09 de julho de 2026
Polícia

DP investigará autoria desconhecida

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 6 min

A Delegacia de Investigações Gerais (DIG) deixará de investigar todos os crimes de autoria desconhecida de Bauru para focarem crimes de maior gravidade registrados na cidade e nos outros 18 municípios que compõem a base da Delegacia Seccional. A informação foi reiterada ontem pelo diretor do Departamento de Polícia Judiciária-4 (Deinter-4), Roberto de Mello Annibal.

A atuação pontual da DIG está entre as mudanças implementadas por Annibal, que culminaram anteontem com a destituição do então delegado seccional, Antônio Ângelo Ciocca. Em seu lugar, assumirá amanhã o delegado Doniseti José Pinezi, coordenador das Unidades de Inteligência do Deinter-4.

Homem de confiança de Annibal, Pinezi tinha assumido o Grupo Especial Anti-Seqüestro, serviço antes delegado à DIG, mas que voltou a ser subordinado diretamente ao departamento. Com menos atribuições e mais fôlego para trabalhar, a delegacia especializada continuará na mira do diretor do Deinter-4. Seu desempenho será analisado e poderá ser otimizado com novas mudanças, caso o novo delegado seccional pondere como necessárias.

As novidades são resultantes de um racha na Polícia Civil, exposto pelo JC. As divergências, no entanto, não intimidaram Annibal, designado ao comando do Deinter-4 em setembro de 2004 para fazer “a água turvar na região”. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ontem.

Jornal da Cidade - O que esperar agora da Polícia Civil em Bauru?

Roberto de Mello Annibal - Quero que a polícia siga em frente seu caminho. Investigue. O produto da polícia é o inquérito policial e todo levantamento de crime de autoria desconhecida. Deságua no inquérito policial, que apura a verdade dos fatos, vai para a Justiça e é examinado. A pessoa é condenada ou absolvida. Se praticou o crime, vai para trás das grades. Isso ajuda a combater a criminalidade. Se a polícia não investigar, todos ficam impunes e a criminalidade aumenta.

JC - Mas quais são os objetivos?

Annibal - São dois. Aumentar o levantamento de crimes de autoria desconhecida e a qualidade do inquérito policial, para que, efetivamente, o promotor de Justiça tenha condições de oferecer denúncia.

JC – O novo seccional já trabalhou com o senhor?

Annibal - Ele já trabalhou comigo em Botucatu e fez um brilhante trabalho à frente da delegacia de entorpecentes. É um bom administrador, uma pessoa sagaz, inteligente, com cultura jurídica. Tem uma farta sapiência na questão de inteligência da polícia. Lá em Botucatu, quando ele trabalhava na Dise, prendeu diversas quadrilhas de tráfico de entorpecente, tudo na base da inteligência policial.

JC - Quem vai coordenar a unidade de inteligência do Deinter-4?

Annibal - Eu não tenho um nome ainda. Estou estudando. Vim para cá há quatro meses, não conheço pessoalmente todo mundo.

JC - Qual é o calcanhar de Aquiles da Polícia Civil em Bauru?

Annibal - É o levantamento de crimes de autoria desconhecida. Seja ele um simples furto de botijão de gás, como um furto de grande repercussão. O que há necessidade é de uma investigação efetiva.

JC - Mas tem recurso?

Annibal - É claro que cada Deinter tem seu recurso. Recurso material tem, muito. Recurso humano não temos muito. Temos bastante delegado, o que não tem muito é investigador. Mas vai ser feito um estudo neste sentido. É simples. É uma questão de matemática. Se você somar o número de boletins de ocorrência de cada distrito e dividir por quatro, você tem uma média. Você vai somar o número de investigadores existentes e fazer uma divisão eqüitativa e aritmética.

JC - Neste caso, os delegados serão divididos por distritos.

Annibal - Se, por exemplo, o 1.º Distrito Policial (DP) tem por mês mil casos de autoria desconhecida e o 2.º DP tem 500, logo o 1º DP tem que ter o dobro de investigadores. Quem vai fazer esse balanço é o Pinezi, porque ele é o seccional. A gente cobra do seccional. A gente planeja e o seccional executa.

JC - Virão novos investigadores para cá?

Annibal - Isso aí está uma confusão. Quando o concurso foi realizado, o Deinter-8, que hoje existe, pertencia ao Deinter-4. São 36 investigadores. Evidentemente, a região de Presidente Prudente (Deinter-8) é muito mais carente que a região de Bauru em termos de investigador. Estão lutando (para pegar mais investigadores). Quem vai decidir é o delegado-geral.

JC – Mas tem um mínimo de investigadores?

Annibal - No mínimo 18. Mas eu tenho 145 unidades. É um pingo no oceano. A gente vai ter que fazer um remanejamento total porque é a mesma carência de investigadores em Bauru, em Assis, Ourinhos, Tupã, Lins.

JC - Investigação de crimes de autoria desconhecida não é uma atribuição específica da DIG?

Annibal - Não. Ela foi criada para agir na área da Seccional de Polícia, não na área da sede da Seccional. A DIG está aqui para levantar os crimes de relevância de Bauru e das 18 cidades que compõem a Seccional. Houve um excesso de atribuições na DIG e o distrito virou um órgão que fazia meramente boletim de ocorrência e inquérito policial. Só que cada distrito tem que investigar o crime da área dele.

JC - A DIG será concorrente dos DPs?

Annibal - A DIG é uma concorrente. Quando o DP se aperta lá, não consegue levantar o crime em determinado prazo, que vai ser estipulado por portaria do seccional, então passa para a DIG levantar. Claro, se houver um homicídio na área do 3.º DP, chama-se a DIG. Não é para levantar furtinho de carteira. Isso o distrito tem que fazer. Ela vai para os grande assaltos.

JC - Mas tem o entrave da falta de funcionários.

Annibal - Por isso vai ser feita análise a respeito e redistribuição de investigadores. Eu vou fazer uma coisa séria. Aqui a gente não está brincando de polícia.

JC – O senhor já está avaliando o trabalho da DIG?

Annibal - Como eu posso avaliar o trabalho da DIG se ela tem atribuição que não é dela. Eu não tenho nem como avaliar, se está bem ou mal. Só depois de 30 dias, 60 dias vou fazer uma avaliação para ver o que está acontecendo. Vão ser chamados todos os delegados para uma reunião. Pinezi vai fazer isso.

JC - É ele quem vai avaliar eventuais mudanças nas delegacias?

Annibal - A proposta é do seccional. Na polícia ninguém é dono de nenhuma unidade policial. Não sou dono do Deinter. Somos todos delegados de polícia. Estou diretor, assim como Ciocca estava seccional, assim como Pinezi vai estar seccional a partir de sexta-feira. A polícia pertence ao Estado e à sociedade.

JC - O senhor vai cobrar o seccional?

Annibal - Vou cobrar do seccional. Ele que monte o que ele quiser. Eu fui colocado aqui e foi me dito o seguinte: Roberto, lá está muito parado. Está cheio de folha no fundo do lago. Chaoalha e faz a água turvar. Vamos atacar os pontos porque tem muita reclamação de prefeito. Mas não existiu racha. Pelo contrário, Ciocca vai trabalhar comigo, vai ser meu assistente.

JC - Ele vai coordenar as cadeias?

Annibal - Sim. É um negócio muito importante porque o departamento tem de estar atento a tudo, porque São Paulo cobra. Vai cuidar da transferência de preso para aliviar presídio.