09 de julho de 2026
Articulistas

Salão de barbeiros


| Tempo de leitura: 4 min

Vou ao barbeiro como vou às urnas. Um dever cívico. Um ato que exige reserva e privacidade. Nada de testemunhas. Cortar cabelo, para mim, é como experimentar roupa em provador de loja. Bem a propósito, o Ismael, meu arquiteto capilar oficial, trabalha em sua casa, numa rua sem movimento no mesmo bairro em que eu moro, sob hora marcada. Jamais critica o prefeito ou fala mal dos vereadores. Muito menos especula sobre a vida alheia. Evangélico disciplinado. É o profissional que me convém. O problema de aparar as melenas aparece quando viajo sem o cuidado de, antes, visitar o Ismael. Em cidade estranha a gente acaba entrando no primeiro barbeiro com a aparência de lugar limpo. E seja o que Deus quiser...

Em recente viagem, escolhi uma barbearia em cuja porta de vidro estava escrito “personal barber”. Se a expressão inglesa cabe a professores de ginástica, deve servir também para qualquer outro tipo de profissional – “personal manicure”, “personal shoeshine boy”, etc. Gostei de ter sido logo atendido. Nem deu tempo de folhear a “Caras”. Sentei na cadeira, dei informações sobre o corte desejado e escondi a cara numa revista, desta vez a Playboy, antes que o barbeiro começasse a aporrinhar com perguntas sobre a minha identidade. Percebi que o material de leitura estava defasado em anos. A fotografia da capa era da Luisa Thomé. Reclamei e o rapaz da tesoura, prestativo, me deu outra revista. Desta vez com a Mel Lisboa. Tão amarfanhada que não dava para distinguir se a tatuagem era de um dragão com a cauda enrolada no umbigo ou a cicatriz de uma lipo mal feita.

O que mais me chamou a atenção na revista – sem nenhum desrespeito à beleza das coelhinhas - foi uma entrevista com o candidato Luiz Ignácio Lula da Silva ao atual mandato de presidente da República. Lula fala mal do adversário José Serra e de FHC. Elogia Sarney. Admite que gosta de uma cachacinha. Revela a certa altura que “não vale à pena ganhar se não for para mudar a política do Malan desde o primeiro dia”. Garantiu o cumprimento de todos os compromissos do País – explicitamente o pagamento das dívidas externas e interna – mas “primeiro vamos colocar comida na mesa do povo para depois pensar no FMI”.

No filme “Entreatos”, de João Moreira Salles que acompanha os últimos dias do candidato antes de virar presidente (o filme é imperdível mas, infelizmente, nunca foi exibido nos cinemas de Bauru e recentemente foi retirado de circulação pelo autor) Lula vai ao seu barbeiro em São Bernardo do Campo acompanhado pela câmera. Após uma sessão de navalhadas e tesouradas, sai exatamente com a mesma cara com que entrou. Não mudou nada. Fernando, o barbeiro de Lula, antecipou para o público o que seria o governo do PT. Num certo trecho do filme Lula experimenta gravatas numa loja e admite nunca ter se acostumado ao macacão de operário: “Em duas semanas de terno e gravata não quero saber de outra coisa. Gosto de me vestir bem.”

Desviei a revista dos olhos para me livrar da dissonância que o Lulinha paz e amor de ontem me causava ao confrontá-lo com Lula de hoje. Só então percebi que o salão de barbeiro é bem defronte o ponto de ônibus. Uma senhora, do outro lado do vidro me olhava com cara de nojo. Deveria haver uma lei regulamentando a questão. Ser surpreendido com a Mel Lisboa entre os dedos é o mesmo que ser flagrado com o zíper da calça aberto. Um homem de cabelos brancos com eu jamais poderia ser submetido a esse tipo de superexposição.

O Lula, coitado, esse já foi pego com o fecho éclair escancarado faz tempo. Mas ele tira partido disso. Lula, na intimidade, mostra a alma comum e defeituosa de qualquer cidadão. O povo se acostumou com suas metáforas. As elites também aprenderam a aceitá-lo do jeito que é. Prova disso é que voltou a liderar o Ibope de intenções de voto na semana. Na hora de pagar o barbeiro, sem que eu perguntasse confessou-me ter votado no Lula em todas as oportunidades. E não teria dúvidas em repetir o voto. Fez ares de conformado: “Já que não tem tu, vai tu mesmo.”

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC