As bromélias ficaram por muito tempo despercebidas de olhares interessados em sua rusticidade, porém, atualmente são usadas em paisagismo e bastante comercializadas em floriculturas, onde exibem diversidade em formas e cores. O biólogo Luiz Augusto Gonçalves da Rocha, 45 anos, há cinco anos enfrenta o desafio de cultivar bromélias para exportação. Com mais de 1.000 espécies diferentes em seu bromeliário, o especialista em botânica supera dificuldades climáticas e burocráticas.
Nativas das Américas, com uma única espécie na Costa do Marfim, na África, as bromélias podem ser encontradas desde o Sul dos Estados Unidos até o Norte da Argentina. Mas é no Brasil que estas plantas encontram o maior centro de dispersão das espécies, com maior quantidade e variedade. Só no País, já são mais de 2.500 espécies catalogadas, encontradas em regiões tropicais e até no semi-árido nordestino.
A cada ano, perto de 300 novas espécies são descobertas, porém, essa diversidade vive em constante ameaça com o número crescente de desmatamentos. Certamente, muitas espécies foram extintas antes mesmo de serem catalogadas, com a destruição, em todo litoral brasileiro, da Mata Atlântica, considerada a maior biodiversidade do planeta.
Em Bauru, as plantas cultivadas por Rocha enfrentam um desafio extra, pois o clima quente não se aproxima do ideal de muitas espécies. Mesmo assim, ele conseguiu reunir uma variedade com cerca de 1.000 espécies diferentes, entre híbridas, nacionais e estrangeiras.
Ele aponta o aumento da temperatura em Bauru como uma tendência para o futuro, devido à redução da área de cerrado que envolve a região. “Em 20 anos, esse cerradão bauruense poderá se transformar no semi-árido paulista. Para se ter uma idéia, uma árvore grande chega a evaporar 400 litros de água por dia, se você elimina a árvore, também vai reduzir a umidade do ar”, alerta.
Mas o interesse pelas plantas, iniciado na infância com orquídeas e bromélias, o fez pesquisador dedicado à reprodução natural de diversas espécies comercializadas em Bauru, região e outros Estados. “O trabalho é a longo prazo e voltado para a exportação em larga escala, o que exige certificação e atestados”, acrescenta.
Rústicas, porém evoluídas
De acordo com o biólogo Luiz Augusto Gonçalves da Rocha, as plantas mais evoluídas tendem a se distanciar do solo e buscar seus nutrientes a partir do ar e da água, como ocorre com orquídeas e bromélias. “Muitas pessoas pensam que as bromélias são parasitas, o que não é verdade. Elas utilizam as árvores e até pedras para se fixar, mas não retiram seus nutrientes delas”, ensina.
As bromélias possuem um sistema tanque, onde armazenam a água com detritos e microorganismos que chegam pelo ar. “É este caldo nutritivo que faz a planta se desenvolver. Em uma bromélia chegam a ser encontrados até 400 seres vivos, desde microorganismos, bactérias e algas, até pássaros, caranguejos e anfíbios que vivem na planta. É um nicho ecológico”, explica.
Diferente de outras plantas que buscam nutrientes pela raiz, as bromélias contam com suas grandes folhas, algumas mais lisas, outras crespas e com espinhos. “Os tricomas (espécie de escamas) das folhas absorvem os nutrientes e permitem que a planta se desenvolva.”
Elas também possuem um metabolismo que garante sua sobrevivência nos ambientes mais hostis, desde o semi-árido nordestino, até grandes altitudes e neve nas regiões andinas. “As bromélias são dotadas de metabolismo CAM (Crassulacean Acid Metabolism), isso significa que o seu metabolismo acelera-se quando há abundância de água e fica parado quando há falta. Graças ao CAM, uma bromélia pode sobreviver até seis meses sem uma gota d’água”, comenta o pesquisador.
Recentemente, Rocha conseguiu a reprodução de uma planta do gênero puya, responsável pelas maiores espécies de bromélia e podem chegar até oito metros. “Esta, porém, é uma espécie anã, do Chile, que resiste à neve e até ao sol de Bauru”, diz o pesquisador aguardando, pacientemente, a planta florir.
Dengue
De acordo com informações do produtor de bromélias, as larvas do mosquito Aedes aegypti não conseguem sobreviver nessas plantas, inclusive porque o mosquito da dengue busca água limpa. A bromélia forma em seu sistema tanque um suco nutritivo que não é adequado às larvas.
“Infelizmente, a orientação sempre é acabar com a planta. Na época dos primeiros surtos de febre amarela, por exemplo, descobriram que o mosquito voava no máximo três quilômetros e a ordem do governo foi derrubar todas as matas próximas às cidades, assim, seria mais fácil evitar que o inseto chegasse às populações”, recorda.
Cultivo em casa
As bromélias podem ser cultivadas independentemente de solo, inclusive em apartamentos. “Você pode afixar em placas na parede. Há espécies mais adequadas à sombra e outras ao sol”, acrescenta. As flores normalmente podem ocorrer uma vez ao ano e durar até seis meses. É comum as bromélias atraírem beija-flores, responsáveis pela polinização, além de pássaros como sanhaço e saíra, que ajudam na dispersão de sementes.
O biólogo Luiz Augusto da Rocha chama a atenção das pessoas interessadas no cultivo da planta para evitar solos úmidos em excesso. “Às vezes, no momento de transplantar a bromélia do vaso para a terra, coloca-se muita matéria orgânica, e isso causa o apodrecimento da raiz. Dependendo da espécie, o ideal é mantê-la em solo com muita drenagem. Pedrinhas ajudam muito, assim, ela vive por muitos anos”, ensina.