Pelos berros da criança, a impressão era que ela estava sendo surrada. Intacta, presenciava a agressão física praticada contra a avó, com quem passa parte do dia. Sutil, a violência psicológica vivenciada pela menina chocou uma testemunha, que levou o caso ao Centro de Registro e Atenção aos Maus Tratos à Infância (Crami). A denúncia engrossou o número de atendimentos do órgão, pára-raios de problemas cada vez mais graves, inclusive de abuso sexual, que aumentou de 14 casos em 2004 para 24 em 2005. Os números do Conselho Tutelar são ainda mais alarmanetes: 32 registros de abuso sexual em 2005, quase três vezes mais que no ano anterior.
E vai entrar para as estatísticas deste ano o caso de uma menina de 3 anos que teve sangramento vaginal. Os casos de abandono registrados pelo Conselho Tutelar saltaram de 1 para 20 entre os dois anos, os de negligência cresceram 97,14% e os de violência física subiram 58,7%. Já os de abuso sexual aumentaram 260%, sendo que as notificações da mesma natureza registradas pelo Crami também subiram 71%,
“As pessoas estão perdendo o medo de notificar. Estão mais abertas. As crianças e adolescentes também estão mais instruídas e a mídia está sempre em cima”, explica a presidente do Conselho Tutelar, Cássia Tosim Paley. A opinião dela é respaldada por iniciativas como a da testemunha ouvida pela reportagem e que terá a identidade preservada. Ela levou o caso de agressão psicológica ao Crami.
No entanto, a denunciante acredita que as notificações poderiam ser ainda maiores, caso a população fosse mais informada. “Tem muita gente que não sabe qual órgão procurar. Mas se não interferir, o problema fica maior. Começa com um tapa na cara, depois um murro na boca, um chute e depois só falta matar”, alerta.
A escalada da violência é cotidianamente observada pela assistente social do Crami, Eclea Correa Lacerda Silva. Na opinião dela, as crianças estão sendo agredidas de maneira imoderada. “O que nos preocupa não é só o número (de ocorrências), mas principalmente a gravidade (dos casos). Existe um despreparo das funções paternais e maternais”, explica.
Chocante, ela aponta o caso de uma mãe que, irritada com o choro constante e a agitação do filho de 5 anos, o fez segurar na boca ovo cozido. A repreensão “maternal” provocou queimaduras na boca da criança, que quase a impediram de falar e se alimentar.
“Registramos boletim de ocorrência e encaminhamos ao Conselho Tutelar. Existem uma série de fatores que podem desencadear a violência. A sociedade é violenta e as pessoas estão perdendo o limite”, reitera Eclea. Ela já atendeu outros casos em que a criança é queimada com ferro quente, cigarro ou apanha com cabo de vassoura, por exemplo.