08 de julho de 2026
Pesca & Lazer

Eles gostam dos brutos

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 5 min

Ele pode ultrapassar 100 quilos. É grande, forte, vive nas Bacias do Prata e Amazônica e povoa o imaginário de muitos pescadores. Personagem de causos de pesca, o jaú é um dos maiores peixes de couro do Brasil, perdendo apenas para a piraíba, e encanta o pescador pelo desafio de sua captura. Mesmo os piloteiros, aqueles que conhecem cada palmo do rio, e os pescadores mais experientes assistem a raros episódios de grandes exemplares.

Escondidos em poços profundos, esses bagres gigantes entusiasmam aqueles que investem em sua pescaria. Capturar realmente um bruto pode demorar a vida inteira, mas quando ele aparece, mostra os reais motivos de tanto encantamento: o peixe é um grande guerreiro.

Adalberto Dias Santiago, 58 anos, mais conhecido como o Dadá da Luso, pesca pelo menos cinco vezes ao ano. Porto Murtinho, Porto Esperança, Ayolas, Xingu, Araguaia e Piqueri são regiões onde já praticou vários tipos de pesca. O alto mar também não intimida Dadá, que sai de uma pescaria só para entrar em outra.

Em suas andanças pelos rios brasileiros, ele já capturou de tudo: pacus, dourados, piaparas, curimbatás, pintados, cachorras, tucunarés e é, claro, o jaú. Porém, sempre em tamanhos pouco significativos, alguns acima da medida (tamanho mínimo 95 cm, de acordo com site do Ibama), mas a maioria abaixo do permitido, que foram devolvidos ao rio. Em todas as suas pescarias, Dadá se enveredava à pesca do jaú. Talvez, por sua persistência e a soltura dos exemplares menores, tenha sido agraciado com um gigante, em 2005, que pesou 82 quilos e mediu 1,85 m.

Aposentado pela Cesp, Dadá sempre diz: “Tenho seis barragens na costela, o que sempre me permitiu o maior contato com a água”. E foi com essa paixão pelo contato com a natureza que ele viveu uma das maiores emoções de suas pescarias. “Você pode encontrar o jaú em qualquer lugar, mas os maiores ficam em poços. Normalmente, uso tuvira, com anzóis 8/0, 10/0 e uma linha pesada”, recorda.

No ano passado, ele esteve com um grupo de pescadores em Porto Murtinho (MS), quando foi surpreendido pelo bitelo. “Eu jogo o barco no igarapé, não gosto de soltar a poita, porque aí o barco fica livre, e deixo a isca na espera. Com outro molinete, fico pescando pintados, jurupocas e pacus. Sempre uso duas varas”, sugere.

Ele explica a necessidade de certa técnica para fisgar o jaú. “Você deixa ele ficar mamando, normalmente na segunda ou terceira puxada é que fisga. Às vezes ele leva de vez”, recorda. Esta última pescaria foi surpreendente para o pescador. “Além do jaú que peguei, de 82 quilos, meu piloteiro pegou outro de 60 quilos, batemos todos os recordes da pescaria”, diz Dadá.

O pescador, orgulhoso, conta que seu maior peixe havia sido um pintado de 35 quilos. Em Bauru, ele chamou um chefe de cozinha que preparou o peixão para uma turma. “Estávamos em 90 pessoas, foi uma verdadeira festa, afinal, o peixe deu um trabalhão, brigamos por quase duas horas”, recorda.

Na rodada

Outros pescadores preferem a pescaria de jaú na rodada. O pescador Joaquim Fernandes Pereira esteve no rio Paraguai, em Porto Esperança, e capturou o maior jaú de sua vida, um exemplar de 1,42m e 70 quilos. “Eu usei um pedaço de ximburé como isca, e estava com uma tralha para pacu, o que deixou mais difícil a captura”, recorda o pescador.

Pereira deixava o barco descer sozinho e teve a oportunidade de pegar dois jaús grandes “O outro era maior ainda, mas quando estava chegando perto do barco, conseguiu arrebentar a linha. Demorei uma hora e meia para tirar o peixe. É muito pesado e a minha tralha é um molinete pequeno, não podia forçar que quebrava tudo. A linha 0,70. Os piloteiros não acreditavam, achavam que era um jacaré, pois o último peixe que tinham visto daquele tamanho fazia uns 10 anos”, recorda.

Na rodada, o administrador de empresas José Eduardo Macacari, 38 anos, pegou seu primeiro jaú na temporada de 2005, no rio Paraguai. O peixe de 32 quilos foi o maior do grupo. “Eu usei um peixe chamado acari, um tipo cascudo com a carne bem vermelha. O pessoal diz que é bom para comer e o jaú adora. E deu certo. Bati o recorde da turma, que estava na mão do João Pascano”, diz o pescador.

Ele conta que ainda virou motivo para os amigos fazerem graça. “Um amigo médico, o Arnaldo Grizzo, tava no barco ao lado assistindo a briga, que durou quase uma hora. Ele disse que quase foi me socorrer, porque eu estava muito branco”, brinca Macacari.

Ironicamente, o pescador que pegou seu primeiro jaú vive na região, em Jaú, e depois reuniu os amigos para comer o peixe. “A gente achava que era muito gorduroso, mas ficou ótimo. Um amigo fez e comemos em umas 30 pessoas. Ele tirou bem a gordura”, conta. Macacari diz que, primeiramente, teve a intenção de liberar o peixe, mas foi dissuadido pelo piloteiro. “Ele disse que não iria pegar o peixe e soltar porque era perigoso.” Mas a maior alegria da pescaria aconteceu momentos antes: “A gente foi bater tarrafa para pegar peixinhos e usar de isca em um lugar superbonito, e eu disse que era o local ideal para uma onça morar. De repente, olhei, havia uma onça. A gente correndo perigo, no chão seco, pertinho dela. A primeira reação foi tentar pegar uma faca, nem pensei em máquina fotográfica. Só pensei onde vou me esconder. Mas o piloteiro foi rápido, gritou e ela fugiu.”