08 de julho de 2026
Ciências

Inteligência tem origem genética

Roberta Mathias
| Tempo de leitura: 4 min

A frase do iluminista francês Jean Jacques Rousseau “o homem é fruto do meio em que vive” convida a novas reflexões. O homem seria mesmo 100% resultado das influências do ambiente em que vive? Para algumas características referentes à genética da inteligência (ou do comportamento humano), o compositor brasileiro Belchior, em música eternizada na voz de Elis Regina, chega mais próximo: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. A recente publicação “Inteligência: resultado da Genética, do Ambiente ou de Ambos?”, do psicólogo José Aparecido Da Silva, procura responder a esses questionamentos e traz as análises mais recentes no que se refere à genética do comportamento humano.

Em entrevista ao Jornal da Cidade, o autor da publicação, que também é professor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), da Universidade de São Paulo (USP), e atual prefeito do câmpus, diz que “quanto mais a pessoa envelhece, mais a inteligência é influenciada pelo patrimônio genético”, ao contrário do que afirmou-se por muito tempo.

A constatação também é verdadeira para outras características, como personalidade, obesidade, depressão, autismo, esquizofrenia, altura, déficit de atenção e religiosidade. Da Silva explica, porém, que apesar da herdabilidade genética, há uma pequena contribuição do ambiente, que ocorre em situações singulares, como as suas experiências pessoais.

De forma simplificada, a publicação explica que a inteligência é herdável, ou seja, tem sua origem no patrimônio genético, com reduzida influência do ambiente. “A pessoa pode ampliar suas habilidades, mas não pode ampliar sua inteligência”, compara Da Silva. A origem dos estudos baseia-se nos chamados “experimentos naturais”. Pesquisadores fazem a correlação do indicador de inteligência, o Quociente Intelectual (Q.I.), de pessoas aparentadas. “Os estudos genéticos, ao contrário do que a maioria pensa, é a melhor avenida para estudar o ambiente. A partir das análises genéticas quantitativas é possível decompor dois tipos de ambientes, o compartilhado e o não-compartilhado”.

Um exemplo

A partir de um experimento natural, pesquisadores analisam o Quociente Intelectual (Q.I.) de dois gêmeos idênticos (univitelinos), ou seja, eles compartilham 100% do patrimônio genético. Imediatamente após o nascimento, os irmãos são separados dos pais biológicos e vão morar com pais adotivos. Constantemente, é analisada a correlação do QI dos gêmeos idênticos, entre si e também com os pais adotivos, que varia de 0 a 1.

Conforme os gêmeos vão crescendo, a correlação com os pais adotivos vai diminuindo, enquanto que a correlação entre eles mantém-se a mesma, 0,86. Ao efetuar a correlação do QI dos gêmeos com o dos pais biológicos, que eles nunca tiveram contato, esta correlação estará aumentando a medida em que eles crescem.

“Em outras palavras, o QI dos gêmeos idênticos é altamente relacionado com o dos pais biológicos, mas pouco relacionado com os pais adotivos. Conclui-se, então, que se o ambiente fosse importante, a relação com os pais biológicos diminuiria, pois jamais tiveram contato”, acrescenta o pesquisador da USP José Aparecido Da Silva.

Ele explica que se o ambiente fosse importante, a correlação seria por volta de 1, o que não acontece. “Ao contrário, a herdabilidade, na infância é por volta de 30% a 40%, mas quando o indivíduo torna-se adulto é por volta de 80% a 90%”, diz o autor do livro.

Influência do ambiente

De acordo com os recentes estudos em genética do comportamento, esmiuçados na “Inteligência: resultado da Genética, do Ambiente ou de Ambos?”, pelo psicólogo José Aparecido Da Silva, a influência do ambiente, em geral, é relativamente pequena, em torno de 10% a 20%. A partir de estudos quantitativos, constatou-se a existência de dois tipos de ambiente: o compartilhado e o não-compartilhado.

O ambiente compartilhado, explica o pesquisador, é aquele que todos os pais e educadores entendem que “mantendo-se tudo igual para todo mundo, vamos manter todo mundo com os mesmos padrões de comportamento, ou seja, vamos deixar todo mundo com o mesmo nível de inteligência”. Se dois irmãos gêmeos idênticos têm a mesma escola, o mesmo tipo de roupa, os mesmos livros, o mesmo cinema, o mesmo shopping, a mesma TV. “Esse é o ambiente compartilhado, esse ambiente afeta muito pouco a inteligência.”

Já o ambiente compartilhado, que representa as experiências individuais, mesmo os gêmeos idênticos têm amigos diferentes e experiências diferentes, podem influenciar a inteligência. “A genética do comportamento mostra que o ambiente que é igual para todo mundo não é o que nos faz diferentes; o ambiente que pode nos fazer um pouco diferentes é o ambiente não-compartilhado, aquele que é específico para cada pessoa”, enfatiza Da Silva.

Gênios

As características herdáveis, dentro da genética do comportamento, são aquelas apontadas por vários genes e se distribui na população. Outro exemplo é a altura, uns são mais altos outros mais baixos e a maioria é mediana. As características hereditárias são transmitidas de um único gene, que explica 100% do comportamento.

Mas o fato da inteligência ser uma característica herdável não significa que pais com QI elevado certamente terão filhos gênios. O pesquisador da USP José Aparecido Da Silva explica que a loteria genética é a mesma. “Evidente que a probabilidade é maior de ter uma criança com um patrimônio genético privilegiado do ponto de vista da inteligência, mas é uma loteria genética, vão se misturando os genes”, explica Da Silva.