Na minha frente a jamanta levantava poeira num trecho da estrada federal (BR 116) onde o asfalto há muito deixara de existir. Quando o caminhão alcançou o pavimento restante, mas ainda rendado de buracos, deu para ler no pára-choque traseiro: “JK- procura-se outro”. A lembrança revela a nostalgia em relação ao criador de Brasília e também a percepção, cada vez mais nítida, de que o Brasil estacionou nos últimos vinte anos. Clamamos por um líder que nos faça reencontrar o caminho do desenvolvimento.
Juscelino foi um presidente demagogo e populista que tinha grandes amigos empreiteiros aos quais favoreceu na construção de Brasília. No canteiro de obras da Esplanada dos Ministérios os caminhões carregados de cimento entravam por um portão e saiam com a mesma carga pelos fundos. Muitos se enriqueceram às custas dos cofres públicos e a farra continua. Durante o seu governo a inflação duplicou e a dívida externa foi elevada em 64%. Por outro lado, nenhum presidente conseguiu encher esta nação com tanto otimismo e ânsia empreendedora. O povo tinha a ilusão de ganhar dinheiro. Abrir um negócio, vender alguma coisa, seja lá o que for, eram determinantes. Durante a campanha eleitoral JK prometera fazer o Brasil progredir 50 anos em 5. Depois que assumiu o governo, em janeiro de 1956, os brasileiros tiveram a nítida sensação de que era tudo verdade. No rádio, na nascente televisão, nos jornais e nos noticiosos exibidos no início de cada sessão de cinema, Juscelino era figura permanente. Inaugurava obras, explicava como um professor o seu Programa de Metas, prestava contas sobre a evolução do planejado. Nascia a indústria automobilística, a indústria naval, hidrelétricas eram construídas, tratores abriam estradas. Nas enseadas surgiam portos. Os eletrodomésticos fabricadas aqui mesmo tornaram-se acessíveis a uma população que só consumia liquidificadores Walita. Os espectadores pulavam na cadeira ao ouvir o Presidente e saíam às ruas orgulhosos. Batiam firmes no chão os calcanhares, como se estivessem em marcha.
Tem origem o sucesso dessa série de 47 capítulos nos quais a TV Globo começou a contar a trajetória desse brasileiro, desde a infância. Nada mais real do que a ficção. A lembrança de um homem público com os mesmos defeitos de tantos outros, mas com vontade de realizar a qualquer custo, mostra que o brasileiro já não agüenta mais 25 anos de estagnação.
Na década de 50 o Brasil vivia no litoral. Juscelino cumpriu o determinado pelas sucessivas constituições, desde a Primeira República, de interiorizar a Capital. No meu tempo de Grupo Escolar havia um mapa do Brasil na sala de aula, onde se via no interior do Estado de Goiás um quadradinho com a inscrição: “Futuro Distrito Federal”. A arrancada para o Planalto Central parou depois de Juscelino, infelizmente. Voltou-se para São Paulo e os Estados do sul. Uma faixa sobrevive em Minas Gerais. O resto é paisagem. O presidente Lula chegou a anunciar a abertura de um escritório da Presidência da República em São Paulo. É a transferência do poder político para o centro do poder econômico.
O país se fecha, cada vez mais, nas suas contradições. Não abre janelas para o futuro, nem consegue enxergar perspectivas. JK rompeu com o FMI que o impedia de fazer o Brasil avançar. Lula vangloria-se de pagar o FMI antecipadamente, como se no País das estradas esburacadas nada mais houvesse de prioritário.
Até 2020 o Brasil vai crescer algo em torno de 30 milhões de habitantes. As dificuldades de emprego e habitação vão aumentar. O Rio tem mais favelados que a população da maioria das capitais. A criminalidade eclode nos grandes centros como uma autêntica guerra civil. É o desastre anunciado. No entanto, a julgar pelo cenário atual, o debate político tenderá a ser o mesmo. Paroquial, alienado e distante da realidade.
O autor preferido de FHC, Max Weber, dizia que os líderes carismáticos são necessários por serem os únicos capazes de quebrar a rotina, criar coisas novas e vencer a burocracia anônima que impõe limites estreitos aos homens públicos. Não fosse o carisma, JK jamais teria construído Brasília. O maior problema é a sucessão desse tipo de líder, porque é difícil achar outro igual. O carismático esgota-se em si mesmo. O Brasil procura outro Juscelino. Bauru anseia por um novo Franciscato, Nicolinha e Pinheiro Brisola. Alguém com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no nosso grande destino - para parodiar o próprio JK.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC