09 de julho de 2026
Articulistas

Venezuelizar até onde?


| Tempo de leitura: 2 min

Lula ganhar uma eleição nunca meteu tanto medo nas elites quanto agora. Apesar de que o presidente e os dirigentes de seu partido optaram por aquiescer diante de exigências inegociáveis do neoliberalismo transnacional a fim de chegarem ao poder, ainda assim a aristocracia os teme muito mais hoje do que quando defendiam teses que lhe eram inaceitáveis, como por exemplo a de ser preciso dar calote nas dívidas interna e externa.

As elites brasileiras jamais mobilizaram tantos recursos econômicos para desmoralizar um governo. Ninguém até agora fez as contas do que tem sido gasto de dinheiro na campanha publicitária da mídia contra o PT e seu expoente máximo. São milhões incontáveis de dólares que não estão sendo gastos só por antipatia. O governo pós-esquerdista do PT insere-se num movimento gigantesco da América Latina para a esquerda, para o esquerdismo possível num planeta moldado pelo Consenso de Washington, e por isso é vital para as elites que tal governo não se reeleja e ajude a consolidar esse movimento.

As elites e a imprensa não querem impedir a reeleição de Lula tanto pelo governo que ele faz, pois, além da diplomacia mais soberana desse governo e da ampliação que tem promovido de mercados estrangeiros para as exportações brasileiras, tem respaldado governos latino-americanos “inaceitáveis” para o Tio Sam, como o de Hugo Chávez, na Venezuela.

O projeto de integração latino-americano das esquerdas apavora as elites latino-americanas. A maioria dos países da América Latina ameaça a hegemonia americana, o que jamais fora possível antes devido a que a elite de direita submissa e/ou conivente com Washington não tinha por que preocupar os ianques, já que eles sempre a ajudaram a se manter no poder financiando-a e promovendo campanhas difamatórias contra seus adversários da esquerda.

Não sei se as pesquisas que vêm mostrando reação eleitoral de Lula são mais verdadeiras do que as que vinham mostrando sua perda de popularidade. Acho que ambas foram manipuladas e exageraram perda de cacife eleitoral do petista ontem e mostram uma reação dele que pode inclusive não ter havido, porque pode nunca ter ocorrido queda de sua avaliação tão expressiva quando foi divulgada por uma imprensa que nos últimos anos se partidarizou até o âmago - de novo.

Se eu estiver certo - e em nove meses saberemos se estou -, será de espantar a constatação de que nossas elites adotaram um modus operandi idêntico ao de suas congêneres venezuelanas apesar de tal estratégia ter se mostrado tão ineficaz em passado tão recente. Descobriremos, então, que a direita não é só antidemocrática, violenta, racista e preconceituosa; descobriremos que também é muito burra.

O autor, Eduardo Guimarães, é articulista colaborador de Opinião