10 de julho de 2026
Nacional

Dado sobre Jean Charles foi forjado, diz jornal

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Londres - O jornal “News of the World” informou, em sua edição de ontem, que a unidade que monitorava o apartamento de Jean Charles de Menezes no dia em que a polícia de Londres assassinou por engano o brasileiro, 22 de julho passado, foi a responsável pelo erro e falsificou dados de seu livro de registro para se livrar da culpa.

A fonte do tablóide dominical, que tem tiragem de 3,7 milhões de exemplares e costuma pagar muito dinheiro em troca de furos jornalísticos, foi um integrante do governo, não identificado, que teve acesso ao relatório da IPCC, a comissão independente que investigou o caso.

Pela versão da polícia, que é contestada pela família de Jean Charles, no dia da morte um grupo de agentes especiais vigiava o conjunto habitacional onde o brasileiro morava, na zona sul de Londres, pois ali também vivia Osman Hussein, suspeito de ter tentado cometer, na véspera, um ataque a bomba numa estação de metrô, que acabou falhando. Segundo a reportagem do “News of the World”, essa unidade passou para o comando do esquadrão armado da Scotland Yard a mensagem de que aquele era o homem que eles buscavam.

Dez horas depois, numa reunião de balanço sobre a missão, a unidade especial de monitoramento, já ciente de que um inocente havia sido assassinado, teria alterado o documento -e, assim, jogado a responsabilidade para o esquadrão armado e os oficiais que lhe deram a ordem para atirar.

A fonte contou ao jornal que as palavras “e” e “não” foram inseridas no informe da identificação de Oman, para que se lesse, “e não era Osman”, em vez de “era Osman”, como no original. A falsificação no documento é “grosseira”, de acordo com a fonte. O relatório da IPCC é o principal instrumento da investigação. Foi finalizado há 11 dias e encaminhado ao Crown Prosecution Service (CPS), equivalente ao Ministério Público britânico, que decidirá se vai denunciar judicialmente os envolvidos.

Logo após a morte de Jean Charles, o canal ITV News revelou dados, também vazados da investigação da IPCC, que desmascararam a versão original da polícia de que o brasileiro pulou as catracas da estação de Stock-well, não obedeceu ordens para parar e vestia um casado de frio, que poderia esconder bombas. Foi também a ITV quem informou que o agente responsável pela identificação do suspeito saiu para ir ao banheiro na hora em que Jean Charles deixou o seu apartamento em direção ao ponto de ônibus - o “News of the World” não cita o episódio.

Hoje, uma missão do governo brasileiro que acompanha o caso e já estivera em Londres em agosto, inicia nova visita à cidade. Pretende, segundo nota emitida pelo Itamaraty, “compreender as razões de a família ainda não ter tido acesso ao relatório produzido pela IPCC”, dar seqüência aos contatos feitos em agosto, se reunir com a família e os advogados, encontrar com o chefe do CPS e se informar sobre os próximos passos do processo.