Os veículos bicombustíveis também têm desvantagens. E são duas, pois os motores flexíveis são menos eficientes e mais “beberrões” que aqueles movidos exclusivamente a álcool ou gasolina. “Eles realmente gastam um pouco a mais, pois os motores flex não são otimizados para aproveitar a máxima eficiência da gasolina ou do álcool. Isso é fato”, garante o engenheiro mecânico bauruense Marcos Serra Negra Camerini.
No entanto, Camerini enfatiza que o subaproveitamento dos combustíveis e o maior consumo dos flexíveis não chega a ser muito mais elevado que os monocombustíveis. “É um gasto cerca de 10% maior”, estima. O engenheiro esclarece que a tecnologia flex tende a tornar os carros mais “gastões” por causa, principalmente, das taxas de compressão, um número que determina o quanto a mistura ar/combustível é comprimida dentro dos motores.
“Nos propulsores sem o sistema flexível, ela varia em função do combustível. Os a gasolina trabalham com taxas menores, em torno de 9/1 (transformação de nove volumes em um volume), e os a álcool maiores, cerca de 12/1 (12 volumes em um volume), em virtude das diferentes propriedades físico-químicas dos combustíveis”, explica, para depois complementar:
“Já no caso dos flexíveis, escolhe-se um valor intermediário para que os propulsores possam funcionar com álcool, gasolina ou qualquer proporção da mistura deles. E, dependendo do motor, essa taxa média varia, mas ela ficará abaixo do ideal para se aproveitar a máxima energia do álcool e acima do padrão para a gasolina, gerando perda de eficiência com ambos os combustíveis.”
Mas esses fatos, pondera Camerini, não anulam para os donos de bicombustíveis a ainda atual vantagem para o uso do álcool em Bauru. “A questão deles serem mais beberrões não quer dizer que, pelo preço dos combustíveis na cidade, a gasolina seja a melhor opção. Isso porque, para escolher qual combustível usar, o veículo precisa necessariamente ser flex. E, no caso, temos de comparar o consumo entre os flexíveis, e não com os monocombustíveis, para decidirmos”, ressalta.
Apesar disso, o engenheiro sustenta que, mercadologicamente, os flex são inquestionáveis. “Eles podem não ter a eficiência dos motores puros a álcool e gasolina, mas o fato de se poder escolher qual combustível colocar é algo que os torna imbatíveis do ponto de vista mercadológico”, salienta. “Ter um flex significa possuir a vantagem de poder abastecer com álcool, gasolina ou ambos em qualquer proporção independentemente do local do País onde estiver. No Nordeste, por exemplo, onde o álcool é muito mais caro, sairei ganhando usando gasolina, mas quase ninguém pensa nisso quando adquire um bicombustível”, frisa.
Camerini critica também o comportamento dos consumidores em relação aos modelos bicombustíveis. “Brasileiro é muito imediatista, não pensa a longo prazo, tem a mania de comprar carro mais emocionalmente do que tecnicamente e, pior, não sabe e não tem hábito de fazer contas. Muitos compram já pensando em revender, o que acho um absurdo e o bauruense, em particular, faz muito isso”, questiona.