11 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Se CPIs não concluírem nada, Lula será imbatível, diz analista

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 12 min

Um ano politicamente difícil, que terá como “divisor de águas” para a definição dos rumos eleitorais partidários - e a “sorte” de Lula nas urnas - aquilo que for concluído pelas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) em andamento no Congresso Nacional, como as do Mensalão e dos Correios. É o que pensa o professor e cientista político bauruense Maximiliano Martin Vicente, para quem o atual Presidente da República será imbatível nas eleições caso as CPIs terminem em “pizza” e não cheguem a resultados convincentes.

Ao analisar as perspectivas políticas nacionais para 2006, Vicente entende que as eleições devem realmente polarizar-se entre os tucanos e petistas e que não enxerga possibilidades, apesar de não descartar o surgimento de “azarões”, do lançamento de uma “terceira via” para fazer frente ao PSDB e PT. Também considera que o prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), cometerá um “suicídio” político caso aceite disputar a Presidência da República e que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), pode pagar o preço nas urnas de ter sua imagem vinculada ao Estado mais rico da Nação.

O analista traça, ainda, um perfil do governo Lula, é enfático ao afirmar que o modelo neoliberal de gestão está próximo do fim e defende como uma das saídas para o Brasil um tema polêmico: seguir o exemplo dos “hermanos” argentinos e decretar o “calote” de parte da dívida externa. Além disso, o professor sustenta, diante do atual quadro político bauruense, não ver condições para o município eleger um representante à Câmara Federal. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

JC - Tendo em vista que 2006 será marcado pelas eleições, o que podemos esperar politicamente para este ano?

Maximiliano -Vai ser um ano muito complicado porque há um processo ainda em andamento e que não chegou ao fim, que são as CPIs. Conforme as conclusões das CPIs, o rumo do País tenderá para um lado ou outro. Se ela chegar à conclusão de que existiu o mensalão e a conivência do Presidente da República e do alto escalão do PT, sem dúvida o PT chegará muito enfraquecido ao período eleitoral. Por outro lado, se as CPIs não conseguirem provar detalhadamente que havia conivência e esses grupos não participaram ativamente, aí o quadro é outro. Daí, talvez, o PT tenha mais chances de concorrer aos cargos. De qualquer forma, o que está muito claro é que há um acirramento de posições. De um lado está o PSDB, que não abre mão de seus princípios, e do outro o PT. São os dois partidos que hoje estão em embate e que, teoricamente, são os mais fortes para 2006.

JC - A força do Lula em 2006 e sua eventual candidatura estariam, então, intimamente ligadas aos resultados concretos das CPIs?

Maximiliano - Sem dúvida. O que está acontecendo com ele é um massacre na credibilidade. Tudo que ele fala a oposição bate em cima, algumas coisas com razão e outras sem. Por exemplo, a questão do caixa dois. Desafio que alguém prove que algum partido está isento dessa prática. Nesse sentido, ninguém tem moral para falar disso, bem como de corrupção. O governo Fernando Henrique vendeu as estatais a preço de banana e comprou sua reeleição. Em função disso, todo mundo está, de alguma forma, no mesmo barco.

Agora, o discurso político do Lula foi muito forte porque aparecia como algo esperançoso à população. Não só pela questão do partido, que aparecia incólume a essas questões de corrupção, como também em um contexto de uma economia já planejada, algumas coisas definidas, o que ele se propôs a fazer. Na verdade, não fez nada. Mas há dois cenários possíveis. Se Lula sair imune e ficar impune das CPIs, dará a volta por cima e aí será um candidato imbatível. Agora, com todo esse desgaste fica muito difícil para ele recuperar-se e ser candidato. Se a CPI não chegar a uma conclusão evidente, e há possibilidade que isso ocorra, o que a oposição irá falar? Aí, com certeza, ele seria imbatível nas urnas porque entraria com o discurso da política social exibindo os números de seu governo relativos à estabilidade econômica, como a inflação mais baixa desde 1994, geração de empregos e outras munições para gastar à vontade. Mas creio que esse cenário é bastante improvável e, no andar da carruagem das CPIs, ele ainda terá de dar muitas explicações.

JC - Pode-se deduzir a partir disso que o senhor não acredita que as CPIs terminarão em pizza?

Maximiliano - Creio que não em função de ser um ano totalmente atípico e dos interesses pesados envolvidos. Além disso, se elas não chegarem a conclusões convincentes, a desmoralização será algo irreparável. Nesse quadro, continuo dizendo que Lula é um candidato muito forte. Tanto que ele não anunciou sua candidatura até agora porque está esperando os resultados das comissões, o que nos faz deduzir que ele não é tão inocente assim como diz que é. Ele está sabendo de muita coisa. De qualquer forma, em virtude desses acontecimentos, a população não pode deixar de votar nem muito menos de envolver-se em política. É justamente o contrário, pois está na hora de preocupar-se cada vez mais para sermos menos iludidos. Isso é cidadania e temos de aprender aos poucos. Sem essa participação continuaremos nas mãos de bandidos.

JC - A tendência é haver polarização entre PT e PSDB nas eleições?

Maximiliano - Sim, pois são os dois com maior capacidade para formar alianças. Hoje, as alianças mais fortes seriam com o PSDB, pois o PT não conseguiu um conglomerado de grupos de esquerda. E mesmo os partidos de esquerda que eventualmente poderiam apoiá-los são muito fracos. E aí tem uma série de partidos que estão flutuando, notadamente o PMDB, que conforme os desfechos das CPIs tenderá para um lado ou outro. Além disso, tradicionalmente o PSDB tem mais facilidade para compor com o PFL, que é um partido forte e facilmente capta outros. Aí sobra o PDT, que seria uma alternativa a esses dois partidos mas que não tem como bancar um quadro e estrutura para uma candidatura. Se esse quadro apontar para uma situação ruim para o PT em relação às CPIs, creio que a disputa será muito difícil e acirrada, com margens mínimas e diferente do que apontam as pesquisas hoje.

JC - Então o senhor não acredita que o prefeito de São Paulo, tucano José Serra, possa manter-se à frente de Lula até as eleições? Se a eleição fosse hoje ele o venceria...

Maximiliano - Hoje, provavelmente. Mas, atualmente, o PSDB tem dois candidatos à Presidência da República, que são o Serra e o governador Geraldo Alckmin. Não sei se o Alckmin abriria mão de sua candidatura e apoiaria Serra integralmente ou faria uma composição com ele. Até porque o Serra, quando assumiu o comando da Prefeitura paulistana, foi muito infeliz ao prometer que cumpriria seu mandato até o fim. Isso, praticamente, foi o enterro político dele.

JC - Assim, na hipótese do Serra disputar realmente a Presidência da República, ele estaria cometendo um suicídio político?

Maximiliano - Sim. É só pensar para quem ele teria de dar satisfações nesse caso. Somente para o maior colégio eleitoral e a maior cidade do País. O caminho natural para ele seria acabar o mandato frente à prefeitura e depois concorrer para outro cargo, descartando a Presidência. Por outro lado, o Alckmin é muito novo e seu grande problema é que ele representa São Paulo e isso, fora do Estado, é muito complicado, ao passo que Serra tem mais trânsito e é mais conhecido no País, o que o deixaria com mais chances. Também não sei se o Alckmin teria a disposição de bandear seus votos para o lado do Serra, porque aí ele ficará em um período muito complicado. Ele poderá sair para deputado federal, um cargo inexpressivo, ou senador, onde terá de concorrer com candidatos muito fortes. Assim, Alckmin ficaria em uma situação política muito incômoda.

JC - O senhor não vislumbra o surgimento de nenhuma terceira via política para fazer frente às eventuais candidaturas à presidência do PT e PSDB?

Maximiliano - (Rindo) É uma pergunta que não gostaria de responder, mas creio que existem chances disso ocorrer. Se o PSDB racha entre o Serra e o Alckmin, que é algo que pode acontecer, e se o PT continuar enfraquecido, o caminho estará aberto para os azarões.

JC - Na política local, o senhor acha que Bauru corre o risco de não eleger outra vez nenhum representante para deputado federal e de haver pulverização dos votos entre vários candidatos?

Maximiliano - Corremos sim, a menos que haja um candidato muito forte. Creio que para a Assembléia estadual possamos conseguir até dois, mas federal, no quadro político atual da cidade, não vejo chances nem com os votos da região, que é disputada por outros concorrentes. Não vejo alternativa.

JC - O senhor consideraria populista o governo do PT nos últimos três anos? Ou ele se tornará populista durante esse ano, pois já anunciou que liberará milhões de reais para gastar em áreas estratégicas, como as estradas?

Maximiliano - Até agora não foi populista, pois o que marca o populismo são concessões significativas à população. Se você pegar a história do populismo no País, com Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e Jânio Quadros, eles sempre tiveram o caráter de realizar obras sociais, coisas que o Lula não fez. Nesses três anos, o governo foi extremamente conservador em termos de política econômica, mais até que o de Fernando Henrique Cardoso. Mas há dados interessantes em relação à política social que ele vem desenvolvendo e é aí que ele apela para o debate político mostrando números em que ele ganha de qualquer um. Ele criou mais empregos que os dois mandatos do governo Fernando Henrique Cardoso e está conseguindo uma política social de distribuição de renda como nunca foi feita no País. Só que a questão política atrapalha. Por isso, do meu ponto de vista, as obras que ele pretende realizar esse ano serão totalmente desplanejadas. Portanto, será dinheiro jogado fora, como a intenção de tapar os buracos das estradas. É preciso sim ter uma política de infra-estrutura com investimentos constantes.

JC - Falamos há pouco em uma terceira via política. Há chances do Brasil adotar uma terceira via econômica que não privilegiasse exacerbadamente nem princípios neoliberais nem socialistas, corrente comentada por diversos analistas políticos? Há essa terceira via em andamento em nível mundial?

Maximiliano - Infelizmente, vejo que não. Basta ver quando o Brasil se inseriu no processo neoliberal. Foi na época do Collor. Ele ditou os rumos neoliberais para o País e o que fazem os governos Fernando Henrique, Itamar Franco e Lula é continuar e aprofundar esse modelo, que é mundial e vem com um discurso muito forte no sentido de se intitular um pensamento único, algo que é muito perigoso. Não é que seja uma realidade única, mas apenas é a que está predominando. E quais seriam as alternativas a ela? Hugo Chávez na Venezuela? Evo Moralez na Bolívia, que é uma incógnita? Cuba? China? Não sei. O que está muito claro é que esse modelo atual está gerando grandes descontentamentos e caminhando para um fim muito próximo. Acredito nisso porque nunca houve tantas desigualdades como as geradas por esse modelo atual.

E, dentro das próprias instituições que o sustentam, como o Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI), já se começa a falar que é preciso combater a pobreza. E só se faz isso distribuindo renda, o que é impossível no neoliberalismo sem que se desenvolva uma política de taxação grande sobre as propriedades e os capitais, seja nacional, internacional ou especulativo, e repasse à população mais carente. Ocorre que esse modelo não prevê essa alternativa, mas por outro lado, vê-se descontentamentos cada vez maiores. Ou dá-se uma resposta a eles ou caminha-se para o fracasso. Aí surge outra oportunidade que seria voltar a atacar pontos como a cidadania, ética e responsabilidade, temas que começam a reaparecer e serem resgatados mesmo dentro das próprias instituições que bancam o modelo atual.

JC - Então o senhor sugere que valeria a pena fazer como a Argentina, que declarou moratória à dívida externa e no ano passado registrou um crescimento econômico muito maior que o Brasil?

Maximiliano - A Argentina cresceu, mas é preciso tomar cuidado nessa análise. Ela cresceu acompanhada de uma taxa de inflação de 12%, o que é perigoso. O combate à inflação foi o mesmo discurso do Collor, Fernando Henrique e Lula. Tem de se combater a inflação sim, mas isso não significa tirar dinheiro de circulação, porque nesse País se paga impostos demais. É preciso pegar os impostos e torná-los produtivos, que é o que a Argentina não está conseguindo fazer. O crescimento argentino vem de onde? De poupança interna, de investimentos do Estado, porque não pagou a dívida, mas com aumento da inflação, que é o perigo que vejo para 2006. Nesse quadro, vejo que é muito interessante que se realizasse, como a última grande medida do Lula, um planejamento de investimentos. Apesar de não ter moral para isso, ele teria de chamar a sociedade civil, os empresários, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e os setores produtivos e decidir o que seria melhor fazer nesse País com o dinheiro para investir. Seria aquilo que o PT sempre fez, o tal de Orçamento Participativo. Mas isso ficou atropelado pelo processo, pois Lula deslumbrou-se pelo que podia fazer e cumpriu os compromissos internacionais, de forma exemplar e como nenhum outro país o fez, em troca de ficarmos literalmente a ver navios.

JC - Mas então o Brasil deveria dar um “calote” na dívida externa?

Maximiliano - Acho que a moratória deveria ser declarada para uma parte dela. Para outra não, pois é muito difícil e até a Argentina está pagando um pouco. O que deveria ter sido feito é o investimento no setor produtivo e na educação. Não tem outra saída. É preciso investir na produção de soja, tecnologia, petróleo e em áreas estratégicas junto com um projeto educacional. Fazer isso é dar um salto de qualidade, mas a médio e longo prazos, o que nenhum governante gosta de fazer, pois os frutos são outros que colhem. Mas governar é planejar. É possível declarar o calote e ainda investir, pois é muito dinheiro que está sobrando hoje para o pagamento da dívida. E esses recursos podem gerar mais dinheiro, desde que se produza mais, aumentando as exportações e criando um campo para controlar as importações. Ou seja, é você assumir uma posição estratégica no País e mostrar que quem manda no Brasil somos nós, e não o FMI e mais ninguém. Deveríamos fazer como a Argentina, que falou que podia pagar uma quantia máxima ou nada. Foi uma questão de escolha política.