10 de julho de 2026
Nacional

Arquivo sobre período militar será digitalizado

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Ribeirão Preto - O momento crucial em que o regime militar no Brasil começava a conviver com manifestações democráticas, em razão de um processo de abertura política, está registrado em acervo de cerca de 20 mil recortes de publicações que será, a partir de fevereiro, digitalizado e colocado na Internet.

O arquivo de política militar Ana Lagôa, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), deverá ser disponibilizado na rede como ponto de referência nacional na área, conforme projeto do consórcio “Forças Armadas Século 21”, classificado em primeiro lugar no Programa de Apoio ao Ensino e à Pesquisa Científica e Tecnológica em Defesa Nacional (Pró-Defesa). Do consórcio, além da UFSCar, participam a Fundação Getúlio Vargas e a Universidade Federal do Pará.

O Pró-Defesa visa a implantação de redes de cooperação acadêmica no Brasil na área de defesa nacional. O “Forças Armadas” irá receber R$ 370 mil. Na UFSCar, a previsão é de formar cinco doutores em cinco anos, além da digitalização do acervo do Ana Lagôa.

Criado há dez anos, o arquivo tem quase 1.500 livros, uma hemeroteca (jornais e revistas) com 2 mil fascículos e clipping com cerca de 20 mil recortes de jornal datados de 1978 a 1985. A revista especializada “A Defesa Nacional”, por exemplo, tem exemplares que vão do primeiro, de 1956, a 2004.

O período 1979-85 foi crucial na história política brasileira, pois foi o momento em que o regime militar, já havia 15 anos no poder no País, começou a ceder, pressionado pelos movimentos organizados e por manifestações populares (leia texto abaixo). “Acho que é uma das melhores coleções sobre esse período”, afirmou o professor João Roberto Martins Filho, coordenador do projeto. A abertura do arquivo vai tornar possível o acesso a registros factuais do processo de abertura política no Brasil, que percorrem temas como anistia, repressão e movimentos sociais - no total, são 49 temas catalogados.

O historiador Marco Antonio Villa, do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar, diz que foi em 1984 o momento mais importante na retomada da democracia. “Tanto a Lei da Anistia -agosto de 79 - quanto o retorno dos exilados, a reorganização partidária e as eleições de 82, a mais livre desde 64 (colaboraram), mas a campanha das “Diretas Já’ é que colocou a ditadura numa “sinuca de bico’”, disse o historiador.

“Uma simples emenda com 15 linhas deixou o governo contra a parede e levou a uma grande mobilização popular, desgastou o regime militar e abriu caminho para a eleição de Tancredo Neves”, acrescentou.

A maior parte do conteúdo jornalístico e considerável parcela da biblioteca foram doados por Ana Lagôa, que no regime militar atuou na Folha. Qualquer lugar Não que o fato de o arquivo estar fora da rede impedisse a consulta ao material por estrangeiros, mas agora isso será ampliado. “Se alguém quiser determinado artigo, posso simplesmente mandar em anexo para qualquer lugar do mundo”, disse Martins.

Antes, era assim: o pessoal pedia a pesquisa, os funcionários do arquivo faziam, tiravam cópia e enviavam. Houve até um americano brasilianista, professor na Nova Zelândia, que foi pessoalmente ao Ana Lagôa coletar informações sobre Forças Armadas no Brasil e um jovem argentino que remexeu nos arquivos sobre desaparecimentos políticos.

“Um aluno especial da Argentina, que tinha parente desaparecido, ficou pesquisando um tempo aqui’’, contou Ana Virgínia Moreira Amaral, 31 anos, socióloga que trabalha no arquivo. De seu familiar, ele nada encontrou, mas material havia de sobra sobre a Argentina, além do Chile.