Santiago - A médica socialista Michelle Bachelet, 54 anos, deve sair vitoriosa na eleição presidencial do Chile. Ela tinha 53,23% dos votos com a apuração encerrada em 67,31% dos locais de votação, segundo o primeiro relatório do Ministério do Interior.
Seu adversário, o empresário Sebastián Piñera, havia recebido 46,77% dos votos. Caso os números se confirmem, Bachelet se tornará a primeira presidente da história do Chile.
Autoridades previam um alto comparecimento dos 8,2 milhões de eleitores registrados, já que historicamente a abstenção é baixa no Chile. Confirmando o prognóstico dos analistas, a contagem iniciada ontem à tarde revela uma disputa voto a voto, com diferenças entre os dois candidatos de cerca de três pontos percentuais.
Apesar da apuração manual, os resultados finais eram esperados ainda para ontem à noite. O novo presidente toma posse no dia 11 de março.
Foram registrados, porém, alguns incidentes de violência durante a votação. O deputado Pablo Longueira, da União Democrática Independente (direita), foi atacado com ovos, pedras, moedas e terra por um grupo de cerca de cem pessoas ao comparecer para votar na região de La Pintana, em Santiago.
Aos gritos de “assassino” e “vá embora”, ele teve de deixar o local em uma rádiopatrulha e votou com proteção policial. Houve confusão e empurra-empurra também quando Michelle Bachelet compareceu para votar, com trocas de socos entre fotógrafos que se aglomeravam em torno da candidata socialista. O candidato da direita, Sebastián Piñera, votou em um ambiente mais tranqüilo, sem registro de incidentes de violência.
Entre os principais desafios do próximo presidente chileno está a reforma do sistema previdenciário, que o governo Lagos não conseguiu impulsionar devido à falta de consenso político.
Privatizado durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973-90), o sistema atual chileno exclui cerca de 50% da força de trabalho ativa - pessoas subcontratadas ou com contratos temporários. Analistas avaliam que um eventual governo Bachelet teria maior facilidade em implementar essas mudanças tendo em vista o fato de a Concertação ter obtido, pela primeira vez na história, maioria nas duas casas do Congresso.
Entre os deputados, porém, a representação obtida não é suficiente para aprovar emendas constitucionais sem acordos transversais. Outro grande desafio será reduzir a desigualdade de renda, uma das mais injustas na região, apesar de o Chile registrar crescimento econômico consistente, em média anual de 6%.
Popularidade
Santiago - O atual presidente do Chile, Ricardo Lagos, 67 anos, conseguiu um feito que poucos mandatários no mundo lograram: após um mandato de seis anos, ele deixa o comando do país com uma popularidade superior à que possuía ao assumir, em março de 2000.
Lagos votou ontem em Santiago aos gritos de “Lagos, amigo, o povo está contigo” e “2010, 2010, 2010” - em alusão à próxima eleição presidencial.
A Constituição chilena veta a reeleição só para mandatos consecutivos. Pesquisa divulgada em dezembro dá 71% de popularidade a Lagos, contra 58% registrados em maio de 2000, logo após sua posse.