08 de julho de 2026
Cultura

Caixa Encantada

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

A magia dos contos de fada sai de uma caixa e retorna ao universo infantil, por meio do projeto “Teatro dentro de uma caixa”, da atriz Elizabete Beneti, em parceria com o diretor teatral Carlos Batista e as empresárias Regina de Oliveira e Terezinha Rodrigues. A proposta da atriz é levar o teatro como brincadeira às crianças, para diverti-las de forma lúdica, estimulando e extravasando sua criatividade a fim de transformá-las em adultos equilibrados e originais.

A idéia surgiu diante de uma inquietação de Beneti que, depois de 27 anos dedicados ao teatro, principalmente o infantil, notou que as crianças estavam cada vez mais violentas e reféns das novas tecnologias. “Elas têm perdido o vínculo do ser humano com o ser humano, vivendo num mundo artificial. É necessário que os mais novos vivenciem emoções reais e eu vi no teatro uma forma das crianças se relacionarem com outras, revivendo e criando histórias para se preparem para vida adulta”, coloca Beneti.

Com esse objetivo em mente, a atriz procurou fundamentação pedagógica com profissionais da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e montou o projeto, que consiste em uma caixa repleta de adereços dos personagens, confeccionados pela própria atriz, livreto com o roteiro da peça para as crianças encenarem e um manual com as regras do jogo. Mas Beneti ressalta que cada jogador é livre para montar seu próprio espetáculo. “As crianças podem usar os adereços para fazer seu próprio teatro. Elas também não precisam ficar presas às histórias do livro, estão livres para criar o que quiserem”. A atriz já elaborou três caixas, uma com a história da Chapeuzinho Vermelho, outra sobre a Branca de Neve, e a última sobre os Três Porquinhos. Agora Beneti trabalha em cima do conto da Bela Adormecida.

A atriz já fechou parcerias com a Escola Estadual Guedes de Azevedo e com o Colégio São José. A Secretaria Municipal de Educação também mostrou interesse pelo projeto, mas pretende trabalhar primeiramente com os professores para que eles saibam manusear o material para depois adquirir a caixa.

A experiência de trabalhar o teatro com as crianças surpreendeu a atriz. “A reação dos pequenos é fantástica. Quando as crianças vestem a fantasia, elas realmente incorporam os personagens e se transformam”, coloca.

Beneti garante que não é preciso ser nenhum profissional para conseguir levar as crianças ao universo lúdico. “Todos nós temos potencial, só é preciso descobri-lo”. Nesse sentido, a atriz oferece gratuitamente uma oficina de desinibição para professores. A professora de pedagogia da Unesp, Maria do Carmo Kobayash, também acompanha a atriz ministrando uma oficina sobre literatura infantil, focada para contos de fadas. Mais informações sobre o projeto podem ser obtidas pelo telefone (14) 3238-1299.

A descoberta do teatro

Contos de fadas que marcaram a infância de muitas gerações hoje são desconhecidos por muitas crianças, que passam a maior parte do seu tempo sozinhas em frente de seus computadores. Este é o caso de Gabriel de Melo Caversan, 7 anos, que pela primeira vez encarnou um personagem, vivendo o Caçador do Lobo Mau, por meio do projeto “Teatro dentro de uma caixa” que Elizabete Beneti levou à Escola Guedes de Azevedo. “Eu não sei o que vai acontecer com o Caçador, porque eu não conheço a história do Lobo Mau. Eu sou viciado em computador. Fico uma da tarde até 10 da noite. Não gosto muito de brincar com outros colegas, mas estou achando legal ser um caçador”, aponta.

Seu primo, Pedro Henrique Caversan, 10 anos, também gostou da idéia de se transformar em Lobo. “É chato ser bonzinho, além do mais, o Lobo pode correr muito mais rápido do que eu”, afirma o garoto, cujo hobby preferido são os jogos eletrônicos. “Ah, fico umas quatro horas por dia no meu computador”, conta.

Poder ser uma bruxa deixou Nara Gonçalvez Albierro, 8 anos, empolgada. “Eu vou envenenar a princesa, mas estou preocupada com o final, porque os maus sempre morrem no fim”, brinca. Mas o que mais encantou Nara foi a possibilidade de viver outra pessoa. “É bom poder se transformar. É a primeira vez que faço isso. Estou adorando, porque quase nunca brinco com outras pessoas. Geralmente fico sozinha no computador”, diz.

Reação semelhante teve Marina Bertolaccini, 11 anos, que encarnou a Branca de Neve. “Pela história, ela é salva no final por um príncipe, mas aqui a gente não tem. Vamos ter que mudar o final”, afirma a menina, que ainda não se rendeu aos encantos da tecnologia. “Eu gosto mesmo é de brincar com outras crianças”.