Neste ano, completam-se 100 anos que o brasileiro Santos Dumont voou pela primeira vez com seu 14-Bis pelo céu de Paris, ganhando o prêmio “Coupe d’Archdeacon” pelo primeiro vôo com um aparelho mais pesado que o ar. Em homenagem ao feito que o marcou como o pai da viação, o Espaço Cultural Bolsa de Mercadorias & Futuro (BM&F) abre na segunda-feira, em São Paulo, uma mostra que reúne 60 fotografias do aviador inéditas no País, restauradas e ampliadas digitalmente por brasileiros, além da réplica do modelo Demoiselle, construído pelo bauruense Milton Matheus Fercher. A mostra tem a curadoria de Antônio Carlos Abadalla e é uma realização do Instituto Cultural ECO Econômico Espírito Santo.
As imagens pertencem ao Museu do Ar e do Espaço de Le Bourget (MAE), de Paris, e compreendem o período que Dumont passou na França, entre 1898 e 1910, considerado o mais marcante em se tratando de suas invenções aeronáuticas. “A mostra é apenas uma pequena parte do acervo de lá, que conta com cerca de 1.400 imagens. Nossa intenção é digitalizar e restaurar todas as fotos, mas, para isso, precisamos de parceria”, conta o diretor do Instituto ECO, Marco Antônio Espírito Santo, colaborador da mostra.
A oportunidade de trazer a exposição ao Brasil surgiu em 2005, ano do Brasil na França. Em junho, o instituto levou ao MAE a exposição “Alberto Santos Dumont – Eu naveguei pelo Ar”, baseada no livro homônimo, produzido por Marcelo Breda Mourão, João Luiz Musa e Ricardo Tilkian, lançado em 2001. Na obra, imagens de acervos brasileiros digitalizadas e, posteriormente, restauradas pelos profissionais, narram a vivência do aviador na França. “É muito importante iniciativa como essa. Com a recuperação das imagens, foi possível captar detalhes essenciais para a história, como a foto do Balão América, em que, dentro dele, é possível ver uma espécie de bicicleta construída por Dumont para fornecer uma maior dirigibilidade ao balão”, salienta.
A mostra foi visitada por aproximadamente 100 mil pessoas em três meses, incluindo a comitiva oficial chefiada pelo presidente Lula. “Foi por meio dessa mostra que o MAE conheceu o trabalho de restauração feito pelos brasileiros e solicitou ao instituto um trabalho semelhante. Lá, quase não existem profissionais que façam restaurações digitais, além do custo da mão-de-obra brasileira ser muito inferior”, conta Santo.
Desde então, o designer e fotógrafo Ricardo Tilkian vem trabalhando no acervo francês. “Em função do clima, o estado de conservação do acervo francês está melhor do que o encontrado no Brasil. Em média, trabalhamos cerca de 4 horas em cima das imagens”, afirma Tilkian. Para a restauração, quatro profissionais digitalizam as imagens, que depois são tratadas em programas de manipulação de imagens, como o Adobe Photoshop. De acordo com Tilkian, o trabalho exige conhecimento da técnica fotográfica utilizada na época. “Não é difícil fazer grandes intervenções, o problema é se manter fiel ao período em que a foto foi tirada”.
Além das fotos, a mostra contará com animação digital, filmes, réplicas e objetos pessoais de Santos Dumont.
A visitação pode ser feita até o dia 30 de março em São Paulo. Depois, a mostra segue para Paris e, posteriormente, para a Suíça, onde o Demoiselle fará seu primeiro vôo, em eventos promovidos pela Federação Internacional de Aeronáutica (FAI), com sede em Lausanne. O diretor do instituto ainda está com planos de instalar dois pontos de cultura no Brasil, onde será criada uma espécie de acervo virtual de Santos Dumont. O espaço também promoverá inclusão digital e capacitação profissional. O projeto foi aprovado pelo governo federal por meio da lei de incentivo cultural, a lei Rouanet, e aguarda patrocínios.
• Serviço
Mostra do Acervo Francês de Santos Dumont no Espaço Cultural BM&F (praça Antônio Prado s/n, em São Paulo). A mostra vai até o dia 30 de março e poderá ser visitada de segunda a sexta-feira, das 10h às 17h, com entrada gratuita.
____________________
Demoiselle bauruense
A curiosidade levou o técnico em refrigeração bauruense, Milton Matheus Fercher, a utilizar suas horas de lazer para se dedicar a uma obra audaciosa. Há cerca de seis meses, Fercher tem reproduzido em sua oficina o modelo Demoiselle, construído por Dumont entre 1907 e 1909. “Um amigo me mostrou a planta da aeronave e sugeriu que eu a construísse. Comecei a pesquisar e, quando vi, já estava investigando os materiais que mais se aproximavam dos utilizados no original”, lembra.
Com bambu, madeira, seda e alguns pedaços de arame, o bauruense reconstruiu o modelo, que será exposto nesta segunda-feira em São Paulo e, depois, seguirá para a Europa. O único detalhe que falta para completar a obra é o motor, que ainda precisa ser usinado. “Fiz toda a montagem de forma mais semelhante à original, incluindo medidas e material utilizado, agora só preciso finalizar a construção do motor”, afirma Fercher, que até então não tinha conhecimento sobre o funcionamento de um avião.
Seguro e calmo, Fercher tem certeza de que o avião levantará vôo, experiência que está programada para ser realizada em setembro na Suíça. “Especialistas que consultei me garantiram que o modelo tem plenas condições de voar”, diz o bauruense, que anda incomodado diante de tanta pressão. “Ultimamente tenho trabalhado muito em cima do avião e estou cansado. Nem tive tempo para pensar em tudo isso que está acontecendo, acho que é por isso não estou ansioso”.