Elogiados pela mídia por seu som multicultural e especialmente pela postura social e ligação com o projeto respeitadíssimo, de atuação em comunidades do Rio de Janeiro (Vigário Geral, Parada de Lucas), a banda AfroReggae coloca nas lojas nesta semana seu segundo CD, “Nenhum Motivo Explica a Guerra” (Geléia Geral). O grupo esteve em Bauru no ano passado e apresentou o repertório do novo álbum, que busca aflorar as raízes e influências dos músicos, deixando seu som mais universal porém sem perder o foco do compromisso social. Mais do que uma banda politicamente correta, os dez músicos são donos de talento e de um som legitimamente brasileiro.
O percussionista Altair Martins explica o porquê da postura politicamente correta do grupo, formado na organização não-governamental Grupo Cultural AfroReggae - surgido após a chacina de Vigário Geral e que visa dar oportunidade a jovens que poderiam estar envolvidos com o tráfico. “Nenhum dos integrantes usa droga, tabaco nem álcool. Nossa proposta é a música, é ter a cabeça aberta para ouvir de tudo e falar de todos os assuntos, inclusive da nossa história, das favelas”, diz Altair, em entrevista ao JC Cultura.
O discurso das letras, mesmo que social, se afasta de possíveis clichês chatos, raivosos ou autocomiserativos. A música que abre e dá nome ao disco tem letra de Arnaldo Antunes: “Nenhum motivo explica a guerra/ Nem cobiça, nem controle populacional/ Nem vergonha, nem orgulho nacional”, diz. Segundo Altair, a letra foi escrita especialmente para o disco e ainda ganhou participação dos rappers ingleses Ty e Estelle. Enquanto essa aponta mais para o hip hop percussivo que já é tradicional do grupo, “Mais Uma Chance” parte para um groove mais melódico, na letra que fala das notícias de homicídios e sofrimento que tomam os jornais na segunda-feira, depois dos finais de semana violentos. A produção de Chico Neves também deixa as guitarras mais altas, injetando mais rock no som do AfroReggae.
A terceira faixa é “Quero Só Você ”, música de trabalho com letra de Nando Reis e Liminha, menos pretensiosa e mais colorida do disco. “Benedito”, do próprio grupo, ganhou participação de Manu Chao. “Foi uma parceria construída ao longo do tempo. Em 1999, conhecemos o irmão dele na França. Já nos amarrávamos no som dele e ele conhecia nosso trabalho. Quando o convidamos, rolou uma química e ele compôs a parte dele na hora, depois de ouvir a música uma vez”, conta Altair.
Outros destaques são “Coisa de Negão”, com base de pura black music e funk, e versão que a banda fez para “Haiti”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, mais enraizada no reggae percussivo que delineia seu som. A mais pesada, em letra e música, é “Águas de Moloch”. “Lá fora desespero, correria e tumulto/ Essa tempestade vai deixar muita gente de luto/ Chuva forte que causa enchente/ O Rio está cheio de indigente/ Chuva forte pára de repente/ Deixando sua marca tão escura e evidente”
“Pensávamos em um caminho diferente do primeiro disco, que foi mais experimental. Queríamos valorizar os grooves e as letras, nessa concepção do disco e da banda estar no mundo. É uma proposta mais global, sair daquela coisa só da favela, dos problemas mínimos ou centralizados para uma situação universal”, analisa o percussionista. Dignamente, o caminho é percorrido e o som do AfroReggae, carioca, brasileiro e universal, se mostra um dos poucos que vale a pena conhecer no cenário da música nacional.