São Paulo - O Ministério Público e a Polícia Federal (PF) estão tentando rastrear uma nova conta do publicitário Duda Mendonça no Exterior. Segundo reportagem publicada ontem pela revista “Veja”, uma segunda “conta secreta e milionária” foi aberta num banco de Miami (EUA). Duda, que coordenou o marketing da campanha à Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, já havia revelado, na CPI dos Correios, a existência de uma conta sua nas Ilhas Bahamas, chamada Düsseldorf, por meio da qual teria recebido R$ 10,5 milhões do esquema do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza, acusado de operar o caixa dois petista e o “mensalão”.
Duda tinha acertado o recebimento de R$ 25 milhões pelos trabalhos prestados à campanha petista. Segundo o publicitário baiano, a abertura da conta Düsseldorlf, em um paraíso fiscal, teria sido uma exigência feita por Marcos Valério para depositar os R$ 10,5 milhões ainda devidos. Alegando temer levar um calote, Duda disse ter aceitado as regras impostas. Posteriormente, o publicitário pagou R$ 4,3 milhões à Receita Federal, retificando a declaração do Imposto de Renda de 2003, que omitia a conta Düsseldorf e os depósitos feitos para suas empresas fora do País.
A segunda conta - não revelada por Duda na CPI - só teria sido descoberta, segundo a “Veja”, porque o ex-marqueteiro de Lula é monitorado pelas autoridades monetárias norte-americanas. Esse acompanhamento começou logo após ele admitir ter recebido os R$ 10,5 milhões de Marcos Valério no Exterior. Ainda no ano passado, a filha do publicitário, Eduarda Mendonça, tentou encerrar e sacar todo o dinheiro da segunda conta - ainda não há informações de quanto havia depositado nela.
O fato chamou atenção do banco, que bloqueou qualquer movimentação financeira por alguns dias e comunicou o fato às autoridades americanas. O publicitário baiano integra uma lista de possíveis envolvidos com “lavagem de dinheiro”, que são monitorados constantemente nos EUA. A informação foi repassada em 17 de novembro ao Ministério Público brasileiro.
O Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), ligado ao Ministério da Justiça, enviou uma solicitação de bloqueio da segunda conta de Duda. Mas nenhum bloqueio foi realizado até agora, segundo a reportagem publicada pela revista. O motivo seria a falta de dados para embasar o pedido de congelamento.
A coordenadora-geral do DRCI, Wanine Lima, já foi acusada, em relatório da Polícia Federal, de atrapalhar as investigações sobre as movimentações de Duda Mendonça no Exterior. “Enquanto as equipes policiais trabalhavam nas investigações no Brasil e operacionalizavam a ida a Nova York, a representante do DRCI (Wanine) encontrava-se no Exterior buscando influenciar as autoridades americanas a não repassar as informações solicitadas às autoridades de investigação constituídas e legitimadas”, diz o relatório da PF, revelado pela “Folha” em novembro.
As autoridades brasileiras querem saber ainda se a suposta outra conta de Duda nos EUA foi aberta antes ou depois dos depósitos feitos por Marcos Valério nas Ilhas Bahamas - se foi antes, fragilizaria o argumento de que a conta Düsseldorf só existiu por exigência dos petistas. Documentos em poder da PF e do Ministério Público sobre a offshore indicam que a conta Düsseldorf estava praticamente zerada em novembro -os recursos haviam sido sacados antes da quebra do sigilo do publicitário, determinada pela CPI dos Correios.
Os documentos sobre a movimentação do publicitário no Exterior foram encaminhados pelos EUA às autoridades brasileiras. Além das contas no Exterior, a CPI dos Correios também investiga depósitos oficiais de Duda no Brasil. Nessas contas, o publicitário teria movimentado R$ 337 milhões. Duda prestar um novo depoimento aos parlamentares. Seu indiciamento deve ser pedido no relatório final da CPI.
Após o depoimento de Duda à CPI, o Planalto considerou incompatível que o publicitário continuasse a cuidar da imagem do governo e da do presidente -entre outras, as agências de Duda detinham a conta da Secretaria de Comunicação do Governo (Secom) e da Presidência. Isso não impediu, todavia, que a Petrobras renovasse por um ano o contrato de publicidade que tinha com a agência de Duda.
Em agosto do ano passado, a "Folha" revelou que a conta Düsseldorf era abastecida por uma série de empresas virtuais.