10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: O menino de Bauru realizou seu sonho

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 11 min

Ele foi o “salvador da Pátria” do Esporte Clube Noroeste ao tirar o clube da ameaça de falência para colocá-lo novamente na elite do futebol paulista. A paixão pela Maquininha Vermelha, que ele também divide no coração com o Corinthians, é hoje um dos grandes “combustíveis” que ajudam a mover o bauruense Damião Garcia, 75 anos.

Empolgado com a atuação do time, que atualmente está nas primeiras colocações do Campeonato Paulista, Garcia afirma que o time pode “ir longe” na competição e conta os motivos que o levaram a encarar o desafio de reerguer o clube.

Saudosista, ele também recorda os bons momentos vividos na infância e adolescência em Bauru e dá detalhes de como tornou-se um dos maiores empresários do ramo de papelaria do País, além de revelar a curiosa origem do nome Kalunga, a marca de suas empresas. Garcia também não mede palavras ao criticar a falta de apoio da Prefeitura Municipal e do empresariado bauruense com o Noroeste. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

JC – O que o senhor se recorda de bom de sua infância e juventude vividas aqui em Bauru?

Damião Garcia – Tenho boas recordações das pessoas daqui. Lembro de quando era menino, que acho que só as pessoas da minha idade se recordam, do bar Cristal, que ficava na esquina da 1º de Agosto com a rua Rio Branco e era o melhor bar e restaurante de Bauru. E, como próximo dali também tinha cinemas e um teatro, era um local bem movimentado, onde as pessoas iam fazer as caminhadas, o footing e paquerar. O Cristal colocava as mesas na rua e era um bar administrado por uma família maravilhosa, a Padilha, cujo irmão mais velho (Antônio Padilha Filho) era o cobrador dos sócios do Corinthians em Bauru.

JC – Então o senhor freqüentava bastante o bar Cristal?

Damião – Ficava direto ali, pois gostava muito de um jogo que pouca gente sabe que existia ali, que era o pôquer de canequinha. Eram três dados que eram jogados e chacoalhados dentro de uma canequinha de couro e ali no Cristal foi o único lugar que vi isso na minha vida. A gente jogava valendo chope e até dinheiro e se divertia muito por ali naquela época que costumo dizer que era quando a gente era feliz e não sabia.

JC – E quando o senhor começou a trabalhar?

Damião – Temos de fazer de tudo na nossa vida um desafio. E qual era meu primeiro desafio? Por ser de família pobre, era arrumar um emprego. Comecei a trabalhar na Tilibra com 10 anos de idade e fiquei lá até os 28. Lá passei por todos os setores. Entrei como office boy fazendo entregas e outras atividades. Daí fui galgando degraus e o último deles foi o de representante comercial da empresa na Alta Sorocabana, cargo em que, é até chato de dizer, eu ficava sempre em primeiro lugar pelo desempenho e dedicação.

E, ao mesmo tempo em que trabalhava e encarava tudo como um desafio, em cada momento já estava pensando em outros desafios. Assim foi minha vida, que foi feita de desafios. Só cheguei onde cheguei, se é que cheguei em algum lugar, graças a essa filosofia e à Tilibra, que foi uma escola para mim. Ali só aprendi bons costumes graças a uma família maravilhosa, o seu João Coube, a dona Carmen e todos os filhos deles, que me ajudaram bastante. E até hoje sou amigo de todos da terceira geração que administra a empresa.

JC – E como foi a trajetória para tornar-se um dos maiores empresários do País?

Damião – Quando comecei a ter filhos, mudei-me para Assis porque era um local mais central em relação a minha zona de atuação e poderia dar melhor assistência à família. Mas como a Tilibra pagava meu aluguel em Assis, a exemplo do que já fazia em Bauru, pude começar a fazer minhas economias.

Daí despertou a intenção de começar a fazer alguma coisa para manter meus filhos. Não poderia mais viajar e abandonar minha família, pois se você não sabe dirigir os filhos hoje você sabe o que acontece. Abandonar os filhos, que é o que acontece hoje, dá margem para que eles comecem a envolver-se com atividades erradas, como partir para a droga e tinha essa preocupação. Assim, imaginei ir para São Paulo, o que minha mulher era contra.

JC – E o senhor, mesmo não conhecendo ninguém em São Paulo, foi com a cara e a coragem?

Damião – Não conhecia ninguém, a não ser minha mãe que havia se mudado para lá depois de eu passar a morar em Assis. Por isso, a primeira coisa que fiz quando fui para São Paulo foi arrumar um emprego em um estabelecimento de papéis de fax, seguindo sempre o ramo do qual nunca saí. Daí começou me despertar o desejo de montar uma gráfica, que era uma coisa que eu sabia fazer. Então, montei a DG Indústria Gráfica, que tenho até hoje, em uma quarta-feira e a primeira visita que recebi, em um sábado, foi o Henrique Coube, que sem falar nada para mim foi me visitar e fiquei até com vergonha.

JC – E depois da gráfica o senhor já montou a Kalunga?

Damião – Sim.

JC – E de onde surgiu esse nome Kalunga, marca famosa por dar nome à sua rede de papelarias e também por já ter patrocinado o Corinthians?

Damião – Tinha por objetivo montar uma empresa em que pudesse começar a colocar meus filhos como sócios. Queríamos usar um nome curto, diferente e que chamasse a atenção. Tentei aproveitar os nomes dos meus filhos para tentar formar o nome da loja com eles. Só que fui almoçar na casa de um amigo que tinha um cachorrinho chamado Kalunga. Nunca tinha ouvido falar nesse nome e, por isso, perguntei para meu amigo as razões de ter colocado o nome de Kalunga no cão. Ele me explicou que a palavra tinha dois significados. Com a letra “K”, ela significa “tudo de bom” em um dialeto. Saí da casa dele achando bonito esse nome, meus filhos gostaram, registrei a marca e montei a empresa.

JC – O que levou o senhor a tomar a decisão de reerguer o Noroeste?

Damião – O Farah (Eduardo José Farah), que na época era o presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), me chamou para almoçar e disse que tinha uma má notícia. Ele falou que seria obrigado a rebaixar o Noroeste para a Série B porque havia muitos processos contra o clube na FPF. Para evitar, pedi uns dias para o Farah para conversar com o pessoal de Bauru para tentar acertar a situação. Montamos um grupo de apoio e entramos em entendimentos com a diretoria que estava à frente na época, que renunciou. Mas nunca deixei de colaborar com o Noroeste, pois faço isso desde 1988. E hoje estou no Noroeste porque Deus me deu a oportunidade de fazer algo por nossa terra.

JC – O senhor ficou chateado com os autos de infração aplicados recentemente pela Vigilância Sanitária ao Noroeste?

Damião – Fiquei. No passado, quando o Nilson Costa era prefeito, chamei a atenção dele. Falei que ele não era obrigado a ajudar o Noroeste, mas pedi também que não atrapalhasse o clube.

JC – E o senhor acha que a situação é a mesma agora na administração do Tuga?

Damião – É. A prefeitura não ajudou todo esse tempo, mas agora que estou aqui eles querem ficar em cima. Mas vou falar com o prefeito ainda. Para falar a verdade, ainda nem sei direito o que aconteceu agora entre o Noroeste e Prefeitura, pois estou sabendo apenas por alto. Mas sabe o que sou capaz de fazer? Dar o clube para o prefeito administrar e ele assumir essa responsabilidade.

JC – O senhor ainda está insatisfeito com o apoio ou a falta dele que Bauru dá para o Noroeste? Não me refiro à torcida, mas sim a quem poderia ajudar financeiramente ou de alguma outra maneira o clube...

Damião – Muito insatisfeito. Os empresários daqui, com algumas exceções, não ajudam em nada. Não preciso dos empresários e nem eles precisam de mim, mas Bauru e sua comunidade, principalmente as mais carentes, precisam do Noroeste. Isso porque também estamos fazendo um trabalho social no clube, com escolinhas em sete categorias de várias faixas etárias. A prefeitura, em vez de ficar fazendo o que está fazendo atualmente, deveria cumprir o que me falou o secretário de Esportes (Antonio Carlos Barbosa) ao prometer que iria dar dois campos reformados para que pudéssemos fazer escolinhas para as crianças. A prefeitura deveria fazer uma parceria com o Noroeste para dar assistência, e não o que está fazendo hoje.

JC – Em razão dessa falta de apoio, os torcedores têm medo que o senhor acabe desistindo de continuar à frente do Noroeste. Corremos esse risco?

Damião – Por enquanto, não estou pensando em desistir. Como estamos na 1ª Divisão, as coisas começam a mudar um pouco financeiramente. Vamos disputar agora a Copa do Brasil e já começa a entrar um pouco de dinheiro e, com isso, vou ver se vou levando.

JC – E o que o senhor achou das comparações que um grande jornal da Capital fez ao chamá-lo de “Kia” do Noroeste, em referência ao iraniano da MSI que injetou dinheiro no Corinthians?

Damião – Não gostei por várias razões. Primeiro porque não quero ser comparado com ninguém. E segundo porque vai me comparar com um cara que não é nem do Brasil e tem algumas coisas contra ele por aí. Teriam de me comparar com o Kia se eu fosse mafioso. Não sou mafioso e como é que vão me comparar com ele? Vou ver até quem escreveu essa reportagem e chamar a atenção dele.

JC – Como o senhor avalia a atual campanha do Noroeste? Dá para brigar pelo título ou o senhor acha que o clube deve se preocupar apenas em não ser rebaixado?

Damião – Não vou dizer que montei o time para ser campeão, mas também não me preocupei apenas em formar uma equipe para não cair. Queria até fazer com os jogadores, mas depois mudei de idéia, um “bicho” por desempenho. Por exemplo, quantias proporcionais se eles terminassem o campeonato entre o quinto e oitavo lugares, mas para baixo disso não ganhariam nada. Montei o plantel para isso, mas, felizmente, foi melhor do que esperava e, pelo que tenho visto dos outros times e se caminhar do jeito que está indo, vamos chegar longe. Nosso time pode não ser superior aos outros, mas não há time superior ao nosso.

JC – Nem os quatro grandes de São Paulo - Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos - são melhores que o Noroeste?

Damião – Não. O Corinthians, que é o campeão brasileiro, batemos aqui por um 1 a 0 e poderia ter sido por mais. Além disso, ganhamos com tranqüilidade do América, lá em São José do Rio Preto, time que o Santos suou para vencer e só garantiu a vitória no finalzinho. E perdemos um jogo contra o São Caetano, que o Noroeste dominou e ainda teve dois pênaltis a favor não marcados pela arbitragem. Por isso, repito que, pelo que tenho visto, nosso time vai longe no Paulistão nesse ano.

JC – E quanto aos reforços? Ainda vem mais gente ou o Noroeste já parou de contratar?

Damião – Vamos ser obrigados a contratar mais um lateral direito por causa da contusão no braço do Paulo Sérgio. Fora isso, não contrataremos mais.

JC – É verdade que o Noroeste esteve muito próximo de acertar a contratação do Edmundo, que foi para o Palmeiras, para jogar no Paulistão 2006?

Damião – É verdade. Tenho muita amizade com o Edmundo e quem o levou para o Corinthians fui eu. Ele até falou para uma rádio de São Paulo sobre essa possibilidade de ir para o Noroeste, pois eu tinha ligado para ele e combinamos até de nos encontrarmos no hotel em que ele estava hospedado. Só que o Edmundo estava ganhando muito no Figueirense e ele estava realmente balançado a ir para o Palmeiras, que foi o que acabou ocorrendo.

JC – Qual é seu grande sonho para o Noroeste?

Damião – É que o Noroeste vá para a Série C do Campeonato Brasileiro, lute para subir à Série B e depois para a Série A. Tenho certeza que vamos chegar rapidinho, como fizemos nos campeonatos paulistas, na Série A do Brasileirão.

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Perfil

Nome - Damião Garcia

Data de nascimento - 16/05/1930

Naturalidade - Bauru

Cor preferida - “Vermelho e branco, em homenagem ao Noroeste.”

Time do coração - “Sou noroestino e corinthiano de nascença, mas sou mais noroestino. Quando é Noroeste e Corinthians, sempre sou Noroeste.”

Hobby - “Futebol. Quando era jovem, era um volante que, modéstia à parte, batia com os dois pés.”

O que gosta de fazer em casa - “Bater papo com os amigos e tomar um aperitivo relembrando as coisas boas do passado.”

Para quem daria nota 10 - “Getúlio Vargas, pois foi ele quem criou os direitos dos trabalhadores.”

Para quem daria nota 0 - “Para os políticos de modo geral e, principalmente, para o Juscelino Kubitschek, que ajudou a acabar com as ferrovias no País.”