08 de julho de 2026
Articulistas

JK e a ferrovia


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A Rede Globo, uma espécie de Hollywood da televisão brasileira, adoça nossas noites com a minissérie JK misturando verdade e ficção, como o coronel Licurgo, se bem que de inspiração real. Não tem o primor do cinema, trata-se de uma mini-novela, mas merece aplausos pela qualidade das interpretações e pelo tema histórico abordado. Por mais competente que seja, o político precisa estar na hora certa no lugar certo, caso contrário não há carreira que resista. Juscelino Kubitschek até 1964 foi campeão nesse quesito. Sua vida pública, construída grande parte de forma democrática, se inicia na ditadura de Vargas como homem de confiança de Benedito Valadares, interventor de Minas Gerais. Deputado federal sem brilho, se consagra como prefeito nomeado de Belo Horizonte. Esse início de vida pública não impediu JK de agir como democrata ao longo de sua carreira. A identificação de Getúlio com Valadares, fora o longínquo parentesco, era produto da rejeição de ambos pela tradicional família mineira, aspecto esse que fermenta a simpatia e a confiança de Valadares por Juscelino.

O JK legislador não existe. Deu lugar ao JK administrador de obras arrojadas como o parque da Pampulha, em Belo Horizonte, e a que repercutiu mundo afora e estimulou a ocupação do centro-oeste brasileiro, Brasília. As primeiras grandes hidrelétricas, assim como a siderurgia e a indústria naval, têm sua marca. Com incentivos fiscais, financeiros e alfandegários, abriu o Brasil às multinacionais dos automóveis que exigiram de Juscelino uma política de construção de rodovias. Foi um liberal cuja “ideologia” era desenvolvimento. Juscelino, cercado de auxiliares de renome, inovou na administração pública com a criação de um Plano de Metas, uma revolução à época. Mas, muitas coisas não tiveram o sucesso esperado. É o caso da Rede Ferroviária Federal, criada por JK, em 1957, com o objetivo de agrupar as inúmeras ferrovias existentes e desenvolvê-las. Ficou na vontade, sua contribuição nessa área foi pífia. O estadista JK não deu à ferrovia a mesma importância que ela teve ao transportá-lo de Diamantina para o descortinar de um novo mundo.

Nossa indústria ferroviária apresenta, hoje, algum vigor na sua produção, mas tal acontece à revelia de um plano estratégico. O Brasil continua necessitando de uma matriz de transporte que leve em conta a importância socioeconômica da ferrovia qual os países desenvolvidos. Já tivemos 36.000km de ferrovias e hoje a malha possui menos de 16.000km. A velocidade de nossos trens já foi de 45km/h, em média, hoje não passa dos 30km/h. Das dezenas de trens de passageiros (chegaram a transitar a 100km/h) hoje restam apenas 2 (dois) com velocidade quelônica. Entre São Paulo e Rio a ferrovia está na era do Barão de Mauá. Uma vergonha frente aos trens-bala existentes no mundo. JK, que sempre esteve nos lugares certos nas horas certas, no fim da vida, por ironia, estava em uma rodovia, a Dutra, na hora e no lugar errados. Não teve tempo para o mea culpa. (O autor, Tidei de Lima, é engenheiro civil e foi deputado federal, prefeito de Bauru e secretário da Agricultura do Estado de São Paulo)