08 de julho de 2026
Geral

Placas têm gramática e grafia erradas

Da Redação
| Tempo de leitura: 5 min

Não é raro encontrar pelas ruas, avenidas e rodovias, placas que trazem na grafia das palavras erros graves de língua portuguesa. Os acentos, por exemplo, na maioria das vezes são esquecidos ou colocados na letra errada. Em Bauru, essa situação não é diferente. Uma única letra errada muda totalmente o nome da via, que geralmente refere-se a personalidades conhecidas na cidade.

O escritor e historiador Luciano Dias Pires, 78 anos, por exemplo, reclama da grafia do nome da rua na qual ele mora. A via foi denominada Vereador Joaquim da Silva Martha, mas numa placa fixada num imóvel na esquina com a rua Antônio Alves, ao invés do sobrenome Martha está escrito Malta – o th foi, equivocadamente, substituído pelo “l”.

“Esse erro pode desorientar crianças em idade escolar, as quais, eventualmente, tenham que fazer algum trabalho sobre o patrono da rua em que moram. Com certeza, vão aprender errado. Joaquim da Silva Martha foi um cidadão que trabalhou muito por Bauru e, por isso, merece nossa admiração e respeito”, diz Dias Pires.

Para o empresário Achilles dos Reis Júnior, proprietário de uma corretora de imóveis cujo prédio está fixada a placa com a grafia errada, não concorda. “Nunca foi problema para meus clientes. Inclusive, tenho muito zelo por ela, porque tem a propaganda da Petrobras. Quando pintam a parede, peço para que tomem cuidado. Não acho que deve ser substituída”, observa.

Quem já passou pela rodovia Marechal Rondon, nas proximidades de Bauru, deve ter reparado que as quatro placas que sinalizam a distância da cidade de Ipauçu ora apresentam o nome do município grafado com ss (Ipaussu) ora com ç (Ipauçu). O dicionário Aurélio reconhece a palavra escrita com ç. A explicação é que vocábulos derivados do tupi-guarani, como é o caso de Ipauçu, grafam-se sempre com ç e não com ss.

Outro exemplo é o nome do viaduto da rodovia Marechal Rondon sobre a avenida Nações Unidas. Na placa está grafado “Casemiro Pinto Neto”, mas há um erro. O correto é Casimiro. “O Casimiro foi o criador do sanduíche Bauru. E seu nome tem de ser escrito com duas letras i. Tenho documentos que comprovam isso”, alega Pires.

Substituição

O chefe de emplacamento na Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan), Wagner Bertolucci, admite que os erros ocorrem, porém, afirma que são em pequena escala. Segundo ele, sempre que é constatado algum tipo de irregularidade nos emplacamentos, a empresa responsável pela fabricação e instalação das placas faz a substituição.

Bertolucci também ressalta que, em média, 12 placas são trocadas por mês em Bauru por conta de erros de grafias. “Esses equipamentos são conferidos apenas depois da instalação. Nós mandamos o projeto correto de cada placa para a empresa. Entretanto, alguma coisa sempre escapa”, explica. Bertolucci também diz que não tinha conhecimento sobre as incorreções nas placas localizadas na rua Joaquim da Silva Martha e no viaduto Casimiro Pinto Neto.

O Departamento de Estradas de Rodagem (DER), responsável pelas placas instaladas nas rodovias, informa que também faz a checagem da grafia dos nomes, mas mesmo assim, sempre passa algum erro. O engenheiro e diretor da área de conservação rodoviária, Aldoval Carlos Andrioli, a conferência de placas é uma preocupação do departamento, porém, alguns erros são inevitáveis. “Às vezes, olhamos 50 placas e não conseguimos identificar nenhuma falha, o que é normal. Agora, o que pode ocorrer também, é o próprio DER enviar o projeto errado à empresa que executa o serviço de fabricação”, diz.

Sempre que os erros são apontados, afirma Andrioli, as placas são substituídas. No caso da polêmica grafia do nome “Ipauçu”, o engenheiro ressalta que o DER tem adotado a escrita da palavra com ss. “Sempre houve controvérsia quanto à grafia dessa palavra. Teríamos de ter conferido a escrita que adota o município, mas não fizemos isso porque ele está fora de nossa região. Dessa forma, optamos por ss”,explica.

O engenheiro também admitiu que não sabia que a placa do viaduto Casimiro Pinto Neto está grafada de forma errada. O DER de Bauru, segundo Andrioli, é responsável por cerca de 8 mil emplacamentos em rodovias.

____________________

Quem foi Joaquim da Silva Martha?

Joaquim da Silva Martha nasceu em Portugal. Era irmão do comendador José da Silva Martha. Sua família, segundo o historiador Luciano Dias Pires, trabalhou muito por Bauru, inclusive na Estrada de Ferro Noroeste.

Foi vereador na cidade e membro ativo da colônia portuguesa, na qual atuou, sem medir esforços, para a fundação do Hospital Beneficência Portuguesa. “É um nome que deixou vários trabalhos em benefício de Bauru. Prova disso é que foi colocado o seu nome numa das ruas da cidade.”

Filho de Hermínio Pinto, cujo nome intitula uma das ruas de Bauru, Casimiro Pinto Neto nasceu e cresceu em Bauru. Conforme Dias Pires, completou os estudos no Colégio São José e na escola Guedes de Azevedo. Posteriormente foi para São Paulo, onde cursou direito na Universidade Largo São Francisco.

Assim que se formou, participou da Revolução Constitucionalista de 1932. Foi o primeiro repórter Esso do rádio paulistano, além de ter ocupado o cargo de oficial de gabinete do governador Ademar de Barros, de acordo com Dias Pires.

Também foi o criador do sanduíche Bauru. “À noite, ele costumava se reunir com amigos no restaurante Ponto Chic, em São Paulo. Certa vez, ditou para o chapeiro a receita de um lanche diferente. Pediu um pão francês sem miolo. Em seguida, disse para colocar fatias de rosbife, de queijo derretido em banho-maria, picles e rodelas de tomate. O sanduíche ficou conhecido entre seus amigos e ganhou o nome de Bauru porque Casimiro era chamado de Bauru na Revolução de 32.”