Os colonizadores portugueses trouxeram para o Brasil a sua moeda: chamava-se Real. Estas moedas traziam a face do rei português e o escudo do país. Portugal cunhava as moedas e elas passaram a circular também em nosso país, durante todo o período colonial. Os brasileiros não tardaram a dar apelidos para as moedas, inspirando-se ora nas figuras estampadas, ora no material, ora no tamanho da moeda. Assim, surgiram as denominações “Cruzado”, “Português”, “Tostão” e “Vintém”.
Com a Proclamação da Independência, a moeda brasileira ganhou sua característica mais persistente: a de perder valor rapidamente. Os zeros multiplicavam-se tão rapidamente que, a partir de 08/10/1833, ela passou a ser chamada de “Mil-Réis”. Um milionário (ou seja, quem possui um milhão de réis) era o feliz proprietário de um “Conto de Réis”. Durante o Império, nossas moedas estampavam a esfinge do Imperador e o Brasão do Império.
A República manteve o padrão monetário. Os novos governantes decidiram alterar imagens estampadas nas notas e moedas, introduzindo alguns heróis nacionais. Pedro Álvares Cabral foi o primeiro a comparecer em nossas moedas, no ano de 1900, quarto centenário do descobrimento.
Em 31 de outubro de 1942, após o Brasil ter sofrido com uma inflação anual de 200%, Getúlio Vargas manda cortar três zeros de nosso padrão monetário e cria o Cruzeiro. Todas as notas estampam heróis nacionais, na face, e cenas brasileiras, no verso. Quadros famosos, com inspiração histórica, como Independência ou Morte, de Pedro Américo, ou A Primeira Missa do Brasil, de Vítor Meirelles, são reproduzidos nos versos das notas de Mil Cruzeiros e de Duzentos Cruzeiros, respectivamente. Como estávamos no Estado Novo (ou seja, em plena ditadura) Getúlio Vargas não se fez de rogado e colocou sua própria imagem nas notas de Dez Cruzeiros...
A inflação continuou corroendo o valor da moeda nacional, obrigando o ditador Humberto de Alencar Castelo Branco a cortar mais três zeros de nosso combalido dinheiro, ao criar o Cruzeiro Novo, em 13 de fevereiro de 1967. Três anos depois, o Ministro de Fazenda Antônio Delfim Netto, em 15 de maio, decide rebatizar nossa moeda, que voltará a ser chamada de Cruzeiro.
Com sua indiscutível incompetência, seja na economia, política ou cultura, José Sarney joga o Brasil em um período de hiper inflação. Em 28 de fevereiro de 1986, o Centauro do Maranhão retira três zeros da moeda e a rebatiza com o nome de Cruzado; em 15 de janeiro de 1989, ainda no governo (?) Sarney, é necessária a retirada de mais três zeros da moeda, surgindo o Cruzado Novo, que seria a moeda brasileira nos 14 meses seguintes.
O que seria pior do que o governo Sarney? Acertou, caro leitor: Fernando Collor! O Napoleão de Maceió rebatizou a moeda nacional em 16 de março de 1990, voltando a chamá-la de Cruzeiro. Em seu péssimo governo (só não foi um governo trágico porque os brasileiros livraram-se dele, após dois anos de – Deus que me perdoe... – administração) a inflação foi de 2.000%!
Quando os brasileiros imaginavam que nada pior poderia acontecer na administração federal, eis que surge Itamar Franco! Em agosto de 1993, o topetudo de Minas Gerais tirou mais três zeros de nossa moeda, rebatizando-a de Cruzeiro Real. Em onze meses de circulação, esta moeda acumulou um índice inflacionário de 3.700%.
Finalmente, em 1º de julho de 1994, surgiu o Real. Um Real, na data de criação, equivalia a 2.750 Cruzeiros Reais. E o Brasil chegou à estabilidade monetária.
Não há mais inflação elevada. Ótimo! O problema é que também não há mais dinheiro no bolso... Você, caro leitor, deve achar que é exagero meu. Talvez. Mas eu lhe faço uma pergunta: as notas atuais possuem estampas de animais, no verso, e eu quero que você me diga qual é o animal que está no verso da nota de cem reais. Se você souber, me conta: confesso que não me lembro...
O autor, Ney Vilela, é historiador, jornalista e engenheiro