“Foi nos bailes da vida, ou num bar em troca de pão...”. A canção que consagrou Milton Nascimento data 25 anos, mas sua letra continua sendo verdade para a maioria dos músicos de Bauru. No cenário musical da cidade, tradição de muitas décadas, artistas consagrados, com mais de dez anos de trabalho, trocam experiências e dividem os palcos da vida noturna com jovens iniciantes na carreira. Na contramão do mercado, esses artistas não abrem mão de seu violão nem do repertório de clássicos da MPB e do rock, e disputam os poucos espaços e o baixo cachê que a cidade lhes oferece com DJs e suas parafernálias eletrônicas.
Movidos pela paixão em tocar, mesmo diante desses obstáculos, os músicos não desanimam. A possibilidade de alegrar o dia dos ouvintes recompensa qualquer dificuldade. É a opinião da cantora Lizeth, que há 15 anos dedica-se à música, tocando com sua banda Madame Pimenta ou em barzinhos, acompanhada por seu marido Wal. “Cantar é o que mais gosto de fazer na minha vida. A música é um meio de entretenimento para quem escuta, além de ser um conforto à alma”, coloca.
O ambiente intimista dos bares, o calor do público, a proximidade da platéia. Esses são alguns atrativos de quem opta por esses lugares para tocar. Nos repertórios, sucessos que marcaram várias gerações nas vozes de Djavan, Tim Maia, Tom Jobim e Beatles continuam sendo executados, sempre com uma nova roupagem para não cair na mesmice. Esta é a fórmula para conquistar os novos ouvintes que, com seus 20 anos, compartilham o ambiente com veteranos da noite, de 40 anos ou mais.
“Assim como o público, que se recicla constantemente, nós temos que sempre renovar as harmonias para oferecer um trabalho de qualidade”, afirma Bitenka. Há 20 anos, o cantor tem na música seu único meio de renda - e não reclama. “Para os músicos antigos que tocam com qualidade, não faltam oportunidades de trabalhar. Mesmo assim, temos que nos desdobrar para garantir nosso sustento”.
Desdobrar-se é o que o contrabaixista, guitarrista e cantor Turco tem feito desde que começou a tocar, há 15 anos. Incentivado por premiações em festivais no início da carreira, o músico pensava que o caminho para o reconhecimento profissional estava perto. “Tocava baixo em uma banda e recebemos diversos prêmios por conta de nossas músicas. Pensei que poderia viver com minhas próprias composições, mas depois vi que não era tão fácil”, lamenta. Para sobreviver do seu trabalho, Turco teve que abandonar o baixo, iniciar aulas de violão e começar a cantar covers. “A maioria dos lugares não comporta uma banda. Não tive escolha. Tive que me virar sozinho mesmo. Espaço existe se você se reciclar”, afirma.
Já para o baterista Ralinho, que desde 1985 toca na cidade, passando por diversas bandas de rock até se encontrar no jazz, são poucas as casas da cidade que oferecem espaço para os músicos, principalmente os que se dedicam ao som instrumental. “Nós temos que lutar para conseguir tocar, porque muitos bares subestimam o gosto das pessoas e só lhes oferece o que está na mídia. Mas eu noto que quando o público ouve nosso som, adora. O problema é que a boa música quase não chega aos seus ouvidos”, aponta o músico que, além de outros trabalhos paralelos, integra o Sindicato do Jazz, fazendo shows com Derico, um dos integrantes do sextexto do programa de Jô Soares.
Sobre as dificuldades da carreira, Ralinho é rápido na resposta. “Enquanto alguns me perguntam se dá para viver da música, eu afirmo que não dá para viver sem música”.
Concorrência dos anos 90
Requisitados para tocar quase todas as noites na década de 80, os músicos da cidade assistiram assustados à avalanche de artistas internacionais que dominaram o gosto dos brasileiros a partir da década de 90. Na esteira da dance music, apareceram os DJs e as raves disputando, numa competição desleal, os espaços para a música na cidade. “Não dá para competir com DJs. É muito mais barato contratar uma pessoa que vai colocar um som eletrônico do que músicos. Além disso, precisamos de toda um equipamento para tocar acústico”, coloca Ralinho.
O mesmo pensamento é compartilhado pela novata Adriane, vocalista do grupo de rock Move Over e que, paralelamente à banda, apresenta-se em barzinhos da cidade acompanhada no violão por Leandro, outro integrante da banda. Com apenas 19 anos, Adriane lamenta o fato de tanto as casas noturnas como o público nutrirem uma certa preferência pelo som eletrônico. “Estou decepcionada. Há uns três anos, a banda se apresentava cerca de sete vezes por mês na cidade, mas agora quando surge uma oportunidade, já é muito”.
Na sua visão, a razão para isso está na preferência dos mais jovens, que têm optado por música eletrônica. “O pessoal só fala de rave, DJ, esquecendo o rock que é a verdadeira raiz de tudo isso”.
Turco acredita que o gosto do público tem mudado por conta da influência da mídia. “Sempre existiu música de baixa qualidade, isso é normal. O anormal é só existir isso. E a impressão que tenho quando ligo a TV ou escuto rádio é que não se faz outro tipo de música no Brasil, o que é uma mentira, há músicos bons, mas que não têm oportunidade”.
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Serenata à moda antiga
Enquanto muitos estão encantados pelo universo eletrônico, outros ainda preferem o romantismo das serenatas. Fora de moda? Muito pelo contrário. Pelo menos foi nesse filão que a cantora Ana Person encontrou um meio de divulgar seu trabalho e tirar o sustento de sua família. “Os cachês oferecidos para tocar em bar são baixos, por isso eu desisti. Fazendo serenatas eu recebo muito mais”, afirma.
Tudo começou com uma brincadeira. Em 97, Ana foi convidada para homenagear um amigo com uma serenata. A canção escolhida foi “Amor de Índio” de Beto Guedes. As pessoas que assistiam a seu desempenho aprovaram e assim a cantora começou a ser chamada para cantar em todos os tipos de lugares e em todos os horários. “A serenata faz com que eu me supere o tempo todo. Cada ambiente em que toco é uma surpresa e isso me traz uma liberdade de criação incrível”, coloca.
A cantora também participa de shows institucionais e eventos, como formaturas e casamentos. Com agenda lotada, Ana diz não possuir nenhuma grande pretensão artística; seu único desejo é poder levar algo de bom para quem a escuta. “Para mim, é gratificante compartilhar um momento de amor da vida da pessoa”, finaliza.