08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Dos carroceiros com Kombi


| Tempo de leitura: 3 min

Inicialmente temos que agradecer as críticas e sugestões do leitor Ricardo Wagner Ferreira de Souza, sobre a temática carroceiros, e dizer que este é o verdadeiro foro democrático das discussões dos problemas que nos afligem como comunidade, daí a importância também da participação de cada cidadão, a importância do suscitar a discussão e com ela propiciar o inevitável surgimento de novas idéias e soluções possíveis.

Os carroceiros encontram-se na zona de exclusão, relegados pelo nosso sistema econômico-social à situação de subemprego e miséria.

Ao incauto pode parecer à primeira vista que a manutenção de um cavalo seja mais barata que a manutenção de um veículo automotor. Na verdade, um animal de tal porte necessita de uma alimentação balanceada, composta de cereais, aveia, ração específica, sal mineral, suplementos diversos e, por incrível que pareça, até mesmo o capim, além de vacinas, remédios, vermífugos, assistência veterinária, correta ferragem dos cascos, substituição de arreios, necessita de um pasto para viver, local coberto para se recolher das intempéries etc e etc e etc.

Ora! Mas tudo isso é muito caro, então o que faz o carroceiro que ganha R$ 5,00 (cincão) por viagem e vive no chamado “círculo vicioso da pobreza”.

Exaure o animal. Isso mesmo, o pobre animal vai aos poucos definhando, pela subnutrição, e com ela as doenças oportunistas vão se agregando em conjunto com o excesso de trabalho, o excesso de carga, constantes chibatadas, na sua pele estão as marcas da brutalidade e atrocidades, pobre animal se torna apático, sempre de cabeça baixa, mancando, cascos perfurados por pregos enferrujados, magro a ponto de aparecerem as costelas, olhar de profunda tristeza, até ocorrer a sua morte de forma precoce, que agoniza não raras vezes, por dias a fio, jogado como matéria descartável em algum monturo de lixo, isto quando não é vendido pelo seu dono para ser abatido cruelmente à base de marretadas por frigoríficos clandestinos. Essa lamentavelmente é a regra. Claro que existem exceções, mas são muito raras.

Temos que cadastrar os carroceiros, os que forem cadastrados poderão continuar a trabalhar regularmente, e encerrado o período de cadastramento nenhum mais poderá pleitear tal atividade. Em seguida, dar a eles a oportunidade de alfabetizarem-se e assim poderem tirar a CNH – Carteira Nacional de Habilitação (quem consegue dirigir uma carroça no caótico trânsito do centro da cidade, tem igualmente toda capacidade de vir a dirigir um veículo auto-motor, empiricamente já conhecem as sinalizações de trânsito) e numa terceira etapa através de um consórcio entre eles, possibilitar a compra de veículos usados tipo Kombi para gradualmente irem substituindo as carroças, até a sua completa extinção.

Definitivamente, carroças não combinam com o século XXI, são incompatíveis com o trânsito de veículos automotores, afrontam a integridade dos animais que são tutelados do estado, e não dão condições mínimas de dignidade e sustento para o carroceiro e sua família.

Em síntese, apenas evidenciam o nosso fracasso social, como bem disseram as doutoras Sonia Joaquim e Vânia Daró em matéria de 15.12.05, neste jornal.

Portanto, está aberto o nosso foro de discussões.

Fátima Luísa de Maria Schroeder - bióloga e presidente da ONG Naturae Vitae