Em média, três pessoas por dia em Bauru acordam pela manhã com o carro na garagem e, à noite, vão dormir sem ele por terem cometido alguma infração de trânsito considerada gravíssima. O resultado é a óbvia apreensão do veículo. No ano passado, a Polícia Militar (PM) calculou 1.315 casos desta natureza.
Quase metade dos veículos (no total 648) foi recolhida por atraso no pagamento do licenciamento, informa o major Pedro Batista Lamoso, comandante interino do 4º Batalhão da PM do Interior (BPMI). De acordo com ele, quando o motorista é flagrado nesta situação, perde sete pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e ganha multa de R$ 191,54.
Enfrenta o risco diariamente uma condutora (cujo nome será preservado), ouvida pela reportagem. Pouco antes da entrevista, ela conseguiu passar “ilesa” pela polícia, que atendia um acidente na rodovia Marechal Rondon. “Por enquanto eu tive sorte, mas vou regularizar a situação logo. Deixei para pagar depois, mas não sabia que os juros eram tão altos”, comenta.
Além do Imposto sobre Propriedade de Veículos Automotores (IPVA), a entrevistada ainda terá de quitar duas multas, sendo que uma das faltas apontadas ela garante não ter cometido. “É pagar ou pagar. Não tem jeito”, diz. Dificuldades financeiras são as principais responsáveis pelo atraso na regularização dos documentos, informa José Pereira Bicudo Júnior, proprietário de um despachante. Segundo ele, 80% dos clientes com tal pendência apresentam a justificativa.
Na opinião de Bicudo Júnior, entre 20% e 30% dos motoristas de Bauru transitam com documentação irregular. A informação, que circula inclusive em órgãos oficiais, não foi confirmada. A assessoria de imprensa do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), por exemplo, não dispõe de estatísticas sobre a incidência do problema em Bauru. Já os dados da 5ª Circunscrição Regional de Trânsito (Ciretran) reiteram os números fornecidos pela PM.
Documentação
O titular do Ciretran, Dernival Mauro Inforzato, também confirma o licenciamento como o principal “reboque” de veículos até o pátio. Na segunda colocação, informa ele, está a falta de documentação exigida por lei, outra falta gravíssima. Independentemente da situação, é grande o número de motoristas que batem às portas dos despachantes durante o ano todo, confirma a auxiliar administrativa de um deles, Adriana da Silva.
Ela faz a afirmação embasada em dez anos de experiência. Com 25 anos a mais de trabalho no ramo, Antônio Carlos Dellaqua confirma a informação, mas estima o total de motoristas circulando por Bauru com documentação irregular em no máximo 20%. Em 2004, o total de veículos apreendidos manteve-se na média de 2005. Chegou a 1.343, sendo 591 em função do licenciamento.
Para reaver o veículo, o motorista deve quitar todos os débitos pendentes e os custos do pátio. Deste modo, o carro volta a circular pela cidade, cuja frota era de 140.403 em novembro do ano passado, segundo o Detran.