“Ele possui uma beleza nostálgica e romântica como nos filmes em preto-e-branco. Tem um olhar melancólico e um sorriso doce. Ele é lindo, gostoso e, como ator, nem precisa dizer que arrasa.” Rodrigo Santoro? Fábio Assunção? Não. A descrição, retirada de uma comunidade do site de relacionamentos Orkut, é de Wagner Moura. O intérprete do presidente Juscelino Kubitschek na primeira fase da minissérie “JK”, que é considerado um dos melhores atores da nova geração pela crítica especializada, virou também queridinho das mulheres ao protagonizar a novela “A Lua me Disse” no ano passado e, agora, brilha na pele do político.
“Isso é bom, já que é reflexo do reconhecimento”, limita-se a comentar. Os elogios não partem só das fãs. O baiano de 29 anos é unanimidade entre amigos e colegas de trabalho. Todos dizem que é delicado, inteligente, divertido, excelente ator, dedicado, intenso e sem defeitos. Filho de militar, Moura viveu em diversas cidades quando era criança. Aos 12 anos, porém, mudou-se para Salvador e virou um adolescente um tanto deslocado em seu novo colégio. Bom aluno, ganhou o apelido de Ovni, pois vivia isolado. Uma de suas poucas colegas o apresentou ao tablado. “Quando tinha 15 anos, uma amiga fazia teatro em um grupo da cidade. Ela me levou e não parei mais”, lembra. Foi na escola de teatro Casa Via Magia que conheceu o ator Lázaro Ramos, um de seus melhores amigos até hoje.
Com o fim da adolescência, vieram as indecisões e, para muitos, é hora da escolha. Apesar da paixão pelos palcos, Moura foi cursar jornalismo. “Também me sentia atraído por essa área e queria experimentar algo novo”, justifica. Jean Willys, seu colega de classe, recorda que, na época, a arte dramática ainda tomava muito de seu tempo. “Ele chegava atrasado nas aulas porque ficava ensaiando até tarde”, entrega. Na faculdade, Moura conheceu ainda a fotógrafa Sandra Delgado, com quem está casado há cinco anos.
Ao fim do curso, Moura abriu uma assessoria de imprensa, mas não deu certo - vivia fazendo trabalhos para amigos e levando calotes. O jeito foi apostar tudo no talento de ator. Um de seus espetáculos, “Abismo de Rosas” - em que cantava Lupicínio Rodrigues, levou-o a seu primeiro filme, o curta “Rádio Gogó”. “Fiquei impressionado com a desenvoltura e a verve cômica da criatura”, conta o diretor José Araripe Jr. Moura interpretava Replay, um torcedor do Ypiranga. Como a cor do time era o amarelo, Araripe queria que o ator pintasse o cabelo, mas o cachê era simbólico, e ele ficou sem graça de pedir. “No início de nossa conversa, Wagner sacou e disse que topava. E, ao contrário do que dizem, ficou ainda mais inteligente”, brinca.
Logo depois, veio o convite de João Falcão para que fizesse “A Máquina”, que contava também com Lázaro Ramos e Vladimir Brichta. A peça foi a responsável por sua mudança para o Rio de Janeiro. “Foi incrível. Eu já tinha vontade de ir para o Rio, e esse convite me possibilitou um novo desafio”, diz o baiano. Longe de casa, ele conta com o apoio dos amigos. “O Lázaro e o Vladimir são meus grandes companheiros. Como não temos família aqui, nós nos ajudamos mutuamente.”
Continuou a trilhar seu caminho na tela grande fazendo o longa venezuelano “Sabor da Paixão” (“Woman on Top”), com Murilo Benício e Penélope Cruz. Aí vieram “Abril Despedaçado”, “O Homem do Ano”, “As Três Marias”. Sempre como coadjuvante. Foi em 2003 que, finalmente, chegou a vez dele. Primeiro, brilhou ao lado de Antonio Fagundes em “Deus É Brasileiro”, de Cacá Diegues, longa que lhe deu fama nacional e o levou para a TV.
“Ele é sensacional, uma doce criatura. É delicado e inteligente”, elogia o diretor, contando que a preparação levou quase três meses. Diegues diz que previa o estouro do rapaz. “Eu falava: ‘Você vai ser um grande sucesso. Fazer TV é inevitável’. Ele está conduzindo tudo muito bem”, orgulha-se. Enquanto ainda filmava com Fagundes, Moura soube de testes para “Carandiru” e mandou uma fita. Entrou no elenco por último, com a desistência de um ator.
Daí em diante, não parou mais. Na TV, participou de “Carga Pesada” e fez o quadro “Homem Objeto”, no “Fantástico”. A seguir, o humorístico “Sexo Frágil”, com Bruno Garcia e Lúcio Mauro Filho, além de Ramos. Lúcio Mauro Filho conta que se aproximou “da turma nordestina” por meio de Bruno Garcia. “Criamos uma amizade forte e, quando fizemos ‘Sexo Frágil’, os laços se estreitaram”. Uma das memórias que guarda dessa relação é o Réveillon de 2004 para 2005, que passou com a família de Moura em Itaparica (BA). “Pude conviver com Wagner em um ambiente mais tranqüilo, de tomar cerveja e jogar bola, foi belíssimo. Fizemos queima de fogos e conheci um outro lado dele.”
No ano passado, com “A Lua me Disse”, Moura caiu de vez nas graças do público. Miguel Falabella, co-autor ao lado de Maria Carmem Barbosa, comenta que essa é a prova de que “talento está acima de qualquer coisa”. “Ele é um ator superlativo, mas não é um galã nos parâmetros que se espera.” O baiano fala que gostou, mas não quer voltar aos folhetins tão cedo. “A experiência é boa, mas exaustiva.” Seu sucesso continuou com o premiado filme “Cidade Baixa”, lançado no ano passado, e agora brilha em “JK”.
“Penso nisso como uma coisa nova na minha carreira. Estou gostando muito de interpretá-lo e de conhecer um pouco mais da história do Brasil.” Depois, espera ter merecidas férias - Lúcio Mauro filho diz que eles pretendem viajar juntos. “A seguir, vou fazer teatro.” Mas não há motivos para preocupação: o moço não vai ficar longe da tela. No escurinho do cinema, ele estará na adaptação de “A Máquina”, prevista para estrear em março. É só esperar para ver.
*Daniela Ortega