10 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Viver o futuro no presente

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Em uma cidade da Índia, um adolescente carregava nos ombros seu irmão que estava doente das pernas. A caminho do consultório do médico, o adolescente ouviu, então, de um estranho: “Ele não é muito peso para você, garoto?” O adolescente com um sorriso respondeu: “Ele não é um peso, ele é o meu irmão que um dia vai se tornar um atleta!”

Toda reflexão humana é desenvolvida dentro dos parâmetros da temporalidade. Em outras palavras, quando refletimos sobre os fatos de nosso presente, é inevitável fazermos uma relação com nosso passado ou com o futuro que tememos ou desejamos. Nós pensamos sempre em uma perspectiva cronológica. A consciência humana nunca está limitada a um simples presente. Como escreveu Martin Heidegger, “o estar-aqui (Dasein) do ser humano é sempre infinitamente mais do que seria se o limitássemos ao seu puro presente”. No agora, somos uma síntese de todas as experiências vividas no passado e nos projetamos para um tempo que ainda não é presente. O tempo, na verdade, é uma ilusão criada pelo ser humano e o futuro é fruto de sua atual consciência. Na natureza, a lua cheia não é o futuro da lua crescente. A lua crescente é somente a lua crescente. Mas, ao olharmos para a lua crescente estabelecemos, no universo humano, o seu futuro: a lua cheia.

O futuro é, em primeiro lugar, extraído da falta. Nós temos um futuro a partir do momento que nos sentimos faltantes. Somente percebendo nossas falhas, podemos constatar que nosso universo humano pode ser melhor do que ele está sendo. Se fossemos seres completos e acabados, nós não teríamos mais futuro. Sem querer entrar na origem histórica e ideológica da expressão, quando dizemos que o Brasil é o país do futuro, afirmamos que nosso país possui, no presente, inúmeros problemas. Ele ainda não é o Brasil que um dia pode e deve ser. Nós nos movimentamos para o futuro porque em nosso presente possuímos experiências que não nos são prazerosas, suficientes ou realizadoras.

Mas o futuro não surge somente da percepção das faltas. O ser humano pode perceber as faltas e se resignar com elas, se acomodar com o mundo e tentar se convencer que o mundo “é” assim, e não que o mundo “está” assim. Uma pessoa resignada com sua vida é uma pessoa sem futuro. O futuro é em segundo lugar e, principalmente, fruto do querer. Desejando profundamente ser mais abrimos as portas para a realidade que chamamos de futuro. Sartre define o futuro como um “tenho-de-ser na medida em que posso não sê-lo”. O futuro é uma necessidade que possuo de ser mais do que já fui ou estou sendo, mesmo sabendo que tenho inúmeras possibilidades de não alcançar meus objetivos. O futuro é uma força imaginativa que me faz livremente tentar construir a vida, mesmo que tenha possibilidades do fracasso.

Sendo impulsionado pela falta e pelo querer em completá-las, a idéia de futuro surge como um caminho da transcendência humana. O ser humano é um ser que transcende, porque é um ser que possui futuro. Neste caminho livre de transcendência, está a essência do ser religioso. O ser humano não é religioso porque acredita em Deus, mas ele acredita em um Deus porque é religioso. E ser religioso significa inicialmente re-ligar-se com sua essência e com seu momento atual; em outras palavras, alguém que compreende seu presente e, portanto, se reconhece como faltante, incompleto, inacabado. Ser religioso não é alguém que se aliena tentando se convencer que a vida no presente é maravilhosa, mas alguém que enxerga e percebe as lacunas da vida na atualidade.

Mas o ser religioso é, principalmente, alguém que não se resigna, não se acomoda com as dores da vida. Ser religioso é viver um processo de transcendência na concretização do futuro que deve ser sempre melhor, mais completo que o presente. Assim, podemos perceber que muitas pessoas, apesar de acreditarem em Deus, não são, na verdade, religiosas. Existem religiões ou visões “religiosas” que, muitas vezes, impedem que o ser humano se torne verdadeiramente religioso. Visões que tentam nos convencer de que Deus deseja o nosso sofrimento, que nós temos sempre uma cruz para carregar, que mundo é mesmo um mar de lágrimas e que todo poder de mudança cai do céu como um milagre.

O ser religioso, pelo contrário, é aquele que reflete profundamente sobre as lacunas de sua vida e, inconformado com os fatos da atualidade, deseja profundamente ser mais do que está sendo. Alguém que busca concretamente a mudança das coisas para melhor.

Por fim, a maior característica daquele que é religioso é a ação concreta para a construção deste futuro. Em outras palavras, o religioso não é um idealista sonhador, ele não vive a transcendência de uma forma abstrata. Para o religioso não existe separação do espiritual e do material. Para ele a transcendência não permanece em sua imaginação, mas se torna realmente carne, se torna vida concreta. O futuro se torna ato do presente.