09 de julho de 2026
Internacional

Tumulto mata 345 em ritual muçulmano

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Meca - Pelo menos 345 pessoas morreram ontem perto da ponte Jamarat, no vale de Mina, na Arábia Saudita. As vítimas eram muçulmanos que participavam da Haji, a peregrinação religiosa que os islamitas têm de fazer ao menos uma vez na vida à cidade sagrada de Meca. Dezenas de milhares de fiéis aglomeravam-se em torno da ponte de Jamarat, perto de Meca, tentando cumprir um ritual de apedrejamento de três pilares que representam o demônio no último dia da peregrinação (veja quadro).

De acordo com o major-general saudita Mansour al Turik, próximo a uma das entradas da ponte, algumas bagagens caíram de um ônibus, e as pessoas começaram a tropeçar nas malas. Criou-se um tumulto e centenas de peregrinos foram pisoteados.

Segundo o Ministério da Saúde da Arábia Saudita, mais de 280 pessoas ficaram feridas no incidente. Cenas aéreas do local mostravam corpos estendidos no chão, cobertos com lençóis. “Os corpos estavam empilhados. Eu não os consegui contar; eram muitos”, disse a egípcia Suad abu Hamada, que afirmou ter ouvido pessoas pisoteadas gritando.

Gargalo

A ponte de Jamarat, que tem a largura de uma rodovia de oito pistas, é um conhecido gargalo pelo qual as dezenas de milhares de muçulmanos que cumprem a Haji têm de passar - neste ano cerca de 2,5 milhões de pessoas estão fazendo a peregrinação.

O local já foi palco de outras tragédias semelhantes. Numa delas, em 1990, mais de 1.400 pessoas morreram pisoteadas. “Logo depois do meio-dia, já havia uma considerável superlotação de peregrinos, o que fez com que vários caíssem e morressem”, disse à rede de TV estatal saudita o ministro da Saúde, Hamad bin Abdullah al Manei. “Era como o caminho da morte”, contou um peregrino que afirmou ter visto mulheres desmaiando e pessoas se acotovelando a fim de se aproximar dos pilares e atirar as pedras.

Segurança

Autoridades sauditas já tentaram melhorar a segurança na ponte Jamarat e suas redondezas, a fim de impedir incidentes entre os peregrinos que caminham de pilar em pilar para cumprir o ritual de apedrejamento. Um das medidas adotadas foi a substituição dos três pilares por pequenos muros, que oferecem uma superfície maior para serem alvejados, o que dispensa a necessidade de as pessoas chegarem tão perto deles.

Além disso, a ponte foi ampliada recentemente e rampas de acesso extras forma construídas. Até mesmo autoridades religiosas colaboraram, ampliando o horário em que os fiéis podem cumprir o rito de apedrejamento - que tradicionalmente ocorre do meio-dia ao pôr-do-sol.

Clérigos xiitas assinaram éditos permitindo aos fiéis que iniciem o ritual já de manhã. No entanto, como observou o ministro da Saúde da Arábia Saudita, muitos peregrinos preferem se manter fiéis à tradição e só participar do apedrejamento depois do meio-dia. Isso em parte porque clérigos árabes sunitas que seguem a linha radical wahabita do islamismo encorajam os peregrinos a não participarem do apedrejamento antes do meio-dia. Os cerca de 60 mil agentes de segurança que patrulham o vale de Mina também não foram capazes de conter o tumulto, e os corpos dos peregrinos pisoteados foram levados do local em ambulâncias e caminhões-frigoríficos.

Esse foi o segundo acidente na Haji deste ano. Na semana passada, 76 pessoas morreram devido ao desabamento de um albergue em Meca.

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Como foi

• 1 - Dezenas de milhares de pessoas se aglomeram sob a ponte Jamarat e em torno dela, para cumprir o ritual de apedrejamento dos pilares que representam o demônio

• 2 - Perto de uma das entradas da ponte, um ônibus deixa cair bagagens no chão

• 3 - Peregrinos começaram a tropeçar nas malas; tem início um tumulto e centenas de pessoas são pisoteados

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O que é haji

• 1º dia - Os peregrinos vão a Mina e permanecem lá até o amanhecer do dia seguinte.

• 2º dia - Os fiéis seguem para o monte Arafat e lá ficam, meditando, até o fim do dia, quando seguem para Muzdalifa.

• 3º dia - De manhã, vão a Mina, onde apedrejam os pilares de Jamarat. Em seguida sacrificam um animal (geralmente pagam para que alguém o faça por eles) e seguem para Meca, onde caminham em torno da Caaba, e voltam a Mina.

• 4º e 5º dias - Ficam em Mina, onde apedrejam novamente os pilares de Jamarat, uma vez por dia.