São Paulo - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez críticas aos governos anteriores, ao participar ontem de assinatura de convênio para financiar assentamentos rurais. Segundo o presidente, a lógica da reforma agrária no passado era transferir os trabalhadores rurais sem-terra para “o meio do mato”, sem fornecer assistência técnica.
“Houve um tempo no Brasil que prevalecia, para a lógica da reforma agrária, tirar os trabalhadores que estavam brigando na cidade e afastá-los para bem longe, para que eles não ficassem fazendo passeata, nem greve e nem protesto. Vamos isolá-lo no meio do mato”, disse o presidente.
Ele esteve em Castilho (a 656 quilômetros de São Paulo), onde participou da cerimônia de uma criação de linha de crédito para 12 mil famílias assentadas no Estado, com verbas de R$ 250 milhões. O financiamento deve permitir a construção de 14 mil casas, por cálculos da Caixa Econômica Federal, responsável pela linha.
Segundo Lula, a meta do governo é fornecer assistência técnica para todas os assentamentos do país. Ainda de acordo com o presidente, o número de grupos que já recebem esse tipo de assistência subiu de 80 para 475 mil pequenos agricultores desde o início de seu governo - o equivalente a mais de 80% dos assentamentos, segundo dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Ainda de acordo com o Incra, há 6.440 assentamentos no País.
Nesta semana, o problema da reforma agrária foi tema de polêmica entre o governo e o o movimento dos sem-terra (MST). O Ministério do Desenvolvimento Agrário divulgou que foram assentadas 127 mil famílias em 2005, mas não informou quantas dessas famílias ainda moravam em barracos de lona (sem infra-estrutura). O MST criticou o balanço apresentado pelo governo porque incluiu estatísticas oficiais de dados de “reordenamento de assentamentos em terras públicas”.
O presidente admitiu em seu discurso que muitas das famílias assentadas ainda estavam acampadas mas disse que há “entraves judiciais” e lentidão na aplicação dos recursos que explicam o atraso na criação dos assentamentos mais estruturados. “A única coisa que eu tenho certeza absoluta é que nós vamos terminar o governo, sendo o governo que mais levou a sério a questão da reforma agrária na história do nosso país”, disse Lula.
Palocci
Durante a visita aos dois assentamentos rurais no município de Castilho, o presidente elogiou o desempenho do ministro Antônio Palocci (Fazenda) em seu depoimento na CPI dos Bingos. “Eu acho que vocês não tem dúvida de que o Palocci é aquilo que foi anteontem. O Palocci é um monumento de sinceridade, é um monumento de inteligência. Eu acho que, quem assistiu, saiu convencido de que o espetáculo que a CPI queria dar não aconteceu, porque o Palocci foi muito sincero, muito honesto e muito digno”, declarou o presidente.
Na sua fala de seis horas, anteontem, Palocci disse que adversários políticos requentam acusações sempre que se aproximam eleições e minimizou as investigações do Ministério Público e o relatório parcial da CPI, que acusam de irregularidades pessoas com quem o ministro manteve ou mantém ligações de amizade e de trabalho. Lula também tratou do fim da verticalização na entrevista que concedeu após seu discurso, dizendo que “nunca viu vantagem” na medida.
Instituída em 2002, ela obrigava os partidos a repetir nos Estados as alianças feitas em âmbito nacional. Anteontem a Câmara dos Deputados aprovou em primeiro turno a sua extinção, por meio de uma emenda à Constituição. “Eu digo sempre o seguinte: aliança política não é bigamia. Ou seja, se as pessoas quiserem apoiar, apóiam, não precisa ter um contrato que tenha de ser seja de cima, pacto federal ou municipal, não. Vamos deixar as pessoas livres para escolher.”
Na opinião do presidente, “é muito melhor uma decisão política (entre partidos) e as pessoas cumprirem do que um protocolo e as pessoas não cumprirem.”
Cassação e reeleição
O presidente Lula não comentou a decisão do Conselho de Ética da Câmara dos Deputados que anteontem aprovou o pedido de cassação do mandato do deputado federal petista Professor Luizinho, acusado de ter se beneficiado de R$ 20 mil do esquema de Marcos Valério.
“É difícil dar opinião porque que não sei qual foi o debate de ontem. Depois de conversar com os deputados que participaram e me disserem sobre o debate, eu até posso dar um opinião. Eu lamento, porque o Luizinho é uma figura tão digna, tão decente. Se julgaram que ele cometeu um erro, ele vai ser julgado pela Câmara.”
A respeito da reunião anteontem entre os líderes tucanos Tasso Jereissati (presidente do PSDB e senador pelo Ceará), Aécio Neves (governador de Minas Gerais) e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, Lula disse não estar preocupado com as articulações do partido para a escolha do seu candidato à Presidência. “Seria difícil eles não se reunirem, são do mesmo partido. Seria anormal se não tivessem se reunido. Eu acho que têm de se reunir, que a oposição pode e deve ajudar a contribuir com o Brasil.”
Lula insistiu em que ainda não é candidato à reeleição. “Eu vou repetir apenas o que tenho dito: eu tenho que governar até o dia 31 de dezembro. Se eu tiver que ser candidato ou não, a decisão só precisa ser tomada depois da convenção oficial do partido. Portanto, até lá, eu vou viajar o Brasil. O que não pode é alguém tentar impedir que eu viaje para eu fazer as coisas.”
O presidente disse que se sente satisfeito com o governo que fez até aqui, mas fez uma ressalva. “Obviamente que se agente for olhar sempre para as nossas perspectivas, você pode trabalhar dez anos que vai precisar trabalhar mais dez, mais dez, mais dez e não completar tudo o que precisa fazer.”