Havia certa vez dois blocos de gelo que eram vizinhos. Mas, como era de se esperar, a relação entre eles era bastante fria. “Por que ele não se aproxima de mim para conversar?”, pensava sempre um dos blocos. Mas ele mesmo não tomava a iniciativa de ir ao vizinho. Por sua vez, o outro bloco de gelo se perguntava a mesma coisa: “Nossa, como meu vizinho é arrogante, nem para dizer um bom dia!” E, por achar o outro bastante frio, permanecia este em seu lugar.
Assim, a relação entre os dois permaneceu a mesma por meses e anos, até que um dos blocos descobriu que, ao meio-dia com o calor do sol, ele derretia um pouco e a água que surgia continuava a ser ele mesmo. Com esta água, ele podia se mover para qualquer lugar. O outro bloco também fez a mesma descoberta. Assim, os dois se escorregaram um em direção ao outro e começaram a se tocar. A relação continuou fria, mas os dois se uniram e começaram a trocar idéias, experiências e, por meio da água, acabaram se tornando um só.
Pensar, querer e agir não devem estar fragmentados em nossa estrutura humana. Um querer, que não é acompanhado pelo pensar, não passa de um impulso animal, um instinto sem orientação. Um pensar, sem um verdadeiro querer, pode permanecer reduzido à mente humana e nunca se realizar em ato, ou, se chegar a ser realizado, será um ato forçado, sem intensidade e autenticidade. Um agir, sem acompanhamento da razão, pode se desvirtuar de sua direção inicial e ser influenciado por pensamentos de outras pessoas. Por isso, a sintonia entre as três dimensões se torna necessária para uma saudável e eficaz realização do ser humano.
Como afirma Aristóteles, a ética questiona não somente o agir que se caracteriza pelo movimento, mas, principalmente, o início deste que está no querer e no pensar. Assim, para o filósofo, o desejo é realizado pela escolha concreta por um determinado bem, que não deve ser fruto de um simples instinto, mas de uma escolha racional. Quem é capaz de fazer escolhas com a luz da razão e agir conforme estas possui o que Aristóteles chamava de sabedoria moral (phonesis).
Segundo Hannah Arendt, o falar e o agir são modos através dos quais o ser humano não somente se revela, mas demonstra a coerência entre o querer e o pensar. Falar e agir são igualmente articulações da personalidade de um indivíduo. O indivíduo, desde seu nascimento até a sua morte, não somente se transforma, mas se revela ao mundo marcando este com suas peculiaridades. Falando e fazendo, damos a resposta do que verdadeiramente somos.
Porém, todo ato comunicativo, ou seja, o falar e o agir, não pode ser pensado isoladamente. Qualquer forma de isolamento, querendo ou não, retira a capacidade de um verdadeiro falar e agir. Assim, como a transformação da natureza necessita tanto do material a ser transformado como das “mãos” humanas para sua transformação, da mesma forma, o falar e o agir necessitam do ambiente social. A transformação da natureza é realizada no e para o universo humano e o material transformado continuará em contato com este universo. Da mesma forma, o falar e o agir se desenvolvem entre pessoas que estão em constante interação. No meio social, estamos constantemente construindo e recebendo o produto do falar e do agir. Aquele que fala e age nunca permanece simplesmente como autor, mas também é alvo do falar e do agir de outras pessoas.
A história, que se põe em movimento por meio da ação humana, é sempre uma história de autores e receptores. Na relação entre dominador e dominado, explorador e explorado, amantes, amigos, inimigos, familiares e estranhos, nunca existe uma simples unilateralidade. Sempre temos consentimento, justificativa, aceitação. E se esta não for convincente, as relações tendem à transformação. Este entrelaçamento inevitável da história possui como conseqüência a co-responsabilidade de todos os seres humanos de uma determinada sociedade.
Apesar do seres humanos serem livres, estes, segundo Hannah Arendt, nunca são isoladamente soberanos. Afinal, os seres humanos não vivem sozinhos em seu universo, suas ações estão em uma direta ou indireta interdependência. Os problemas de um ser humano afetam sempre aos demais, assim como suas vitórias. No querer, pensar e agir, o ser humano deve sempre ponderar sobre as conseqüências. Afinal, não somente ele, mas também outros estarão se defrontando com elas. Portanto, queira, mas pense, porque, ao falar e agir, você estará inevitavelmente atingindo você e os outros.
*Especial para o JC Cultura