A psicóloga Andréa Cristina Durgan Abrantes, 38 anos, atua diretamente com os portadores de HIV e aponta o medo como o principal sentimento das mulheres grávidas. “É a primeira coisa que vem à cabeça, o medo de morrer e não cuidar do filho”, recorda. Em alguns casos, as mulheres chegam a ter um medo excessivo de adoecer. “Essas fazem o tratamento à risca, mas às vezes exageram e depois superprotegem o bebê e elas mesmas”, diz a psicóloga.
Somente o acompanhamento periódico vai reduzindo o medo e abrindo espaço para que as gestantes aproveitem também os momentos da gestação. A religiosidade também serve de alento. “Mas nós já tivemos casos de recusa ao tratamento em função da religião”, lembra Andréa.
O período é delicado e exige a união dos profissionais da saúde para conseguir os melhores resultados dos pacientes. Entrevistada pelo JC, uma moradora de Bauru, 35 anos, que faz acompanhamento no Centro de Referência contou sua experiência. Ela e o marido são portadores do HIV e não pensavam em ter filhos. “Eu já tinha dois filhos e de repente descobri que estava grávida. Fiquei apavorada, não queria, pois tinha medo de passar para a criança.”
Ela encontrou amparo no aconselhamento médico e psicológico. “Comecei a tomar o AZT (medicamento específico para aids). Tive enjôos na gravidez, quase não comia, mas tive uma filha muito saudável, graças a Deus.” No começo, foi muito difícil, ela sentiu a ausência da família, que não compreendeu sua condição de soropositiva. “Somente um dos meus irmãos me apoiava. Ele me ajuda até hoje. Agora minha filha já tem 6 anos, é a minha alegria de vida”, salienta.
Outra entrevistada tem 20 anos, mora em Agudos com os pais e já não se relacionava com seu namorado quando descobriu ser portadora do vírus HIV no terceiro mês de gravidez. “Eu chorei muito. Tive muito medo de morrer, medo de perder meu bebê”, recorda a mãe. Ela conta que encontrou apoio na psicóloga, que lhe explicou os riscos de contaminação, a importância do tratamento e sentiu a força da família. “Eu tinha medo do parto, mas o doutor Marcelo (Massao Kanamura) foi conversando comigo, me acalmando. A hora que ela nasceu, ouvi ela chorando, estava bem, fiquei feliz”, recorda emocionada.
O cuidado nutricional é uma das ferramentas usadas contra as deficiências causadas por doenças infecciosas. Responsável pela área, a nutricionista Tânia Mara de Souza da Costa, 45 anos, explica a importância da alimentação para o soropositivo e para o bebê. “Incentivamos a alimentação fracionada, para evitar azia, queimação no estômago e má digestão. A alimentação ajuda a evitar os sintomas dos medicamentos, que exige ingestão de bastante água e mineirais”, diz a nutricionista.
Já os bebês que não podem ser amamentados, pois correm o risco de serem contaminados, o Centro oferece o leite em pó até o sexto mês. “Agora estamos tentando introduzir o suplemento alimentar para as gestantes, algumas têm dificuldade para diluir, se colocar muito dá diarréia e se colocar pouco pode prender o intestino”, explica. Vitaminas e minerais também fazem parte do cardápio nutricional, que exige verduras, frutas, carnes magras. “Uma alimentação balanceada. O problema é que a maioria acha que comer bem, é quantidade e não a qualidade.”
Apesar de portadora do vírus da aids, a segunda entrevistada também não segue exatamente à risca as orientações da nutricionista. Ela já incluiu o leite de vaca na alimentação da filha, hoje com 4 meses e 6,150 quilos, “Ela ressecou muito com o leite de lata, aí comecei a dar o de vaca e nunca deu infecção no intestino. Difícil ela ficar doente. É a jóia rara da minha vida”, diz, com alegria.
A jovem mãe também não precisa mais tomar os medicamentos. “Durante a gestação eu tomei, mas agora não estou precisando”, diz referindo-se à redução em sua carga viral. Atualmente, ela já se sente mais à vontade em manter suas consultas rotineiras, inclusive no ginecologista. “Eu nunca tinha ido antes da gravidez, fiquei com muita vergonha.”