08 de julho de 2026
Cultura

Bauru será cenário para documentário

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

Vista como um marco entre o sudeste e o centro-oeste do Brasil, a cidade de Bauru foi escolhida como um dos cenários para o documentário “Karajás”, que o jornalista, fotógrafo e diretor carioca Marcelo de Paula pretende lançar até o final deste ano. Na produção, o diretor refaz a viagem que o levou, 15 anos atrás, do Rio de Janeiro até a comunidade indígena Carajás, na reserva indígena da Ilha do Bananal em Tocantis, onde viveu por seis meses junto à tribo. A prefeitura de Bauru apoia o projeto, mas o acordo ainda não foi formalizado. Nesta segunda-feira, o diretor vem a Bauru participar de uma reunião com o secretário municipal de Cultura, José Augusto Ribeiro Vinagre, para fechar todos os detalhes.

O roteiro do filme aborda todas as cidades pelas quais o diretor passou em sua expedição original. O objetivo de De Paula é preparar o telespectador para entrar no universo dos Carajás, por meio de cenas que provoquem um distanciamento do centro urbano do Rio de Janeiro e uma aproximação gradual da realidade dos índios.

“Bauru será a cidade de abertura do filme, porque, na época em que a ferrovia estava ativa, era o município que ligava o centro urbano ao pantaneiro”, explica. Na cidade, De Paula planeja captar com uma DVCam imagens do atual estado de abandono das estações ferroviárias e contrapor aos depoimentos de ferroviários e bauruenses que viveram o auge da ferrovia e o conseqüente desenvolvimento que da cidade. “Fui a Bauru no final do ano passado e fiquei emocionado ao ver a estação central vazia. Quando fiz a viagem de trem até o centro-oeste, o local era uma loucura! Cheio de mochileiros, gado, gringos e pantaneiros. Fora a viagem, que era fantástica. Você via o fim das montanhas e o começo do cerrado”, lembra.

O diretor também pretende captar takes de prédios da cidade e ângulos de fácil identificação de Bauru. As gravações, que serão feitas no mês de abril, exigirão mão-de-obra local. “Como vamos fazer filmagens em lugares de difícil acesso, optamos por uma equipe reduzida, de apenas três pessoas. Por isso, vou precisar de no mínimo um assistente de produção local para indicar locações bacanas e mexer no maquinário”, adianta. A trilha sonora do documentário também privilegiará produções locais. “Usaremos músicas regionais e tribais indígenas. A idéia é divulgar a cultura do País”, coloca.

Programa de índio

Uma viagem de auto-conhecimento. Foi essa a razão que levou Marcelo de Paula a abandonar o emprego como chefe da assessoria de imprensa da defensoria pública do Rio de Janeiro e se aventurar pelo Brasil. “A tataravó de minha mãe era índia. Eu queria entender o que era isso”. A expedição durou cerca de dez meses. De trem, de ônibus, de caminhão ou a pé, De Paula cruzou o Brasil Central para conhecer profundamente a cultura da região.

O percurso contou com uma temporada de 20 dias com os índios Terenas, na cidade de Miranda (MS), alguns dias com os Xavantes (MT) e seis meses com os Carajás (TO). “Não escolhi Carajás. Não tinha nenhuma idéia de onde iria chegar. Foi o trem do Pantanal que me levou a eles”, conta. No local, De Paula viveu realmente como índio. Aprendeu a pescar, a caçar e até mesmo a falar no idioma nativo. “Quando voltei para o Rio, foi um choque brutal. Fiquei alguns meses praticamente me comunicando por mímica, não sabia mais falar português”.

A experiência foi fundamental para a vida do jornalista. De Paula sentiu a necessidade de fazer com que os índios fossem entendidos, além de preservar suas culturas. “Há um grande preconceito da sociedade em relação aos índios. Eles são batalhadores e possuem uma cultura maravilhosa que precisa ser perpetuada para que não caia no esquecimento”, aponta.

O amor pela cultura brasileira fez com que o até então fotógrafo se aprofundasse na arte cinematográfica e fundasse a Código Solar Produções, em sociedade com a produtora Carla Mendes, no ano de 2001. As principais áreas de atuação da empresa são documentários sócio-ambientais, culturais, expedições científicas e esportivas, náutica e turismo. No histórico da companhia, estão cerca de 12 documentários realizados em parceria com “Fantástico”, “Globo Repórter”, “Globo Ecologia”, GNT, TVE, “Revista de Domingo” e caderno de ecologia do “Jornal do Brasil”, “Correio Braziliense”, Ambiente Brasil e 360 Graus do Portal Terra na Internet.