08 de julho de 2026
Articulistas

O flagelo do trânsito


| Tempo de leitura: 3 min

Os acidentes de trânsito respondem por 30% do número de mortes violentas no mundo inteiro. Dados da Organização Mundial da Saúde-OMS apontam que cerca de 1,2 milhão de pessoas morreram de acidentes de trânsito, em 2002. Em 1990, os acidentes foram a terceira causa de mortes violentas no mundo; em 2002, a terceira causa. Ainda, nesse ano, registrou-se o acidente de trânsito como a segunda causa de mortes violentas entre pessoas de 5 a 29 anos, o que mostra que os mais jovens são as maiores vítimas dos acidentes.

A OMS estima, ainda, que os países de rendas baixa e média são responsáveis por 90% do total mundial das mortes no trânsito, enquanto que os países ricos, apenas 10%. As taxas de mortes por grupos de 100 mil habitantes para esses grupos de países são, respectivamente, 20,2 e 12,6. Fica claro que os mais pobres morrem em acidentes de trânsito, proporcionalmente, mais do que os ricos. O continente africano apresenta as piores taxas, aproximadamente, 28 mortes por grupos de 100 mil habitantes, enquanto que o trânsito mais disciplinado dos países ricos da Europa mata “apenas” 11.

O Código de Trânsito Brasileiro completou, dia 22 de janeiro, 8 anos de existência. Nada a comemorar. O Código é, sem dúvida, moderno e avançado. Apesar das controvérsias a seu respeito, não se pode lhe retirar o mérito de ser um importante instrumento de prevenção no combate à tragédia que é o trânsito brasileiro. Ruim com ele, muito pior sem ele. No Brasil, os mais recentes dados disponibilizados pelo Departamento Nacional de Trânsito registraram, em 2002, 252 mil acidentes com vítimas, 320 mil feridos e 19 mil mortos. São mais de 52 brasileiros por dia ou a lamentável marca de uma morte a cada 28 minutos.

Pesquisas realizadas pela Rede Sarah de Hospitais apontaram que os acidentes de trânsito são responsáveis por quase 40% do total de internações por causas externas. Os pacientes investigados caracterizaram-se por serem, em sua maioria, jovens e adultos jovens, homens (72%), solteiros (54%), com escolaridade até o ensino fundamental (49%) e residentes em área urbana (92%). Em Bauru, as estatísticas de acidentes apontam para um quadro que não é muito diferente daquele registrado no território nacional. Só no mês de janeiro último ocorreram 6 mortes, que foi um recorde negativo dessa ocorrência para o primeiro mês do ano. O acidente de trânsito é um evento previsível e, em um sentido mais amplo, pode ser evitado. Ocorre em função de condições ou atos inseguros, resultantes de falhas de motoristas/pilotos, pedestres, veículos ou ambiente viário. O ser humano, em geral, é o principal fator para a ocorrência de um acidente de trânsito (75%). As causas diretas mais comuns são as falhas conseqüentes de procedimentos em desacordo com as leis de trânsito (desconhecimento da legislação específica, falta de habilitação, desobediência às normas) ou de suas condições físicas (álcool, drogas, sono/fadiga, visão e audição deficientes) ou psicológicas (desatenção, preocupações, quadros patológicos).

Há uma forte correlação entre o comportamento do ser humano na sociedade e no trânsito. Sabe-se que os condutores que têm maior participação na ocorrência de acidentes, na comunidade, em geral, são pessoas com pouca consciência de cidadania, com tendências anti-sociais. Muitas vezes, atribuem a responsabilidade e o controle dos fatos a outras pessoas ou fontes externas. Já, aqueles que não participam de acidentes, em parte, são cônjuges responsáveis, confiáveis, sóbrios, econômicos e acautelados. Enfim, parece que se repete no trânsito aquilo que ocorre no cenário nacional. Obedecer às leis para quê? “A impunidade prepondera”. Dar preferência ao pedestre? “Oras, as vias foram feitas para os automóveis”. Abster-se de álcool antes de dirigir? Puro preciosismo. Se pego for, “não é obrigatório soprar o bafômetro”. Afinal, o interesse individual inda prevalece sobre o coletivo. Enquanto este quadro permanecer inalterado, a sociedade continuará a chorar pelos seus entes queridos que partiram ou por aqueles que ficaram entrevados em um leito hospitalar ou cadeira de rodas. Como diz um conhecido apresentador de TV: “é preciso passar o Brasil a limpo”.

O autor, Archimedes Azevedo Raia Jr., é engenheiro, mestre e doutor em Transportes, professor e pesquisador da UFSCar