o hábito de usar agendas: “Tenho tudo gravado na memória, números de telefones, CNPJ, até placas de carro ficam registradas”. Considerado o homem da “memória de elefante”, Cassaro é do tipo que não relê nenhuma publicação, pois considera informação repetida.

“Sou assim desde criança, minha mãe até me colocou antes na escola e aos 6 anos já sabia ler e escrever (o que não era comum, na época)”, recorda. Acostumado a ser consultado sobre endereços, números e contatos profissionais, Cassaro responde de imediato e raramente se esquece de alguma coisa. “Faço várias coisas ao mesmo tempo, mas é raro esquecer algo, somente quando o dia está muito corrido mesmo.”

O neurologista Luiz Carlos Garcia Betting, 62 anos, lembra que há diferenças no funcionamento científico sistemático do cérebro, pois a memória não está localizada em uma única área, mas especialmente no hipocampo e no córtex (lóbulos frontal e temporal). “São áreas interligadas com as áreas das emoções e cognitivas”, ensina. Essa comunicação entre as áreas justifica o fato de algumas pessoas, consideradas “memória de elefante”, terem eventualmente lapsos de memória.

“Normalmente, isso ocorre quando a pessoa enfrenta distúrbios emocionais, como tensão, estresse, cansaço, perda de familiares. Nessas condições, a capacidade de memorização dos fatos fica reduzida”, ensina o neurologista. Uma pessoa que teve uma forte emoção pode ter uma amnésia, esquecer um período de sua vida. Betting explica que as questões genéticas também podem causar a falta de memória, além do próprio envelhecimento do cérebro, o que pode ser evidenciado com a doença de Alzheimer, quando há uma degeneração neuronal e a redução dos mediadores químicos.

Cassaro é exemplo da soma de fatores genéticos e ambientais. Possivelmente, seu cérebro possui características genéticas da boa memória, além de seu temperamento equilibrado. “Jamais me estresso e sempre tenho bom humor. Sou o tipo de pessoa que só fica preocupada quando está sem dinheiro, mas aí também não esquento a cabeça, fico em casa e evito gastos.”

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Amnésia eventual

Mas o que também é preocupante, principalmente entre jovens, é a amnésia eventual. “São casos transitórios, com origem no alcoolismo, no uso de drogas comerciais e paralelas e traumatismos de crânio” , diz. Outros fatores que podem contribuir para a ausência de memória são decorrentes de doenças como hipertensão e diabetes.

O especialista comenta que as pessoas que têm uma atividade intelectual intensa, se comparada a alguém que se utiliza pouco da memória têm mais facilidade em memorizar. “Mas isso ainda não está comprovado”, diz Betting. Ele explica que no processo da memória, é necessário ter o conhecimento da informação, o cérebro interpretar e armazenar. “Às vezes ele recebe a informação, mas não interpreta. Pode haver aí um déficit cognitivo leve”, exemplifica.

É comum algumas pessoas mais desatentas serem consideradas “memórias de peixe”, por apresentarem lapsos de memória. O fato de ouvir determinada informação não significa que esta foi registrada no cérebro. “É como um computador, também é necessário salvar o arquivo para que os dados sejam armazenados”, compara.

Em sua experiência profissional, Betting raramente encontra jovens como paciente. “A maioria é composta por pessoas com mais de 60 anos, que começam a ter lapsos de memória. Casos de jovens são mais freqüentes quando há tensão e estresse”, diz.

Mas há certos tratamentos. O médico orienta as pessoas a observarem os sintomas estiverem repetitivos, atrapalhando o cotidiano, devem procurar especialistas. “A análise neurológica aliada a testes psicológicos podem apontar as causas da perda da memória. Há tratamentos, alguns não há cura, mas há como minimizar as conseqüências”, acrescenta.

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Sesi promove oficina

O Sesi de Bauru organiza em 2006 mais uma turma da Oficina da Memória, voltada a pessoas com idade a partir dos 55 anos. Os novos grupos estão com inscrições abertas e os encontros terão início no próximo dia 11. De acordo com informações da chefe do Centro de Atividades Sociais do Sesi de Bauru, Rosemary de Andrade dos Santos, o projeto tem o objetivo de dar a oportunidade aos idosos que freqüentam a unidade do Sesi e comunidade a exercitarem sua memória.

Em grupo, eles terão a oportunidade de valorizar seu passado por meio de sua história de vida, além de buscar a integração com as novas gerações a partir da transmissão de informações aos mais jovens. Assim, o programa pretende estimular a continuidade e a identidade cultural dos idosos. Além de proporcionar momentos de lazer, socialização e melhora da auto estima. “Já tivemos dois grupos formados em 2005 e a demanda cresce a cada dia. Há uma forte integração entre os participantes, a amizade se fortalece e, muito importante, a família reencontra o idoso”, salienta Rosemary.

Ela explica que a partir desta idade é muito comum a “síndrome do ninho vazio”, quando os filhos tomam seus rumos e os pais precisam administrar a casa se eles. A oficina, em sua análise, colabora para mostrar novos caminhos e minimizar a sensação de perda. Rosemary também destaca que ainda no primeiro semestre haverá o módulo 2: “A diretora do Sesi (Zuleika Léa Lemos de Almeida Gonsalves) já solicitou a São Paulo, pois a demanda é grande”, acrescenta.

• Oficina da Memória

Inscrições até o dia 11 de janeiro, início do curso

Período: 4 meses

Custo: R$ 15,00 mensais para material

Realização: Sesi Bauru (rua Rubens Arruda, 8-50)

Telefone: (14) 3234-1066 ou 3234-7171, ramal 230