08 de julho de 2026
Internacional

Evo Morales assume e lembra Guevara

Folhapress
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La Paz - Com a mão esquerda levantada, o punho cerrado e vestindo um casaco de alpaca sob a camisa branca, o socialista indígena Evo Morales, 46 anos, recebeu ontem a faixa presidencial da República da Bolívia para um mandato de cinco anos, prometendo “refundar o país” e pedindo “unidade para mudar a nossa história”. “Estamos na obrigação de fazer uma grande rememoração sobre o momento indígena, sobre a situação da época colonial, da época republicana e da época do neoliberalismo”, afirmou Morales, no início de seu discurso no Congresso, diante de parlamentares, convidados e representantes de movimentos sociais.

“De acordo com o Censo de 2001, somos 62,2% de aimarás, quéchuas, guaranis. Temos sido historicamente marginalizados, humilhados, odiados, desprezados, condenados à extinção. Essa é a nossa história. A esses povos jamais reconheceram como seres humanos. Mas somos os donos absolutos desta nobre terra e de seus recursos naturais”.

Dispensando o terno e a gravata, o novo presidente boliviano também quebrou o protocolo quando recebeu a faixa de seu vice-presidente, Álvaro García Linera. Em vez de fazer o sinal da cruz -na Bolívia, a religião católica é oficial-, Morales, com os olhos apertados para conter o choro, levantou o braço esquerdo com o punho fechado, num sinal de “liberação”, como definiram seus correligionários. A mão direita repousou sobre o coração.

Antes de começar o discurso, Morales pediu um minuto de silêncio aos “mártires da libertação”, entre eles o argentino Che Guevara, morto na Bolívia em 1967 enquanto organizava uma guerrilha comunista no país. Durante a cerimônia, um deputado do MAS (Movimento ao Socialismo) mascava as folhas de coca que havia colocado em cima da bancada parlamentar. As cerimônias de posse prosseguiram durante a noite na praça San Francisco, que desde a manhã recebia milhares de simpatizantes, quase todos indígenas.

O novo presidente comparou o seu país à África do Sul, ao qual visitou pouco antes de tomar posse. “A Bolívia parece a África do Sul. Ameaçados e condenados ao extermínio, estamos aqui, estamos presentes” disse. “Esse movimento indígena originário não é concessão de ninguém, é a consciência de nosso povo.”