08 de julho de 2026
Nacional

EUA bloqueia conta secreta de Duda

Por Rubens Valente | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Brasília - O Departamento de Justiça dos Estados Unidos bloqueou temporariamente uma nova conta bancária relacionada ao publicitário Duda Mendonça, confirmaram ontem fontes do governo brasileiro. A revista “Veja” revelou, na edição que começou a circular ontem, a existência de uma nova conta “secreta e milionária” aberta em nome de uma empresa de fachada e movimentada pelo marqueteiro da campanha eleitoral de 2002 do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo a revista, as autoridades americanas comunicaram ao Brasil a existência da conta após a filha de Duda, a também publicitária Eduarda, ter tentado fazer um saque no ano passado. O saldo da conta, supostamente num banco de Miami (EUA), não foi revelado. A Polícia Federal e o Ministério Público estão tentando rastrear a conta secreta. O bloqueio determinado pelos EUA é de caráter administrativo e tem validade temporária.

Para o bloqueio judicial, é necessário que o Ministério Público Federal brasileiro apresente à Promotoria de Nova York uma lista de justificativas jurídicas. A reportagem apurou que o procurador-geral da República, Antônio Fernando Souza, assinou na semana passada o documento preparado em conjunto com técnicos do Ministério da Justiça para pedir o bloqueio da conta.

O documento, uma declaração juramentada, deve ser enviado ao promotor de Justiça de Nova York Adam Kaufmann. Segundo a revista “Veja”, um outro pedido de bloqueio definitivo da nova conta já havia sido enviado pelo Ministério da Justiça, mas não foi atendido por ser “inconsistente”.

Técnicos do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), ligado ao Ministério da Justiça, que atuam no caso disseram ontem que cabe o órgão apenas encaminhar aos EUA os pedidos dessa natureza oferecidos pelo Ministério Público e Polícia Federal. Todos os pedidos do Ministério Público foram encaminhados.

O DRCI é apenas uma ponte entre os governos brasileiro e americano, disse um dos funcionários que acompanham o assunto. A descoberta da nova conta não significa necessariamente uma nova fonte de pagamentos para o publicitário. A conta pode ter sido criada para receber dinheiro da Düsseldorf, offshore criada por Duda para receber R$ 10,5 milhões do esquema de caixa dois das campanhas eleitorais de 2002. O dinheiro foi pago pelo publicitário mineiro Marcos Valério Fernandes de Souza sob orientação do então tesoureiro nacional do PT, Delúbio Soares.

Caso as investigações confirmem que a nova conta é gerida pelo publicitário, cai por terra um ponto importante do depoimento que ele prestou à CPI dos Correios em 11 de agosto de 2005. O deputado federal Eduardo Paes (PSDB-RJ) perguntou: “O senhor já teve conta no Exterior?”. A resposta de Duda foi clara: “Não”. Mais à frente, o deputado federal José Eduardo Cardozo (PT-SP) voltou a indagar: “Anteriormente, pelo que depreendi -quero apenas confirmar isso-, Vossa Senhoria nunca havia operado com empresas ‘offshore’ nem com contas no Exterior?”. “Não. Nunca tive conta no Exterior”, respondeu Duda.

A segunda conta só teria sido descoberta, segundo a revista “Veja”, porque o publicitário é monitorado pelas autoridades monetárias norte-americanas. Esse acompanhamento começou logo após ele admitir ter recebido os R$ 10,5 milhões de Marcos Valério no Exterior. Após ter admitido esses depósitos, o publicitário pagou R$ 4,3 milhões à Receita Federal e retificou a declaração do Imposto de Renda de 2003, que omitia a conta Dusseldorf e os depósitos feitos para suas empresas fora do País.

Após o depoimento de Duda à CPI, o Planalto considerou incompatível que o publicitário continuasse a cuidar da imagem do governo e da do presidente - entre outras, as agências de Duda detinham a conta da Secretaria de Comunicação do Governo (Secom) e da Presidência. Isso não impediu, todavia, que a Petrobras renovasse por um ano o contrato de publicidade que tinha com a agência de Duda. Em agosto de 2005, a Folha de S.Paulo revelou que a conta Düsseldorf era abastecida por uma série de empresas virtuais.

Uma delas, a Deal, transacionava recursos a partir de um banco na Flórida (EUA). Duda Mendonça também é acusado de ter recebido R$ 4,5 milhões como caixa dois para a campanha do senador Eduardo Azeredo (PSDB) à reeleição ao governo de Minas Gerais, em 1998, também por meio de Marcos Valério.

O doleiro Vivaldo Alves afirma ainda que o marqueteiro recebeu US$ 5 milhões no exterior como pagamento para a campanha do ex-prefeito de São Paulo Paulo Maluf (PP).