O fato notável na economia esta semana foi a saída de Alan Greenspan da presidência do FED, o Banco Central dos Estados Unidos, após duas décadas ditando a política monetária que ajudou seu país e o mundo a percorrer os caminhos do crescimento que somente uns poucos países (dentre os quais infelizmente o Brasil) não souberam acompanhar. Ele é considerado um mágico, um gênio, o mais arguto presidente de Banco Central que o mundo conheceu. Assumiu o posto em 1986, sucedendo ao professor Paul Volckers, que tinha realizado um eficiente combate à inflação (nos EUA ela alcançara 14% ao ano no auge da segunda crise do petróleo). Logo Greenspan demonstrou alta competência ao enfrentar uma crise muito grave nos mercados financeiros com falência de instituições importantes e quebra de fundos e corretoras, que ele soube superar da maneira mais brilhante.
O dado marcante é que a economia americana funcionou muito bem no que se pode chamar de “era Greenspan”: além de manter a estabilidade plena, praticou a política monetária que permitiu o país crescer à média anual de 3.6% nos dezoito anos de sua gestão, o que para os Estados Unidos é um número espantoso. Graças à sua intuição extraordinária, desmoralizou o tabu de que “o desemprego nos EUA não podia cair abaixo de 6% porque produziria inflação”... Então, se isso acontecesse, “era preciso subir a taxa de juros para conter a expansão da economia” (evitando a criação de empregos), algo parecido com o que foi produzido pelos pobres “gênios” que habitam um rico país abaixo do equador...
Greenspan desafiou os economistas que defendiam aquele mito. Ele não escondia seu ceticismo quanto aos exageros matemáticos e os modelos teóricos de que eles se valiam. Em 1995/96, quase todo mundo criticava a sua “teimosia” em não elevar a taxa de juros porque o desemprego nos Estados Unidos tinha caído abaixo de 6%. A grande maioria dos economistas acreditava que isso ia produzir inflação, mas Greenspan persistiu na política de estimular o crescimento econômico, “pagando pra ver”. Manteve os juros baixos, a economia americana continuou em expansão, o desemprego caiu para 4% da força de trabalho e não houve inflação. Os Estados Unidos continuaram crescendo até hoje. Greenspan é o homem responsável por desmoralizar o mito, tão a gosto de acadêmicos e financistas, que 6% era a taxa de desemprego mínima, abaixo da qual o país voltaria a ter inflação. Ele se aposenta deixando uma extraordinária herança de aumento de consumo e do bem-estar dos americanos, com uma taxa de inflação próxima de 2,5% ao ano.
Seu sucessor, Ben Bernanke, é um economista altamente qualificado que trabalhou com ele no FED e inspirou a criação do sistema de metas inflacionárias. Não creio em mudanças de rumo, até porque o mercado internacional está navegando num mar de grande tranqüilidade, sem problemas de liquidez e com taxas de juros amenas. Isso já dura três anos. Infelizmente, mais uma vez, o Brasil ficou para trás. Não soube aproveitar essas circunstâncias para aumentar a velocidade de seu crescimento, como o fizeram outros países “emergentes”, com sucesso.
O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP. E-mail: dep.delfimnetto@camara.gov.br