09 de julho de 2026
Cultura

Por trás do show...

Por Adriana Fricelli | Enviada especial ao SPFW
| Tempo de leitura: 7 min

Quem assiste à magnitude de um evento como a São Paulo Fashion Week (SPFW), que encerrou ontem sua 20.ª edição, atraindo cerca de dez mil pessoas por dia com um investimento estimado em R$ 6 milhões, não imagina o sufoco de milhares de profissionais que trabalham dia e noite para levar aos olhos do público o show das 47 grifes que desfilaram nas passarelas paulistas. Nos corredores do evento, jornalistas da imprensa nacional e internacional, em meio a modelos e algumas celebridades da moda e da mídia, correm para acompanhar o que será a moda do inverno deste ano.

Nos backstages, inúmeros modelos, a maioria adolescentes com seus 14 ou 15 anos e medidas perfeitas, enfrentam a maratona de participar de uma dezena de desfiles em apenas seis dias. Para que tudo saia como o programado e sem atrasos, equipes de cabeleireiros e maquiadores desfazem e refazem penteados e looks, enquanto outros jovens aguardam, entre conversas, leituras e massagens, a sua vez de se transformarem em beldades.

No desfile do estilista Caio Gobbi (leia mais sobre seu desfile abaixo), marcado para 19h do sábado no Museu de Arte Moderna na Bienal do Ibirapuera, a preparação começou logo no começo da tarde. Os jovens chegam com cinco horas de antecedência para passar pelas mãos dos profissionais que, com um quadro de 20 pessoas, entre cabeleireiros e maquiadores, produzem os 47 modelos, sob a tutela do especialista Evandro Ângelo, responsável pela idealização e elaboração do cabelo e da maquiagem.

Assim que chegam ao backstage, a primeira etapa é a maquiagem. Cinco maquiadores corrigem as imperfeições e dão cor às peles dos modelos, trabalho que não excede 20 minutos. “Temos que ser rápidos. Ainda mais quando os modelos chegam de outro desfile e temos que, em pouco tempo, decompor a personagem e produzir outra”, conta o maquiador Kiko Moreno. Com um currículo de 16 anos produzindo modelos, o maquiador aposta nos tons de roxo para o inverno deste ano. “Eu particularmente não gosto de cores, mas a tendência será de tons de roxo, marrom e preto nos olhos. Para finalizar o look do inverno, nem precisa de batom, um rímel e um blush dão conta do recado”.

Terminada a maquiagem, começa a preparação dos cabelos. “Ficamos aqui a tarde toda na maior adrenalina para que tudo corra bem. Para cada modelo, trabalhamos 40 minutos preparando os cabelos. Enquanto eu prendo, outro enrola”, explica Evandro Ângelo que, mesmo durante a entrevista, não descansa. Para ele, tanta dedicação vale a pena. “São dez anos trabalhando apenas com moda. E um evento como esse lhe dá repercussão”, diz Evandro, que aposta no comprimento longo para o inverno deste ano. “Nossa inspiração para compor o visual para o desfile foi tirado das ruas. São cabelos soltos, longos, levemente cacheados, num look limpo e despojado”, garante.

Enquanto os modelos se revezam nas mãos dos profissionais, outros aproveitam o momento de descanso para trocar experiências, descansar e tentar relaxar. Pela primeira vez participando do SPFW, o modelo gaúcho Daniel Bernati, 19 anos, se diz muito tranqüilo. “Não estou ansioso, é tanta correria que não dá tempo de pensar em nada. Estou aqui desde manhã e, com menos de três horas para o desfile, ainda falta finalizar o cabelo e fazer a maquiagem. Enquanto não chega minha vez, aproveito para dar umas voltas pelos corredores”, afirma.

Já a modelo Alessandra Albrecht, 14 anos, enfrenta com nervosismo a primeira vez nas passarelas do SPFW. “Faz umas três horas que estou aqui me preparando. A expectativa é muito grande. Até agora não consegui nem comer. O jeito é rezar para ver se me acalmo”, diz Albrecht, que não abandonou os estudos em função da carreira. “Não dá para ter garantias trabalhando como modelo, por isso, mesmo morando longe de casa em uma república com mais seis garotas, continuo estudando”, afirma.

Mas nem todas as modelos conseguem arrumar tempo para o trabalho e para os estudos. Ana Letícia, com apenas 15 anos, teve que deixar de cursar o primeiro ano do ensino médio para se dedicar à profissão. “Perdemos bons momentos de nossas vidas por causa do trabalho, mas, para mim, vale a pena, porque desfilar é o que eu mais gosto de fazer”. Lara Grander, 19 anos, tem visão um pouco diferente. “Tranquei o curso de medicina por conta da carreira, mas pretendo retomar, porque a vida vai muito além das passarelas”, afirma.

Hora do show

Com apenas 31 anos, este é o sexto ano em que Gobbi exibe sua coleção no São Paulo Fashion Week. Inspirado em filmes de vampiros e piratas, como “Fome de Viver”, “The Lost Boys” e “Piratas do Caribe”, o estilista trabalhou três meses em sua coleção e, abandonando o tradicional jeans que marca seu estilo, trouxe para a passarela vestidos curtos e longos, com caldas que trazem o ar dos vampiros.

Para o seu show, foram chamados 35 modelos, entre homens e mulheres, que desfilaram 35 looks em um local quase sem infra-estrutura se comparado aos desfiles dos renomados Alexandre Herchcovitch e Lino Villaventura. Imprensa e convidados disputavam as caixas de papelão dispostas em oito fileiras para se acomodarem. Com uma coleção ainda voltada para o conceitual, Gobbi trouxe vestidos com caudas, babados, decotes e rendas, além de calças, blusas e jaquetas em jeans e algodão, lisos ou estampados em xadrez.

Para o editor de moda da revista “Vogue”, Giovanni Frasson, os novos estilistas precisam abandonar o experimental para crescerem profissionalmente. “Fiquei surpreso com os desfiles de Samuel Cirnansck, Giselle Nasser e Fábia Bercsek, porque eles mostraram que amadureceram, mostrando roupas usáveis. Ou eles fazem isso, ou continuarão a ser sempre novos”, aponta.

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Enquanto isso, nos corredores

Os minutos que antecedem os desfiles, marcados por empurra-empurra e pisões nos pés, evidenciam um costume comum em eventos desse porte. Nas filas, pseudo-celebridades do jornalismo têm preferência para assistir aos shows mesmo sem convites, assim como alguns profissionais da moda, atores e outras personalidades que vêem no evento uma oportunidade de estar na mídia.

Um exemplo desse cenário foi o desfile masculino do estilista Fause Haten, realizado no domingo. Para a imprensa, um espaço pequenino foi reservado para os fotógrafos. No local, grandes grupos de comunicação tinham seu lugar marcado, enquanto outros fotógrafos acotovelavam-se para obter o melhor ângulo, numa competição desleal. Entre as personalidades, Felipe Folgosi e Natália Lage garantiram seu lugar no desfile, que contou com a performance da cantora Maria Rita. Mas, para o jovem ator Ícaro Silva, a entrada foi barrada. “Estou aqui para prestigiar o desfile, mas não querem me deixar entrar”, lamentava o ator de “Malhação”.

Nos intervalos dos desfiles, jornalistas aproveitavam o espaço dedicado à imprensa para descansar ou enviar suas matérias pelos computadores disponíveis. Em uma sala, alguns pufes espalhados pelo chão acomodavam os profissionais que aproveitavam o momento para descansar e acompanhar os desfiles exibidos num telão, ou mesmo para dormir. Afinal, para que muitos brilhem, outros tantos têm que suar.

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Novatas

Passos inseguros e rostos inexpressivos, com raras exceções, confirmaram a tendência mundial de modelos cada vez mais novas nas passarelas. A ex-modelo e atriz Elke Maravilha se mostrou espantada diante de tantos rostos desconhecidos e jovens. “Eu comecei a desfilar com 24 anos. Agora, elas se aposentam com essa idade. Além disso, eu ria nas passarelas, enquanto hoje quase não existe performance”, lamenta.

Para Giovanni Frasson, a quase ausência de tops nesta edição do evento é explicada pela crise financeira por qual passam as grifes. “A crise é latente. Acredito que os estilistas estão guardando a moeda para o verão”, analisa.

O cabeleireiro Marco Antônio de Biaggi, que tem em seu currículo 700 capas de revistas em 20 anos de carreira, sentiu a falta de modelos que causassem impacto. “Com exceção da Carol Trentini, nenhuma outra modelo causou frisson”. Para a consultora de moda, Regina Martelli, as modelos estão sem atitude. “De todas que eu vi, a que tem mais brilho é a Carol Trentini”, cita e aponta a falta de criatividade dos estilistas. “Ao longo dos anos, o que se percebe são variações sobre o mesmo tema. Como em outras edições, as coleções remetem ao século 19 e abusam do preto. Sinto falta do brilho”. A editora de moda Regina Guerreiro é ainda mais ácida. “Vi coisas de altíssimo nível, como Cavalera e Glória Coelho, e outras de baixíssimo nível, como o desfile da Zapping que parecia uma fila de cinema do Interior, onde ninguém sabia o que estava fazendo ali”. Quanto à ausência de tops, Guerreiro é ríspida. “Não vim aqui para ver modelos, vim para ver moda”.